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Desenterrando biografias – por trás do poder e da mídia

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Imagem do site Recontaai.com.br

Quem acompanhou o noticiário político desta semana certamente se espantou com duas situações. Na primeira, a maior cidade da América Latina será administrada por um completo desconhecido, Ricardo Nunes. Na outra, um espetáculo de mentiras e desfaçatez durante os trabalhos da CPI da Pandemia, culminando na patética apresentação de Pazuello, ex-ministro da Saúde.

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Foi aventada a hipótese da CPI contar com os serviços de uma agência de verificação e checagem de fatos. Também foi destacado o papel das redes sociais, já que tuiteiros deram aos senadores a pauta das perguntas e desmentidos durante os depoimentos.

Se há tal necessidade, chegamos à conclusão de que os grande meios de comunicação fazem tudo, menos informar. Basta apanhar as duas figuras públicas citadas, suas biografias e atividades para notar que absolutamente nada relevante, em termos de informação, foi disponibilizado aos cidadãos (audiência talvez seja a palavra mais exata).

No caso de Ricardo Nunes, o maior destaque foi dado à carta de despedida do falecido prefeito. “Tenho a convicção que nosso vice Ricardo Nunes e nossa equipe de secretárias e secretários manterão a cidade no rumo certo”. Uma frase de marketing de último momento. A mídia ainda nos informou que há um caso de investigação pendente, relativo a creches, um caso de violência doméstica no passado e uma tendência conservadora em costumes. Quase como um alerta ao novo alcaide: “não exagere em contrariar o que nos parece tão progressista”. No mais, deu o aval ao novo prefeito e passou à análise do cenário político. Ele ficará ao lado do governador tucano? Penderá para o bolsonarismo? Alckmin está ingressando em seu partido para concorrer ao governo do Estado; isso representará um rompimento com Dória?

O que não foi dito sobre Ricardo Nunes. Antes de tudo, sua faceta ligada ao agronegócio: ele declarou nove fazendas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), propriedades rurais que somam ao menos 1.347 hectares em Três Marias (MG), dedicadas principalmente à plantação de eucalipto e à pecuária. Foi apadrinhado politicamente por Milton Leite, cujas ligações com empresas de transporte público e organizações, por assim dizer, de “segurança e comércio” na periferia Sul paulistana, são notórias. Quanto aos seus oito anos como vereador, sempre fez parte da bancada da Bíblia. Conseguiu relevância ao defender a anistia a templos religiosos irregulares e ao barrar menções a questões de gênero no Plano Municipal de Educação (PME). Quanto ao futuro político, não cabem tantas discussões. Já fez parte da base de apoio dos prefeitos Haddad, Doria e Covas; é do MDB e do agro. Estará no poder de qualquer jeito, dançando a música que estiver tocando.

Os cidadãos paulistanos que gostariam de saber mais sobre Ricardo Nunes jamais terão essa chance. A cobertura da mídia iguala-se ao marketing político que desde sempre blindou boa parte de seus governantes e maquiou os problemas da cidade.

Pazuello foi descrito como inepto pela mídia que adota a postura de oposição a Bolsonaro. Foi ridicularizado de todas as formas, comparado a militares caricatos, de pouca inteligência e fora de forma. Sua especialização em logística também foi depredada, deixando-o marcado como um dos responsáveis pela tragédia manauara, pela crise de vacinas e por ser um general subserviente a um capitão expulso do Exército.

O que não foi dito sobre o militar é bem conhecido na região Norte do País. Juntamente com a família Sabbá, os Pazuelos, também de origem sefardita, amealharam fortuna desde antes do golpe de 64, enriquecendo no ciclo da borracha e participando da ocupação do território promovida pelos militares. Possuem vastas propriedades em Roraima e Amazonas, empresas de navegação e transporte de produtos do agronegócio e do extrativismo. O irmão do ex-ministro, Alberto, carrega vários processos e a fama de liderar um famoso esquadrão da morte atuante nos anos 90, intitulado “A Firma”. O general é sócio de todos os empreendimentos comerciais da família. Enfim: terras, capital e milícias. A atuação no Rio de Janeiro com desvio de dinheiro público e uso de empresas de fachada, denunciada recentemente, não deveria pegar ninguém de surpresa. Surpreendente seria se esse perfil pessoal e familiar surgisse antes nos noticiários.

Enfim, os senadores, que se consideram bem informados pela mídia e até por vivência de bastidores, estão perdidos em meio a tantas falsidades expostas sem pudor. E procuram apoio para verificação de fatos atirados em suas faces sem a menor compostura. Buscam agora uma agência de verificação de notícias.

Talvez valha a pena contar que as mais relevantes agências do tipo possuem fortes ligações com a grande mídia, e fazem um trabalho dúbio, já que checam falas de personalidades públicas e boatos de WhatsApp, mas pegam leve com os donos da informação. Os aparentes segredos aqui contidos podem ser encontradas no site De Olho nos Ruralistas, um observatório do agronegócio no Brasil coordenado pelo jornalista Alceu Luis Castilho. Mas não podem ser encontrados na grande mídia.

De qualquer forma, Renan e seus pares interessados no inquérito terão que suar o terno até conseguirem carga crítica suficiente para desmentir a enxurrada de mentiras acintosas que inundam a CPI. Já os cidadãos interessados em conhecer melhor o prefeito paulistano não terão a menor oportunidade de fazê-lo se informando pelos meios de comunicação.

No Brasil de hoje, se alguém quiser saber mais sobre quem está no poder, basta seguir quem carrega a Bíblia, o boi, a bala ou a mídia. Agro é tudo.