Reconta Aí Atualiza Aí Dia da Consciência Negra: “Negros e negras estão expostos à profunda violação de seus direitos”, diz ativista Lúcia Xavier, da ONG Criola

Dia da Consciência Negra: “Negros e negras estão expostos à profunda violação de seus direitos”, diz ativista Lúcia Xavier, da ONG Criola

Lúcia Xavier, assistente social e coordenadora geral da organização da sociedade civil Criola, ressalta que negros e negras têm menos acesso à escolarização e a serviços de saúde, bem como não têm recursos suficientes para garantir a subsistência.

“As principais ameaças a negros e negras no Brasil têm a ver com a negação da sua existência como cidadãos, cidadãs, como seres humanos”. E é assim que se inicia a fala de Lúcia Xavier, coordenadora da Criola, em entrevista ao Reconta Aí.

Criola é uma organização da sociedade civil que atua na promoção e defesa das mulheres negras desde 1992. O objetivo da organização é defender e promover os direitos das mulheres negras – uma parte da sociedade brasileira que é sistematicamente deixada para trás. Nesse sentido, a busca pela cidadania das mulheres negras é fundamental para uma sociedade justa, igualitária e solidária. Uma luta de Lúcia Xavier, que deveria ser da maioria da população brasileira.

Um cotidiano de violência e violações

“Negros e negras estão expostos a uma profunda violência e à violação dos seus direitos”, ressalta Lúcia Xavier, citando como exemplo ações violentas produzidas pela polícia e grupos armados na sociedade, violência doméstica intrafamiliar e violência sexual.

Entretanto, por mais que a coordenadora de Criola conheça por ofício e pela vivência muitas delas, é quase impossível falar de todas. Isso acontece porque a sociedade brasileira é profundamente racista e comete muitos tipos de violência.

“Em que pesem as teorias racistas e o modo dessa sociedade, o racismo funcionará sempre para definir um modo de nascer, viver e morrer desse grupo.”

Lúcia Xavier

Recentemente, estudiosos de diversas áreas se debruçaram sobre como pessoas negras (sobre)vivem no Brasil. Isso pode estar relacionado com o aumento do acesso de negras e negros nas universidades com a expansão do ensino superior e política de cotas.

Relembrando as estatísticas expostas por Mano Brown em 1997, de que “nas universidades brasileiras apenas 2% dos alunos são negros”, é possível ver avanços. Atualmente, negras e negros já são maioria nas universidades públicas do País. No ano de 2018, romperam essa linha e responderam por 50,3% das vagas, segundo o IBGE. Contudo, isso não transformou a mentalidade do Brasil e nem a sociedade.

A violência obstétrica, por exemplo, tem entre as mulheres negras o seu maior alvo. Pesquisadoras da Abrasco e da Fiocruz atestam isso em seus trabalhos. No mesmo sentido, o Atlas da Violência 2020 traz em seus dados uma redução de 18% no número de mortes violentas intencionais. Porém, também mostra que as maiores vítimas de mortes violentas por intervenção policial são jovens negros. Oito em cada 10, mais precisamente.

O motivo dessa tragédia é o racismo (estrutural)

Lúcia Xavier explica que o que chamamos aqui de racismo estrutural “tem a ver com o pilar de sustentação da exploração e expropriação da população negra”. A ativista afirma que trazer o conceito de estrutural depois da palavra racismo é uma forma de mostrar como ele funciona.

” O racismo vai estruturar todas as relações que são desenvolvidas na sociedade”, conclui. A falta de acesso à educação, saúde, trabalho e à terra são barreiras institucionais com as quais os negros e negras lidam desde o começo de suas vidas. E elas colaboram para a normalização da visão de que a pobreza e a exclusão das pessoas negras é parte do processo.

A consequências disso é a disseminação das ideias de que a população negra não tem capacidade intelectual e é violenta, por exemplo. Isso faz com que o “processo de controle social, dominação, exploração e expropriação de um dado grupo na sociedade” seja aceito sem grandes questionamentos.

Xavier ressalta também que a ascenção social ou econômica não “blinda” pessoas negras de sofrerem constrangimentos, humilhações e de terem seus direitos violados. Para tanto, Xavier usa uma palavra forte que denota sua posição, aniquilamento.

“Olhamos as relações sociais levando em consideração que elas já denotam que negros não são seres humanos. E a partir daí, tendo ou não meios de produção, eles podem sofrer aniquilamento.”

Lúcia Xavier

A luta de negras e negros

Negras e negros no Brasil não estão dispostos a aceitar essa carga de violência e violação calados. Jamais tiveram e todos os embates do movimento negro que o País viveu são a prova disso.

Atualmente, há um movimento internacional de solidariedade e luta que afirma que Vidas Negras Importam: Black Lives Matter. Xavier afirma o que o movimento tem mostrado: “É que a prática racista em todos os lugares tem promovido muita violência, muitas mortes e que por isso essas sociedades se levantam contra”.

Ainda assim, Xavier afirma que esse levante não é só por causa das vidas negras. Segundo ela, brancos, asiáticos e outros se aliaram ao movimento porque ele tem uma pegada de discussão “de que mundo é esse, em que nossa vida não importa, nossa vida não tem valor. “E as pessoas se sentem próximas a essa ideia, a esse sentimento de uma vida sem valor e se conjugam nos movimentos, se articulam nos processos de luta, para também construírem valores para a sua vida”, disse.

“Porque veja bem, se morre assassinado pela polícia e por grupos armados. Se morre pelo fato de ser mulher. Se sofre violência doméstica e sexual. Se morre na hora do parto. Tem-se direitos violados, se morre numa pandemia mais do que outros grupos na sociedade, sofre crises [econômicas] profundas”.

Lúcia Xavier

Ao mesmo tempo, Xavier alerta que aqui no Brasil esse fenômeno não é replicado em toda a dimensão. Há as manifestações contra o genocídio da população negra, porém, não um movimento contínuo dos não negros.

“Para esse fenômeno se repetir [no Brasil] nós vamos precisar de mais do que solidariedade. Vamos precisar de pessoas que acreditam que essas vidas negras importam, e mais do que isso, que se sintam como negros que não tem direito à vida”, conclui a ativista.

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