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A elevação da taxa de juros nos EUA e seu impacto no Brasil

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sergio

Dizia o ex-ministro (falecido) Juracy Magalhães, que o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil. Será verdade no caso da provável elevação da taxa de juros nos EUA a partir de março de 2022?

Iniciemos pela história econômica recente. Os EUA consolidaram o papel de principal potência mundial ao final da 2ª Guerra Mundial. Três são as principais razões dessa liderança estadunidense:

1) é a maior economia do mundo desde o início do século 20;
2) a hegemonia da sua moeda, o dólar, principal moeda nas transações comerciais e financeiras; e
3) é a maior potência militar.

Como o Estado estadunidense, através de seu Banco Central (FED), controla a “moeda referência do mundo”, todas as decisões do banco central americano têm influência na economia mundial.

Mudemos de cena. Desde a crise financeira mundial de 2008, o FED vem praticando taxas básicas de juros muito baixas ou negativas. A principal política de combate à inflação é a política monetária.

A taxa de inflação mundial e nos EUA, em 2021, foi a maior em três a quatro décadas, desde as décadas de oitenta/noventa do século passado. E o Banco Central americano anunciou recentemente que deve iniciar em março de 2022 a elevação dos juros básicos nos EUA para combater essa inflação.

Aumento de juros nos EUA e impacto sobre o resto do mundo

No mercado mundial é consenso que a aplicação financeira mais segura do mundo é o título da dívida pública estadunidense. Nessa avaliação está implícito que se o Estado americano quebrar um dia, todas as outras aplicações já quebraram antes.

Os títulos americanos são um refúgio seguro para os aplicadores que não querem correr risco. Mas quando o rendimento dos títulos americanos é muito baixo (como tem sido nas últimas décadas), o capital financeiro “vagueia” pelo mundo correndo mais riscos e buscando maior rentabilidade.

Esse movimento do capital financeiro vale para praticamente todos os países. Mas vale, sobretudo, para os países emergentes que dependem mais dos investimentos dos fundos e investidores dos países centrais.

Assim, quando os juros nos EUA sobem, podemos imaginar como se fosse um aspirador de pó sugando dinheiro do resto do mundo e carregando esse dinheiro para os EUA.

Essa saída de recursos, para a maioria dos países emergentes, transforma-se numa enorme dor de cabeça para a política econômica e para a inflação. Por quê? Por um motivo simples. Ao se desfazer de aplicações financeiras nos países emergentes, os capitais vendem as aplicações em moeda daquele país. A moeda desvaloriza-se. E uma moeda desvalorizada pressiona os preços dos bens e serviços importados contribuindo para elevar a inflação.

O Brasil e a elevação dos juros nos EUA

O Brasil é um dos países mais abertos do mundo para os movimentos de capitais. Aqui os investimentos financeiros podem entrar e sair com facilidade. Se esses investimentos, na bolsa de valores, nos títulos públicos, nos títulos de empresas privadas e também na aplicação entre as matrizes e filiais de empresas estrangeiras aqui sediadas, forem atraídos para os EUA por conta da elevação dos juros por lá, haverá forte pressão para desvalorizar o real e valorizar o dólar. E, se de fato isso acontecer, a inflação brasileira, que já está alta, será pressionada para cima.

É inevitável a desvalorização do real se as taxas de juros subirem nos EUA? Essa é a resposta que vale um milhão de dólares! Vários fatores influenciam e influenciarão a taxa de câmbio aqui no Brasil. O resultado final é incerto.

Ontem (03/02), o Conselho de Política Monetária elevou a taxa básica de juros, a Selic, para 10,75% ao ano. O maior valor em quase 5 anos! A diferença entre a taxa de juros no Brasil e nos EUA seguirá muito grande, mesmo com a subida dos juros por lá. Talvez o capital financeiro aplicado no Brasil prefira permanecer por aqui para ganhar mais dinheiro, ainda que correndo mais risco.

Outro ponto importante é que, em outros momentos da história, quando os juros sobem nos EUA, o dólar valoriza e os preços das commodities (petróleo, minérios, alimentos) caem. Diante de um quadro de inflação mundial inédito nas últimas décadas, é difícil afirmar que a queda das commodities ocorrerá dessa vez também.

E agora José? Como fica o Brasil nessa confusão?

Se a avaliação dos investidores estrangeiros entre a diferença dos juros nos EUA e no Brasil for favorável ao Brasil, a pressão para desvalorizar o real não será tão forte. Se os preços das commodities caírem no mercado internacional, a inflação brasileira poderá ceder um pouco. Mas, e se ocorrer o contrário?

Para o futuro governo ficarão esses desafios. Como enfrentar essa inflação mundial e brasileira e também enfrentar a elevação dos juros nos EUA? É bom colocarmos nossa “barba de molho”. Pensar em soluções heterodoxas como impostos sobre movimentos de capitais, impostos de exportação, controles temporários de preços, e por aí vai.

Ficar ao sabor do transatlântico estadunidense e de suas decisões domésticas pode ser o caminho para quebrarmos a cara!