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Eleições 2022: Pesquisas, Mídia e Excluídos – como sair da estagnação

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Eleições Lula Bolsonaro
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Ouça, baixe e envie o comentário de Maurício Falavigna

Duas pesquisas realizadas entre 21 e 23 de março foram liberadas na semana passada. Embora os números sejam razoavelmente similares, vamos basear os comentários na Datafolha, já que abordou pontos de fluxo e um universo maior (mais de 2.500 entrevistados), com menor margem de erro.

Os números demonstram a solidez dos dois candidatos principais e a certeza de que qualquer aventura eleitoral fora dessa disputa (a chamada terceira via) só carrega em si a tarefa de levar a eleição para um segundo turno. Cenários com nomes variáveis não alteram essa realidade. A consolidação de diferenças semelhantes a setembro do ano passado mostra que algumas tendências dificilmente se reverterão. O que procuramos aqui, nos números da pesquisa e no cenário político, são as possibilidades de superar essa estagnação das preferências. Ou seja, como Lula aumentaria seus votos (43%) para vencer no primeiro turno e como o atual presidente superaria uma rejeição (55% ) que, hoje, torna sua reeleição inviável.

Algumas tendências se consolidam: entre quem ganha até dois salários mínimos e entre os que ganham mais de dez salários, vemos a maior diferença de votos. Entre os mais pobres, Lula possui o dobro de intenção de votos (32% a 16%). Na estreita classe privilegiada, Bolsonaro praticamente repete a diferença (39% a 24%). Em termos de escolaridade, entre os que possuem apenas o Fundamental, a mesma diferença a favor de Lula se repete. Mas, quanto maior o tempo de estudo, ela diminui consideravelmente, chegando a um empate técnico. O que aponta mais uma vez uma relação entre estratos sociais privilegiados e a manutenção do status quo, uma satisfação maior com o panorama atual. Essas relações apontam com realismo para quem serve este governo, e onde se encontra a esperança de mudança.

A importância dada ao pleito ainda mostra um desânimo significativo. O grupo que mais afirmou ter “grande interesse” nas eleições foi o de empresários (71%). Enquanto isso, 31% dos desempregados à procura de vagas e 29% dos desalentados afirmam não ter interesse algum no processo eleitoral. Em outros recortes, Bolsonaro só ganha entre brancos, dentro da margem de erro, entre os sulistas e apresenta uma vantagem significativa entre os evangélicos (33% a 20%). Também vale ressaltar que a intenção bolsonarista de voto é predominantemente masculino e aumenta com a faixa etária, a partir dos 45 anos. Comparando com pesquisas anteriores, o leve crescimento do atual presidente pode ser revelado entre os evangélicos e pessoas com idade acima dos 60 anos.

Dentro da perspectiva de mudança, está claro que é importante para a campanha petista o convencimento dos mais pobres, desalentados, marginalizados e excluídos que perderam o interesse no processo político. Dentro de um cenário com votos razoavelmente consolidados, não vale tanto a tentativa de reversão de intenções de quem está confortável com a atual conjuntura, com o reforço da desigualdade.

É mais produtivo levar a massa desalentada a crer na mudança, no processo político, rememorar o amparo social e o período de pleno emprego e maior renda das administrações petistas. O público tradicional ligado à esquerda, mesmo sendo de classes média e alta, mesmo tendo críticas à candidatura petista, não irá votar numa candidatura abertamente retrógrada, eivada de preconceitos e de perfil autoritário.

Inserções de Lula na tevê aberta, rompendo a censura midiática de anos, a atuação dos Comitês populares nas ruas e o temário da campanha focado no trabalho, na renda, na segurança alimentar e na presença do Estado, parecem ser a melhor solução para conquistar a massa de votos dos excluídos. No entanto, enfrentar o complexo midiático, que divide entre o apoio explícito ao presidente e críticas que atacam aspectos da moralidade, é o grande desafio.

A mídia mais crítica aprova o privatismo e o favorecimento do capital financeiro, enquanto demonstra horror com o discurso preconceituoso veiculado pelo presidente e seus apoiadores mais próximos. Substitui um escândalo de corrupção no MEC pelo entusiasmo adolescente em um festival de música cujo ingresso era de mais de 1000 reais – uma forma de fingir oposição, relevando as pautas morais que não favorecem a candidatura de oposição. Exibir entre os sorrisos dos apresentadores de telejornais os artistas que, independente de sua qualidade, agradam nichos do público ao levantarem a bandeira “Fora Bolsonaro”, só coloca aparentemente uma emissora ao lado da oposição. Mas levanta a oportunidade (talvez com alegria ainda maior) do atual presidente disparar sua pauta moral, apostando em medos presentes no imaginário social.

Não foi à toa que os gritos de “Lula Lá” no ensaio técnico da Sapucaí lotada, no mesmo final de semana do festival, foi escondido pelos noticiários. Também não foi à toa que Bolsonaro afirmou, no final de semana, que a eleição não se dará entre direita e esquerda, pois não se trata de política, mas sim de uma luta entre o Bem e o Mal. Ele aposta no conservadorismo moral da sociedade, especialmente dos mais pobres.

Para expandir os votos, é preciso mirar nos mais pobres. Não há perspectiva de Bolsonaro reverter o quadro de miséria e desespero instalado na sociedade. A inflação deve continuar subindo, os combustíveis não ficarão acessíveis, as vagas de emprego geradas não aumentarão a renda do trabalhador. Mesmo o Auxílio Brasil não parece ter suscitado um efeito de crescimento de sua popularidade. O mundo real e material é o reino da desigualdade, e a desigualdade é a bandeira deste governo. Ricos cada vez mais ricos reinando sobre uma massa de despossuídos.

O discurso fascista terá de apelar para ideais religiosos; imagens de ordem, Pátria e família; a vontade de Deus e das armas. O discurso da esquerda terá que fazer o público manter os pés no chão e voltar à realidade. Mostrar que pregação não dá camisa a ninguém e nem põe comida na mesa. Descobrir soluções que façam a maior parte da população lembrar de um tempo recente, comparar realidades e convencê-la de que é possível viver e sonhar mais uma vez.