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Descolamento da realidade ameaça a democracia, diz sociólogo

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As eleições de 2022 estão previstas para ocorrer em menos de um ano. E mesmo em um País dilacerado por diversas crises, a corrida eleitoral tem mobilizado os esforços do presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, e também dos que pretendem ser seus adversários na disputa à presidência no próximo pleito.

De acordo com o sociólogo e especialista em políticas públicas, Leonardo Rossato, 2022 será um ano marcado pela disputa de narrativas políticas, que nem sempre encontram eco na realidade concreta. Segundo ele, isso se dará por causa da disseminação de informações "em escala industrial".

"Notícia falsa em eleição não é novidade. Sempre houve em campanha eleitoral a campanha positiva, com foco em propostas e realizações, e a campanha negativa, com foco em destruir a reputação dos adversários", esclarece Rossato. Mas o especialista alerta que desde a popularização das redes sociais, a situação tomou novos contornos.

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"Até o surgimento das redes sociais, essa comunicação, que sempre transitou entre o imoral e o ilegal, era feita várias formas: panfletos apócrifos, invenção de boatos de fundo moral e acusações em debates", disse. "Com as redes sociais, o que era feito de maneira quase artesanal tomou escala industrial porque a disseminação da desinformação passou a ser muito mais fácil. Esse oceano de notícias falsas acabou gerando uma confusão muito grande na cabeça do eleitor, uma vez que ficou difícil separar a notícia verdadeira da falsa", alerta em relação aos tempos de hoje.

Por que a desinformação funciona tão bem hoje?

Se as notícias falsas sempre foram utilizadas em eleições, qual o motivo de serem tão decisivas hoje? Segundo Rossato, em tempos de radicalização, em que as pessoas estão motivadas pela raiva, "o viés de confirmação tende a valer mais que a autenticidade da noticia". Em outras palavras, o especialista descreve que se a notícia a que o leitor tem acesso vai de encontro ao que ele já acreditava previamente, existe uma tendência maior de se acreditar nessa notícia. E não só acreditar, mas repassar aos seus contatos.

Outra manobra utilizada por quem espalha desinformação é divulgar notícias falsas com "um fundo de verdade". Essas notícias distorcidas, conforme explica Rossato, são válidas em contextos específicos, porém não são reais. "Essas notícias tendem a atingir as pessoas de forma mais consistente uma vez que são “em parte verdadeiras”, disse.

Um exemplo desse tipo de notícia e que foi muito utilizado pelo presidente Bolsonaro, ao longo da pandemia, foi de que o Brasil era o quarto País que mais vacinava no mundo. Entretanto, ele utilizava os números absolutos da distribuição de doses do imunizante e não a porcentagem da população que recebia as vacinas. Assim, mostrava uma situação que não explicava a realidade.

"Nesse cenário, a radicalização imposta por alguns grupos políticos faz com que as pessoas se disponham a acreditar em coisas cada vez mais descoladas da realidade", opina o especialista.

Projeções para as próximas eleições

Rossato vê com pessimismo o pleito eleitoral do ano que vem: "Na eleição de 2022, esse cenário é bastante preocupante uma vez que parte do público já passou por esse processo de radicalização e está vulnerável às notícias falsas", disse, referindo-se ser consequência dos últimos processos eleitorais. Segundo ele, as eleições anteriores mostraram que o desenvolvimento de tecnologias relacionadas à produção de fake news com “qualidade”, como o deep fake, por exemplo, é menos importante que a radicalização para a conquista de votos. "Quanto mais radicalizado o eleitor, menos crível precisa ser a mensagem para que ele acredite e repasse a terceiros", afirma.

De robôs a gado, o papel dos apoiadores de Bolsonaro

O especialista acredita que ainda hoje, os apoiadores do presidente Bolsonaro são a maior "militância" digital. "O presidente mantém um grupo de fiéis radicalizados, que não apenas acreditam em qualquer coisa como espalham muito conteúdo por aí", afirma.

E a consequência direta dessa massa de pessoas acriticamente fiéis ao presidente é a expansão dessa estratégia de campanha. "Essa percepção de que o eleitor radicalizado é o “melhor eleitor” para conquistar votos já chegou a outros candidatos, muito em resposta ao que Bolsonaro faz sistematicamente, e a tendência é que a difusão de notícias falsas seja generalizada no processo eleitoral de 2022", confirma Rossato.

Porém, o estudioso faz uma ressalva: "Essa estratégia traz limitações: quando um público já está radicalizado, esse processo não ocorre novamente. E o público de Bolsonaro já está radicalizado". Nesse contexto, Rossato acredita que é improvável que Bolsonaro consiga maioria só com a estratégia de espalhar notícias falsas e radicalizar ainda mais seu público.

O especialista faz ainda mais uma aposta em relação a 2022: "As medidas de mitigação e as ameaças do TSE não devem intimidar os grupos que espalham notícias falsas. Até porque o bolsonarismo trouxe um método para espalhar essas notícias. É por isso mesmo continua sendo o maior criador e disseminador de notícias falsas entre os políticos nacionais".