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Fala Aí Bancário: Por trás da máscara, o caixão de todos os brasileiros

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Imagem do site Recontaai.com.br

Beto Nascimento é o pseudônimo de um bancário que não pode se identificar por receio de retaliações. Neste artigo, ele abre o jogo de como tem sido a rotina de trabalho na pandemia

Fim de tarde do domingo. Apreensão no ar. A qualquer momento, uma notificação pode surgir na tela do celular com a sua escala de trabalho. Sim, e você achando que seu home office iria durar? O que antes era a solidariedade, mascarada de trabalho voluntário, agora chegou como convocação. Isso mesmo: você foi convocado para entrar em campo, dirija-se à agência mais próxima! “E daí? Quer que eu faça o quê?”, como diz nosso presidente.

Nesse campo minado, a alta cúpula da Caixa não quer saber se você é do grupo de risco, se você mora sozinho, com seus pais ou se tem filhos. O que importa é “coragem, arregace as mangas e vá fazer triagem na fila”. Aperto de mão, conversas, se possível evite o distanciamento; precisamos mostrar que conseguimos ser o Banco do Povo, que essa “gripe” não pega na gente. Em análise…

Enquanto isso, no campo minado das agências, atendimento ao público e pandemia, vem a pergunta por trás da máscara: será que esse “caos” no atendimento não estava previsto? Qual motivo de não chamar outros bancos para uma atuação conjunta? Será que há uma forte tendência em minar a reputação, lucro e a imagem da Caixa frente aos brasileiros? E daí?


Tendência, não. Fatos. Não podemos esquecer do Guedes e a fixação dele em vender as estatais. No começo do ano, falou para quem quisesse ouvir que as estatais são portas abertas para a corrupção, que desequilibram as contas públicas e que o setor privado faz melhor gestão dos recursos do que o Estado. Teorias da escola de Chicago de mais de 60 anos atrás. 

Ora, ora. Coincidência ou não, a Caixa é obrigada a assumir um auxilio emergencial que antes eram previstos para 10, 15 milhões de beneficiados e, de repente, viraram 50 milhões. É como se o Banco fosse obrigado a atender, de uma vez só, mais da metade de todos os seus clientes! Oferece seus empregados em jornadas exaustivas que começam às 6h30 da manhã e incluem sábados, domingos e feriados. Exerce o papel “social” em detrimento da saúde do povo brasileiro. O resultado disso: em algum momento vamos “achatar” a curva de transmissão do coronavírus e vamos ter então a curva exponencial de licenças para tratamento de saúde, casos de depressão, de ansiedade, de esgotamento mental. Em análise…

“E daí? Quer que eu faça o quê?”

Os heróis que hoje vestem a capa, não vão conseguir manter o mesmo ritmo para alavancar metas e resultados até o final do ano. Se somos heróis, padecemos na mão dos nossos verdadeiros vilões: e não é o coronavírus, mas o vírus sem cura da incompetência, falta de planejamento e descaso desse governo e gestão. Pouco importa se bancários e cidadãos vão morrer: “E daí? Quer que eu faça o quê?”, como diz nosso presidente.

Estamos vivendo o momento em que a estratégia é sugar o que há de melhor da Caixa, esgotar seu capital humano, usufruir de sua capilaridade, para logo em breve, ter justificativas para vendê-la. 

Enquanto os empregados de carreira desenvolvem aplicativos e soluções em tempo recorde, a falta de estratégia, planejamento e conhecimento do Brasil por este governo é estarrecedora: buscaram uma solução digital ignorando que quase 20% dos brasileiros, que vivem na miséria, não têm acesso à internet ou celular no País. Eles correram para a Caixa em busca de esperança e qualquer informação, já que o Banco não sabe mais se comunicar com a população, expondo os empregados da Caixa a todo tipo de risco possível: pagando auxílio emergencial, FGTS e Bolsa Família, tudo de uma vez só. “E daí?”

Esse é o governo e a gestão da cafonice, da falta de capacidade, de inteligência e da bizarrice: hoje a presidência se diz preocupada com a morte de empresas e seus CNPJs, mas faz pouco caso com a morte de quase dez mil brasileiros. “Em análise”. 

E daí que, talvez seja a hora da alta direção atualizar o novo slogan da Caixa para: “O caixão de todos os brasileiros”. Com a dança dos africanos ao fundo, de máscara.

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