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Dia do Samba: Samba do Professor explica a economia usando música

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Imagem do site Recontaai.com.br

A economia está presente no dia a dia e todo mundo sente na pele os efeitos do que acontece, inclusive – e ainda bem! – os autores de samba.

“O samba é uma autêntica representação da cultura popular brasileira e, dentro de variadas temáticas, o trabalho está presente”. Essa frase foi dita por Denis Maracci Gimenez, professor do Instituto de Economia da Unicamp e diretor do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit).

Além de ser um pesquisador do trabalho, ele é também um apaixonado por música, principalmente pelo samba. E foi conciliando sua vida de economista, com a paixão pelo ritmo brasileiro, que encontrou inspiração para juntar os dois.

“Na caixinha um novo amigo, vai bater um samba antigo” – O Samba do Professor

Gimenez acredita que Meu Guri, de autoria de Chico Buarque é uma música muito especial e representativa da questão do trabalho entre os brasileiros.

Apesar de ser o único professor do grupo com o qual toca – o Velha Arte do Samba – foi com esses amigos que criou o Samba do Professor. O tema trabalho entrou nessa equação depois e isso aconteceu a pedidos. Houve um convite para tocar em um evento promovido pelo Tribunal Regional do Trabalho, da 15ª região, em Campinas (SP).

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Assim, Denis Maracci Gimenez pesquisou sambas cuja temática era o trabalho e as diversas percepções que a população tinha sobre o tema. Como conta o Professor, foi possível misturar Zé Ketti com Chico Buarque, Adoniran Barbosa com sambas enredo do Rio de Janeiro e de São Paulo.

“Arte popular do nosso chão” – Cultura negra genuinamente brasileira

“Na verdade, toda a matriz do samba é da cultura negra no Brasil”, diz Gimenez.

No mesmo sentido, fala sobre a discriminação que as expressões culturais da população negra sofreram: tanto no Brasil com o samba e a capoeira, quanto nos EUA, com o Jazz e o Blues, elas chegaram a ser proibidas.

Contudo, o Professor ressalta que há uma diferença importante: enquanto nos EUA negros e negras eram minoria, no Brasil eram – e são – maioria.

“Eu sou da Bahia, de São Salvador” – O berço do samba

“Quase metade de todo o tráfico negreiro [no mundo] veio para o Brasil, principalmente para os portos de Salvador e Rio de Janeiro”, explica Gimenez. Nesse sentido, prossegue: “E o samba canta essa união da Bahia e do Rio”.

E a criação dos que aportaram aqui contra a vontade transformou-se em 2005 em patrimônio oral e imaterial da humanidade.

“Ele é negro demais no coração” – A população negra no trabalho

Segundo explica o professor, no momento da abolição havia uma população de 12 milhões de habitantes, entre estes, 700 mil pessoas escravizadas. Logo, a escravidão já tinha uma importância econômica menor na produção. Contudo, mesmo assim, a população negra livre foi precariamente inserida no mercado de trabalho.

Durante a transição do fim da escravidão para o trabalho livre, houve a formação do mercado de trabalho no Brasil. E, nessa época, foi feita uma escolha política que culminou em um excedente estrutural de mão de obra. Essa escolha foi pela política de imigração européia.

Dessa forma, como teorizou Florestam Fernandes, a montagem da ordem competitiva no Brasil levou a uma integração do negro nas piores posições no mercado.

“Quando o apito da fábrica de tecido”- Os empregos na Indústria

“Ao longo da industrialização isso se acentuou e isso se reproduziu”, aponta Gimenez. Juntamente com isso, entre 1930 e 1980 a apropriação dos empregos na indústria foi ocupada francamente pelos imigrantes e seus filhos.

Enquanto eles obtiveram formações técnicas, os trabalhadores nacionais – entre eles os negros e negras – tiveram sua entrada no mercado de trabalho em ocupações menos qualificadas. “Para as mulheres, o trabalho doméstico; para os homens, a construção civil”, avalia o professor.

Isso foi retratado em diversos sambas, como o que apresenta o Pedreiro Waldemar, escrito por Wilson Batista.

“Meu dinheiro muito raro” – A crise na vida refletida no samba

Entretanto, enquanto a economia brasileira crescia, essas as tensões sociais se acomodavam, pois havia emprego. Porém, quando a crise da dívida externa nos anos 1980 se acentuou – e teve por consequência o baixo crescimento – a situação mudou.

A escassez de trabalho revelou a divisão social que há muito estava adormecida. Dessa forma, culminou no fortalecimento dos movimentos negros e na valorização da cor e da raça, além dos protestos que chegam até os dias de hoje.

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