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Falta de crédito a pequenas empresas ameaça mais da metade dos empregos no Brasil

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Imagem do site Recontaai.com.br

Em estudo realizado pela FGV, pesquisadores afirmam que a falta de crédito para microeemprendedores individuais, micro e pequenas empresas precisa ser revertida.

Em conjunto com a jornalista Silvana Salles

Já é consenso entre economistas que a pandemia de Covid-19 trouxe consigo a pior crise econômica dos últimos 100 anos. E os CNPJs que correm o risco de sofrer os piores efeitos dessa crise são dos Microempreendedores Individuais, Microempresas e Empresas de Pequeno Porte.

Uma pesquisa realizada pela FGV mostra que essas empresas precisam de acesso a crédito para atravessar a pandemia sem ter de fechar as portas definitivamente, mas os bancos oferecem bem menos do que elas necessitam. Para fechar a conta, faltam aproximadamente R$ 202 bilhões – e esse nem é o pior cenário.

A pesquisa foi realizada pelos professores Lauro Gonzalez e Arthur Ridolfo e pelo pesquisador Bruno Barreira, no Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV. Para calcular o montante de crédito que falta às micro e pequenas empresas, eles contabilizaram a oferta de crédito dos bancos em 2019 e, a partir daí, estimaram a quantia que seria necessária para cobrir as necessidades delas durante a pandemia.  

Micro epequenas empresas são responsáveis pela maioria dos empregos no Brasil.

De acordo com a pesquisa, hoje no Brasil há 17,3 milhões de empreendimentos que compreendem as categorias citadas acima. Esses pequenos negócios são fonte de sustento da maior parte do povo brasileiro. Somente as Micro e Pequenas empresas são responsáveis por 54% dos empregos formais do país. É mais da metade dos postos de trabalho abertos no Brasil, mesmo sem considerar os empregos informais e os  Microempreendedores Individuais. 

Um exemplo de quem sofre na pele com essa situação é o de Priscilla Kelly da Silva Pinheiro. Produtora de eventos, foi demitida da empresa em que trabalhava no início da pandemia. De acordo com ela, isso aconteceu “pois as demandas (de eventos) foram canceladas devido às questões solicitadas pelos órgãos de saúde”, e com isso, a empresa está com o mínimo possível de empregados. No mesmo sentido o professor Lauro Gonzalez afirma: “A não sobrevivência dessas empresas pode exacerbar o momento negativo que vivemos”. 

Micro e pequenas empresas já nascem com um problema congênito

Segundo Arthur Ridolfo, o processo de criação das micro e pequenas empresas, assim como das atividades de microempreendedor individual, não tem um planejamento adequado. “Essas empresas já nascem com um problema congênito, que é o acesso restrito a recursos”, disse na coletiva de lançamento da pesquisa.

De acordo com ele, a falta de recursos, aliada à pouca compreensão da necessidade da criação de um capital de giro, colocam a sobrevivência dessas empresas em risco. Sobretudo, durante a atual crise de demanda e à política de isolamento social impostas pela pandemia. 

No mesmo sentido, o professor do Instituto de Economia da Unicamp Marco Antonio Martins da Rocha afirma que as empresas em questão têm uma dinâmica muito específica no Brasil. Segundo ele, geralmente elas se financiam no longo prazo por meio de linhas bancárias e a partir de empenho de parte do patrimônio pessoal dos empresários. 

O professor da Unicamp explica que as micro e pequenas empresas utilizam como capital de giro o fluxo de caixa e a antecipação de recebíveis. Nessas categorias estão as vendas e os pagamentos antecipados de cartão de crédito. Isso significa que essas empresas precisam de fluxo de caixa contínuo para sobreviver.

Pequenas empresas terão que extinguir postos de trabalho

O bar Kaia, na região central de São Paulo, é um dos raros casos de microempresa do ramo cujas finanças não são totalmente reféns do fluxo de caixa. Mesmo com uma queda de mais de 80% no faturamento durante a pandemia, os três sócios conseguiram reorganizar a operação para chegar perto da estabilidade. Passaram a vender lanches e bebidas no delivery, suspenderam os contratos dos sete funcionários registrados e, em maio, conseguiram um empréstimo junto ao banco.

Younes Bari, um dos três sócios do bar, conta que outros pequenos negócios da região não encontraram a mesma facilidade para obter crédito. “Muitos bares e restaurantes trabalham alavancados. Basicamente, você opera com dinheiro que não é seu, seja capital de giro, seja empréstimo para expansão. São poucas as empresas que trabalham quitadas”, diz ele.

Para piorar a situação de microempresários, empresas de pequeno porte e também dos microempreendedores individuais, muitos deles já estavam bastante endividados antes do novo coronavírus chegar ao Brasil. Marco Rocha, da Unicamp, aponta que o endividamento vem desde 2015, junto com a inadimplência muito alta dessas empresas. Isso promove um estrangulamento das possibilidades de crédito para elas. 

Com o aumento da vulnerabilidade das empresas, em um cenário mais pessimista, o risco é de perder postos de trabalho. Rocha dá um exemplo: “se a demanda diminui tanto, um restaurante ou um bar demite alguns funcionários, mas retornando a um cenário de crescimento econômico, ele tem condição de contratar novamente. Só que no cenário atual você está falando da extinção dessas vagas de emprego.”

“É uma crise (que), por conta da radicalidade dela, atinge a estrutura de ocupação no Brasil e pode ter um efeito que pode significar, no período de retomada econômica, uma altíssima informalidade”, explica o professor.

Oferta de crédito é a saída

De acordo com o estudo, estima-se que conjuntamente as empresas tratadas faturariam R$ 3,52 trilhões por ano. Mas, com as medidas de isolamento para lidar com a pandemia, pequenas empresas tiveram  sua capacidade de geração de receita afetada. Nesse sentido, a perda de receita poderá levar ao fechamento de muitas delas. 

Por isso, para salvá-las, e os empregos que elas garantem, é necessária uma injeção de crédito. Para tanto Congresso Nacional e governo criaram o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe). Mesmo com pelo menos dois meses de atraso em relação às necessidades do setor, o Pronampe vem sendo aguardado com ansiedade para os empresários que estão com a corda no pescoço. Ele possibilitará até R$ 15,9 bilhões em crédito para micro e pequenas empresas, e tem como característica mais notável o fato de que o governo arcará com 85% do risco.

Além de atrasado, segundo os pesquisadores da FGV o programa será insuficiente. Os cálculos do estudo projetam uma necessidade de R$ 472 bilhões para que as empresas pudessem manter os empregos, o capital de giro e as portas abertas. Contudo, além do Pronampe, outras linhas de crédito vêm sendo disponibilizadas. E, de acordo com o estudo, elas totalizam R$ 270 bilhões.

Nesse sentido, o estudo afirma que a lacuna entre a demanda potencial das empresas e  oferta anual de crédito é de R$ 202 bilhões. Além do fato de a oferta de crédito ser menor do que a necessidade dos empresários, há também a possibilidade desse crédito não chegar a ponta. 

Para tanto, o professor Lauro Gonzalez afirma que a saída é governamental e que dificilmente os bancos privados e as instituições financeiras terão interesse em ofertar o crédito aos empresários. Nesse sentido, afirma: “Resta a necessidade do governo e dos Bancos Públicos desempenharem um papel contra-cíclico”.