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Artigo – Entre a exceção e o essencial, o delivery

Neste artigo, a advogada trabalhista e especialista em Direito Coletivo do Trabalho, Luara Borges Dias, pergunta: O quão desconfortável lhe é o conforto do delivery?

O delivery é essencial?
Imagem de postcardtrip por Pixabay

Na situação atual em que se encontra a expansão das formas de isolamento, decorrente da pandemia de Covid-19 pelos continentes, muitos restaurantes, no Brasil, têm optado em manter apenas sistemas de entrega, até mesmo porque a maior parte das medidas e decretos assim preveem.

Então, uma das maiores plataformas de entrega de alimentos do mundo anunciou como medida preventiva a entrega sem contato direto, opção do cliente. O entregador deixaria a encomenda no tapete, tocaria a campainha, a pessoa sairia e pegaria a encomenda. Já a mais famosa rede de fast food do mundo afastou seus arcos que formam o M, em ação simbólica de combate ao coronavírus.

O quão efetiva são essas ações?

Vamos nos preocupar com a cadeia humana envolvida na produção do pedido que confirmamos há quarenta minutos? Estamos, reiteradamente, concordando com a quebra do Protocolo da OMS para as pessoas que estão aceitando o pedido, preparando-o, recebendo o pagamento por ele, pegando o pedido no balcão da lanchonete, colocando-o no baú da motocicleta, pedindo ao porteiro avisar que chegou, para deixá-lo no seu tapete!

Por que os entregadores de delivery são exceção?

Apenas por que consideramos essencial comer um rondeli de brie com damascos?

Nossa consciência, enquanto consumidores, é de que é mais importante comer um hambúrguer com batata e refri do que a de exigirmos, forçarmos, que essas redes se comprometam seriamente com a saúde das pessoas – dos empregados –  envolvidos no processo?

Empregados que, por vezes, sequer “ostentam” o status de empregado, de fichado, como se diz popularmente no Distrito Federal. Afinal, não podemos deixar de considerar que os entregadores são catalogados pelas plataformas digitais como “prestadores de serviços”, já que lhes é dada a oportunidade de trabalhar, com toda a responsabilidade pelo próprio equipamento e por mais que oito horas por dia, para alcançar até dois salários-mínimos mensais. Enquanto 30% do valor da taxa de entrega fica para a plataforma que promove este fabuloso encontro digital entre o motoqueiro, o restaurante e você, o consumidor.

Sem férias. Sem décimo-terceiro. Sem asseguramento previdenciário.

O quanto invisibilizamos a existência humana dos que compõem o circuito de entrega de lanches, pizzas, massas, sushis –  o que você quiser pedir pelo aplicativo –, ao permitirmos, por conivência, que sejam exceção às recomendações de isolamento?! Estamos contribuindo para o adoecimento ou para o enriquecimento de quem? À custa de que comodidade continuamos, enquanto consumidores, a apoiar essa situação?

Uma medida simbólica é o suficiente para aliviar nossas culpas?

Se antes já estava posto que a dignidade da vida da vaca e da galinha mortas no prato ganham mais espaço para discussão, engajamento e empatia do que a garantia de dignidade a quem prepara e serve o alimento, agora estamos aguardando para assistir, imóveis e calados, ao momento em que ser conivente com esta situação deixará de ser apenas insustentável, para ruir ao nosso redor, em forma de miséria e desigualdade social.

Já não dá mais para continuar achando que “tá ok” compactuar com esta máquina de moer gente, em meio à pandemia.

O quão desconfortável lhe é o conforto da comida recebida em sua porta?

Solidariedade para quem?

Luara Borges Dias: Advogada, Direito do Trabalho, Direito Coletivo do Trabalho em LBS Advogados.
E-mail: [email protected]