Reconta Aí Atualiza Aí Opina Aí É o emprego, “estúpido”!

É o emprego, “estúpido”!

Por Sérgio Mendonça

James Carville, assessor de Bill Clinton (presidente dos EUA entre 1993 e 2000), na campanha presidencial estadunidense em 1992 teria dito a seguinte frase: “É a economia, estúpido”. Concorrendo naquela eleição contra o presidente George Bush (Bush pai – presidente entre 1989 e 1992), que tinha acabado de “vencer” a guerra do Golfo e expulsado o Iraque da invasão no Kuwait, herói de guerra, Clinton venceu a eleição. E o fator decisivo foi a situação econômica dos EUA naquele período. A economia virou o jogo a favor do candidato da oposição (Clinton).

O anúncio de saída da montadora de automóveis Ford, depois de mais de um século no Brasil, e a proposta de reestruturação anunciada pelo presidente do Banco do Brasil no mesmo dia, indicando a diminuição de 5 mil empregados do Banco através de um Plano de Demissão Voluntária – PDV, reacendeu com intensidade o debate sobre o emprego no Brasil.

Ou melhor dizendo, sobre a absoluta necessidade de gerar emprego e enfrentar o desemprego em um ambiente de profunda incerteza, no meio da pandemia da Covid-19. Outras empresas, como a Sony, também anunciaram que pretendem abandonar a produção no Brasil.

Imediatamente, as Centrais Sindicais lançaram um manifesto sobre a crise do mercado de trabalho no Brasil.

Como gerar emprego? É possível?

Tudo que a teria econômica nos ensinou nos últimos 100 anos aponta para a necessidade de crescimento econômico para gerar empregos. Uma economia, como a brasileira, que retrocedeu em três dos últimos seis anos (2015, 2016 e 2020) e andou de lado nos outros três anos (2017, 2018 e 2019), não foi capaz de gerar empregos para absorver a força de trabalho nesse período. No último levantamento do IBGE, em outubro de 2020, o País tinha 14,1 milhões de desempregados! E cerca de 30% de sua força de trabalho subutilizada (desemprego, trabalho em tempo parcial, disponibilidade para o trabalho, desalento).

No meio dessa crise mundial, e na contramão do que fazem os outros países, o Governo Federal segue tocando um samba de uma nota só! Ou de duas notas sós! Repete diariamente nos meios oligopolistas de comunicação (que não dão espaço para visões distintas das do governo ou dos analistas “chapa branca”) que a única saída é fazer reformas (administrativa, tributária, trabalhista) e manter a austeridade fiscal, leia-se manter o teto de gastos. Cumprida essa agenda, a confiança dos agentes econômicos seria fortalecida, o investimento privado e o consumo privado cresceriam e o País sairia do marasmo em que se encontra. Conto de fadas! Mas, diga-se de passagem, um conto triste e não um conto feliz!

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Qual o problema desse samba de duas notas sós? Não há evidências, nem aqui nem em outro país do mundo, de que essa teoria/agenda funcione. No Brasil estamos nessa conversa mole há seis anos, desde o golpe parlamentar de 2016! Sem crescimento e sem emprego! Aos fatos: implantou-se o teto de gastos (2016), foram feitas a reforma trabalhista (2017) e a reforma da previdência (2019) e nada de retomada do crescimento. Por quê? Ainda faltam mais reformas?

A resposta é simples: essa agenda não funcionou em país nenhum e não funcionará no Brasil.

Para sairmos dessa letargia e evitarmos que Mercedes, Ford, Sony e outras empresas saiam do Brasil ou encerrem suas atividades ou que o Banco do Brasil diminua seu quadro de empregados, é necessário que o Estado lidere a retomada do desenvolvimento e do crescimento econômico. Até o conservador FMI está afirmando isso. Sem essa liderança do Estado, através de uma agenda de investimento público que “arraste” o investimento privado e o crescimento econômico, não voltaremos a crescer e a gerar empregos.

Nosso maior ativo econômico como país é o nosso mercado interno. Temos a sétima maior população do mundo (212 milhões de habitantes). Estamos entre as 10 maiores economias do planeta. Em 2013/2014 a indústria automobilística produziu cerca de 3,7 milhões de veículos automotores (carros, ônibus, caminhões) no Brasil. O Brasil foi o quarto maior mercado de automóveis naquele período. Em 2009 a Ford anunciava investimento no Brasil. Não anunciava que abandonaria o país.

Certamente o governo que aí está não conduzirá essa agenda liderada pelo Estado. Curioso. O governo Bolsonaro, tão alinhado ao governo americano, não parece estar acompanhando o que o novo governo americano está propondo para enfrentar a crise.

O único caminho sustentável de crescimento é através da geração de empregos, que deveria ser a peça central de um projeto de desenvolvimento do País. Empregos no setor privado, no setor público, nas organizações sem fins lucrativos. Na Indústria (reindustrialização), na agricultura, no comércio, nos serviços. Nesse momento de pandemia, empregos emergenciais também serão muito importantes para atravessar a crise social e econômica. Geração de empregos deveria ser uma verdadeira obsessão da política econômica para dar sustentação ao mercado interno e à permanência e crescimento das empresas.

Por isso a analogia com a declaração do início do texto.

É o Emprego, estúpido!

*Economista e diretor do Reconta Aí

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