Pular para o conteúdo principal

Dia Internacional da Mulher: "A exaustão é uma marca dessa pandemia", afirma cientista

Imagem
Arquivo de Imagem
Imagem do site Recontaai.com.br

Mulher, mãe e cientista, a pesquisadora Mariana Vercesi de Albuquerque relata o cotidiano de quem soma responsabilidades durante a pandemia.

Imagem: pxhere

A exaustão tem sido um dos sentimentos mais relatados pelas pessoas na pandemia de coronavírus. E pelo segundo ano consecutivo, não tem sido diferente no Dia Internacional das Mulheres. No entanto, essa fadiga crônica e constante atinge de forma diferente a população, já que depende de uma série de fatores como classe social, tipo de trabalho e gênero.

Faça parte do nosso canal Telegram.
Siga a página do Reconta Aí no Instagram.
Siga a página do Reconta Aí no Facebook.
Adicione o WhatsApp do Reconta Aí para receber nossas informações.
Siga a página do Reconta Aí no Linkedin

É o que diz a pesquisadora Mariana Vercesi de Albuquerque, geógrafa, doutora em Ciências pela Faculdade de Medicina da USP e pesquisadora em planejamento de saúde na Fiocruz.

Além de cientista, Mariana é mãe de duas crianças e responsável, junto ao seu marido, pelas tarefas domésticas. Nesse sentido, a cientista faz parte de uma minoria no Brasil: a das mulheres que dividem igualmente com seus companheiros o trabalho doméstico.

De acordo com o estudo “Estatísticas de Gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil”, em média, os homens dedicaram ao trabalho doméstico 11 horas semanais, contra 21,4 horas semanais das mulheres.

Forjando uma nova realidade

“No início, nosso trabalho ficou parcialmente suspenso porque as aulas ficaram suspensas até sua reorganização no formato online”, conta a centista.

Simultaneamente, em meio à insegurança e às descobertas sobre a nova doença no mundo, a família aproveitou para adequar os espaços para as crianças e a rotina de trabalho. Segundo Mariana, isso foi necessário porque sua previsão era de que a situação toda não terminaria antes de outubro do ano passado. “Alguns colegas e parentes achavam que eu estava exagerando”, narra a cientista. Todavia, ela estava certa.

Maternidade real

Mariana conta que seus filhos tinham três e seis anos no início da pandemia: “O menor ainda usava fraldas”, lembra a cientista. Dessa forma, a mãe buscou adaptar a casa às necessidades das crianças. As crianças entenderam bem a situação e, segundo ela, “encontraram novos espaços e formas de brincar”.

No entanto, cientista aponta que os desafios são muitos, como a mediação da alfabetização do filho mais velho. “O problema central é que, mesmo dividindo tudo com meu marido, as tarefas da casa e do cuidado com as crianças requerem muito tempo e dedicação”, relata. “Efetivamente, eu deixei de ter 8-10 horas diárias de trabalho em pesquisa e passei a ter de 4-6 horas”, completa.

As responsabilidades como cientista

O esgotamento físico, mental e emocional atingiram em cheio a cientista. Agora, além de dispor de menos tempo para o trabalho, concentração, leitura e escrita, a cientista relata dificuldades com sua nova rotina.

“A exaustão é uma marca dessa pandemia. A exaustão e a dificuldade de trabalhar com concentração e tempo necessários, às vezes me fazia pensar que minha carreira de pesquisadora tinha se acabado ali.”

Mariana Vercesi de Albuquerque

Ao mesmo tempo, outro fator importante citado pela pesquisadora foi em relação ao tema das suas publicações. Segundo ela, havia um sentimento de que qualquer pesquisa – além da pandemia – havia perdido o sentido naquele momento.

Nesse meio tempo, a produção científica da pesquisadora diminuiu. Com menos tempo, mais trabalho e a criação dos filhos, Mariana descreveu uma enorme angústia, traduzida como “uma gangorra emocional”, aumentando a cobrança sobre si mesma.

“Só em 2021 é que eu comecei de fato a entender que eu, pesquisadora e mãe de dois filhos pequenos e dependentes, não vou conseguir mais dar conta de todo o volume de trabalho com o qual estava habituada. Vou ter que priorizar o que é mais importante.”

Mariana Vercesi de Albuquerque

Um tempo para ser mulher

“O tempo não é uma variável muito flexível para quem tem dois filhos pequenos em casa”, explica Mariana. Durante todo o período da pandemia, ela cuidou das tarefas domésticas, dos filhos e trabalhou. “Com exceção do meu período de férias, que usei para trabalhar todos os dias, sem intervalo, para conseguir finalizar um relatório de pesquisa e a prestação de contas para uma agência de fomento”, conta.

Com essa rotina, de horários encaixados e muita exaustão, ela não tem conseguido descansar. Dessa forma, diz que sente falta das caminhadas, mas busca compensar o exercício na saída com as crianças.

O futuro possível como mulher, mãe e cientista

Com o Brasil na UTI e sem perspectivas de alta, é difícil imaginar o futuro. Entretanto, é preciso construí-lo para que mulheres continuem na ciência e, para que mais delas adentrem o campo, são necessárias mudanças.

“Algumas mudanças são estruturais, outras conjunturais”, explica a cientista. Porém, ela enfatiza que a maior parte das mudanças deve ser feita no sistema do campo de trabalho científico.

Segundo Mariana, é preciso que haja incentivos para as meninas e condições adquadas para que as mulheres se mantenham cientistas. Como exemplo, cita que a prática de ranqueamentos por produtividade, que penaliza mulheres que têm filhos, deve ter fim.

“[É necessário] Que as cientistas que são mães possam ser reconhecidas pelos resultados de suas pesquisas, pelos temas e questões em discussão e não tanto pelo volume de publicações”, aponta.

Por quê?

A ciência se beneficia da multiplicidade de olhares. E, em pleno século XXI, institutos e universidades ainda investem menos em mulheres cientistas do que em homens.

“Eu creio que as cientistas que se tornam mães são capazes de
construir novos olhares sobre a vida, a ciência, o fazer científico, os temas
emergentes. Olhar que é fruto de sua condição de mãe e mulher”, explica Marina, ressaltando a necessidade da academia se adaptar ao ritmo do que é ser mulher hoje, com todas as desigualdades de gênero impostas.

“Esse olhar é importante e deve ser considerado pelas instituições e pelos projetos de pesquisa. Por isso é importante considerar um tempo diferente de produção da mãe cientista, para concessão de bolsas, financiamentos e prazos. O tempo de maturação das ideias é fundamental para a qualidade das pesquisas.”

Mariana Vercesi de Albuquerque

A pesquisadora espera, no futuro, que existam compensações: “No contexto da pandemia e de corte de recursos nacionais, as mães cientistas serão as mais prejudicadas, caso não haja nenhuma política compensatória e nenhum reconhecimento de suas reais condições mais precarizadas de trabalho”, disse.