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Dores, euforias, oxigênio e vacinas

A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

(Florbela Espanca)

Nesta semana assistimos ao que parecia inimaginável. Pela primeira vez, mesmo entre seu público cativo, a paciência com o presidente sofreu sérios abalos. As dores de Manaus provocaram uma comoção que todos os absurdos destes tempos de pandemia não conseguiram alcançar. A imagem asfixiante, injusta e desesperadora causou revolta. Desta vez a crise não atingiu apenas os infectados pelo coronavírus. Vítimas de acidentes, outros doentes, bebês prematuros sofreram com a falta de oxigênio nos hospitais. E as imagens pareceram sufocar boa parte dos brasileiros. O desespero acumulado na anormalidade da pandemia transformou-se em solidariedade aos amazonenses.

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O anúncio do socorro de Maduro certamente não melhorou a situação do presidente. Quando essa ajuda não foi calada pela grande mídia, foi execrada pelos seus comentaristas. A indignação com o governo brasileiro acentuou-se ainda mais. Além da ineficiência logística escancarada, sofreu-se a humilhação de ver a ajuda humanitária chegar das mãos do pior pesadelo da elite brasileira. Antigos aliados pareceram se afastar, a possibilidade de impeachment foi obrigatoriamente levantada, a classe média explodiu em panelaços e antigos atores, sete anos e meio depois, convocaram manifestações. MBL, próceres da mídia e membros do MP se esgoelaram nas redes convocando as pessoas a derrubar o presidente “apartidariamente”.

Com o sentimento de repulsa expandido, era a hora de forjar o contraponto. A vacina, nossa grande angústia, subiu ao palco – e ninguém mais ligou para o ar de Manaus. A autorização da Anvisa foi armada tal qual um reality show, televisionado, com torcida organizada e fogos ao final da votação. O governador de São Paulo foi o cavaleiro da luz eleito para enfrentar o obscurantismo bolsonarista. Todas as justificativas para isso foram vendidas rapidamente pelas mídias, pelas redes, pelas feiras e bares abertos (já que em São Paulo não há política de isolamento). As dores por Manaus se perderam pelos cantos, todos tiveram a certeza de que a vacina chegou.

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Pouco importa o fato de que não há seringas, não há insumos para produção de novas vacinas, não há perspectivas de vacinar mais que apenas uma pequena parte da população… Pouco importa que o Butantan trabalhou neste projeto apesar do corte de gastos das universidades estaduais e da FAPESP, apesar da PEC do Fim da USP, apesar da tentativa de venda do Instituto para investidores estrangeiros.

De um lado estabeleceu-se qual era o remédio para todas as dores brasileiras: é preciso livrar-se de Bolsonaro. A associação do presidente com o genocídio foi frequente nas redes, utilizada por gente importante, de peso. O herói improvável, o contraponto de humanidade, foi um higienista social confesso. De nada importa que desperte moradores de rua com esguichos de água fria no inverno, que ofereça farinata como merenda escolar, que liquide restaurantes populares, que massacre a comunidade científica e as universidades estaduais, que tenha sido relapso no combate à pandemia quanto ao isolamento… Na ânsia de atacar o presidente, a opinião pública também assumiu o governador como portador da esperança, quase o criador da vacina.

O complexo midiático já estava preparado para isso: a primeira vacinação foi um espetáculo de marketing, satisfazendo emoções das plateias de auditório e boa parte dos movimentos sociais. As entrevistas subsequentes ridicularizaram o governo federal, provocando urros de prazer em um público esfacelado pela dor, e que já havia identificado a fonte do sofrimento à própria figura presidencial. Bots e perfis criados recentemente nas redes atacavam qualquer crítica ao governador com os mesmos argumentos, insistindo que o impeachment depende de sua resistência. O domingo televisivo transformou-se em um grande palanque eleitoral, com uma nova esperança elaborada metodicamente. O plano de construir quem é a oposição permitida a este governo finalmente se completou. A esquerda é carta fora do baralho, já que não sabe mais quem apoiar, o que criticar, como agir (há sempre a exceção de alguns membros bem adestrados).

A grande mídia jamais escondeu sua nostalgia do período tucano. E desta vez planejou um retorno triunfal, arrastando a opinião pública como um rolo compressor. Derrubar essa gestão realmente se tornou a panaceia para todas as dores. Pouco importa que o objetivo é facilitar reformas pretendidas pela equipe econômica atual. Pouco importa que, com a experiência de governos tucanos, as privatizações navegarão de vento em popa. Pouco importa que a política que gerou pobreza e desemprego será incrementada. Pouco importa que até a Lava-Jato, que vilipendiou o Estado de Direito, possa voltar sem obstáculos. Pouco importa se pobres morrerão nas mãos da PM do governador. Pouco importa que as diferenças entre os líderes de governo e da oposição apresentados sejam limitadas: só um deles sabe comer de garfo e faca, amarrar os sapatos e que a Terra não é plana.

Há euforia no ar. É provável que a asfixia continue, sem cilindros de oxigênio e com o sufoco da fome e do desemprego. E esse é o preço que pagaremos pela suposta vacinação que, vamos e venhamos, nem sabemos se terá volume para amenizar o caos atual.

Parabéns aos brasileiros. Não teremos Carnaval, mas os bons tempos voltaram.

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