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Eleições 2022: O brasileiro quer um presidente que vai garantir emprego e comida na mesa

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opina mauricio
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"É
A gente quer viver pleno direito
A gente quer viver todo respeito
A gente quer viver uma nação
A gente quer é ser um cidadão
A gente quer viver uma nação
"

(É, Gonzaguinha)

A última pesquisa Quaest mostra que só há dois apelos eleitorais para três quartos da população. Enquanto a base da pirâmide escolhe Lula, cerca de um quarto do eleitorado permanece fiel ao atual governante. Os nomes da chamada “terceira via” não emplacam, apesar do esforço da mídia, e sofrem com rejeições crescentes.

Mas agrupam a preferência do topo da pirâmide, dividindo com o presidente também parte da classe média remediada e mantendo vivo o antipetismo. Para estes, economia (escute-se mercado, bolsa, cotação do dólar etc.) e saúde (a paúra da pandemia) são as principais preocupações. Para quem tem de sair para ganhar o dia, o emprego e o prato de comida dominam seus medos e alimentam visões do futuro.

Desigualdade, trabalho, salário, condições de vida do trabalhador e do excluído sempre foram naturais no discurso petista. Foi o partido que introduziu essas temáticas – sob um ponto de vista que foi além da generosidade e da estabilidade social – no cenário eleitoral nacional.

O antipetismo natural, de fundo elitista, decorre exatamente da visão classista que privilegiados mantêm com muita consciência de seu lugar na sociedade e no sistema. A rejeição ao petismo ganha força com as pautas morais e de costumes que vão da corrupção ao comunismo, dos riscos à hierarquia social naturalizada até a hecatombe da família tradicional, passando pela questão da segurança que, tradicionalmente em discursos eleitorais, abandona nascentes concretas para ganhar uma visão que divide o mundo entre "gente bem" e "vagabundos".

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Todo esse temário transforma-se em imagens bem utilizadas pelos donos do poder e fartamente recriada pela mídia, por setores religiosos e, nas últimas décadas, por organizações e diversos movimentos sociais, que hoje luta por pautas que extrapolam limites de classes, orientações políticas (esquerda ou direita), interesses materiais e territórios nacionais.

Aparentemente, o instinto de sobrevivência fala mais alto até aqui, conforme apontam as pesquisas. E, curiosamente, nas campanhas já em curso, diretrizes de governo anunciadas pela direção do PT e por Lula nunca foram tão radicais, levando em consideração as pautas mais recorrentes da esquerda brasileira.

Com a honrosa exceção de Brizola e seu lúcido foco sobre as Organizações Globo, jamais por aqui se falou abertamente em regulação da mídia como agora. Também jamais houve tanta gente convencida do papel nefasto e sabotador que a mídia exerce sobre a democracia brasileira, ao contrário do que afirma sua aura de neon.

A Reforma Trabalhista, que inviabilizou qualquer aspiração de dignidade do trabalhador, vem sendo descartada em um futuro próximo. O famigerado Teto de Gastos, também. Quanto à Reforma Previdenciária, já há grupos de estudo para sua reformulação.

A promessa de incluir o pobre no orçamento agora caminha ao lado da promessa de inverter polos da tributação. A reestatização de serviços e patrimônio volta e meia é alardeada.

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"Estado forte” é uma das expressões mais utilizadas por Lula em suas falas. Em termos de relações internacionais, o apoio à esquerda nos países da América do Sul e a retomada óbvia de relações com China e Rússia não são sequer questionadas.

Tudo o que poderia ser classificado como um projeto subversivo - no entanto, na atual conjuntura, trata-se só de esboçar um projeto de país governável.

Todos esses pontos de orientação sobre o que seria um próximo governo petista deveriam ocupar espaço nos debates políticos, seja na grande mídia ou nas caóticas redes sociais. Mas nem mesmo a preocupação principal, a fome, que voltou a ser uma realidade palpável, parece comover a maioria dos que se engajam na análise progressista da conjuntura política ou nas discussões sobre candidatos.

As pautas de noticiários, textões ou textinhos de influenciadores e personalidades intelectuais, seguem a fábrica de eventos aleatórios do gabinete do ódio. Distraem-se em temas como liberdade de expressão, talvez preocupados com o futuro de seus patrões, os únicos donos da liberdade de expressão no País. Desprezam o clamor pela sobrevivência que irrompe nas próprias pesquisas.

Discute-se os riscos de um vice simbólico, que politicamente já é um zero à esquerda há algum tempo. Ressuscitam temas como parlamentarismo. Descobrem que um presidente militar, além de não saber falar ou comer, também não sabe usar uma arma. Alardeiam alianças com o centro (como se fossem uma novidade ou houvesse outra possibilidade).

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Debruçam-se sobre conceitos de limites da liberdade individual, favorecendo campanhas negacionistas, “opiniões” criminosas e fascistas, até mesmo neonazistas declarados.

A polarização entre Capital e Trabalho, entre os que tudo têm e os que nada possuem, entre os que comem e os que se viram, sempre se impôs na vida intelectual. Mas já tivemos momentos melhores. O desespero de classe não comove mais os revolucionários do Leblon e de Vila Madalena.

A campanha de criminalização e assassinato de uma sigla e de uma liderança popular foi ininterrupta por décadas, e culminou no golpe e na ascensão do fascismo. Ela pode estar perdendo nas pesquisas, mas não desanimou e não cederá o poder sem luta.

A realidade e os sonhos das ruas e dos pobres continuam a ser escamoteados pelos fazedores de opinião pública. O trunfo da campanha petista é avançar cada vez mais no eleitorado pobre de Bolsonaro. Ou no eleitorado desalentado, de ninguém, que não se importa com as eleições. E os Comitês de Campanha, mantendo o cerne do discurso de Lula e da direção do partido, podem auxiliar fortemente nesta tarefa.

Na semana em que completou 42 anos anos, o Partido dos Trabalhadores chega a um momento em que se encontra fortalecido em uma disputa eleitoral, com reais possibilidades de reassumir o comando do País, com um número de filiados crescente, e como o único partido que tem em sua principal liderança um discurso – e um ser humano – totalmente identificado com as agruras e os anseios da maior parte da população brasileira. Mas terá que continuar enfrentando os deuses e o mundo para representá-los.