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Depois da Tormenta - Medo e Esperança em 2022

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mauricio falavigna

“...o fascismo não é uma anomalia, mas supõe a atualização do projeto hegemônico burguês surgido do Risorgimento.”

(Gramsci)

"(...) Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.
(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),
E vou mostrar-te algo distinto
De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece
Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;
Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.”

(T.S.Eliot)

Em uma terra habituada a fortes pancadas de verão e golpes de Estado, a massa escura que se formou no horizonte não causou tanto temor. Nuvens libertam sua fúria e se esvaem, seria mais uma tempestade triste e passageira.

A reação da elite aos governos petistas foi a destruição: liquidar todo o aparato estatal, o patrimônio nacional e tudo o que se referia à coisa pública, inclusive em termos éticos e comportamentais.

Na primeira queda d'água, o instrumento jurídico criado para criminalizar um governo popular assumiu a cena. Com o apoio da mídia, forjou uma eleição e levou um grupo de marginais ao poder. O projeto era estabelecer a primazia do individualismo proprietário e rentista sobre quaisquer garantias sociais. Quando a chuva apertou, afogou-se boa parte da Constituição e o próprio processo democrático. As “tecnicidades” das leis que regulavam o dia a dia do trabalhador e do cidadão foram declaradas inúteis. A perseguição jurídica a um espectro político foi descarada. Lá se foram as garantias sobre as quais repousavam o pacto social e o Estado de Direito.

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Já são três anos em que acumulamos perda de soberania e direitos. As liberdades estão restringidas a ricos, togados, fardados de alta patente, grandes corporações globais e empreendedores que não temem leis ou direitos sociais, atuando como aves de rapina sobre o desespero da manada que busca fugir da enchente.

Já são três anos em que empregos, salários, aposentadorias e comida vão submergindo. Em que desconhecemos o amparo social, em que uma pandemia é motivo para assassinar mais pobres e ganhar dinheiro em negociatas. São três anos sem desenvolvimento e de alta financeirização.

São três anos em que o ensino público foi sucateado e a grade curricular adequada para estabilizar a pirâmide social. Pululam professores da rede pública preparados para adotar fontes e vocabulário fascistas na formação dos alunos. Três anos de ataques à pesquisa científica e de orgulhos negacionistas.

São três anos em que tudo o que é público vem sendo desmantelado para se criar uma nova mentalidade, na qual a iniciativa privada é a única opção do mundo real e o individualismo é o único valor incensado.

São três anos de chacinas no campo e na cidade. Naturalizou-se incendiar terras e corpos indígenas, destruir quilombos, arrastar negros pela corrente nas ruas, invadir reservas e favelas, louvar a misoginia e os valores familiares de cultos, olhar com devoção a violência policial e o sucesso dos privilegiados, olhar com desprezo a pobreza, a diferença e a deficiência.

São três anos em que se destruiu o respeito às formas do Estado de Direito. E a resistência limitou-se, em meio à tormenta – talvez fosse a única possibilidade – a se abrigar nos restolhos da institucionalidade vigente. E comemorar pequenos avanços, como ações do STF em relação à Lava Jato. Foi desses atos tardios que nasceu única esperança para 2022: uma eleição com o principal candidato popular autorizado a disputá-la, e a reconstrução de um novo pacto social a partir desse momento (que parece longínquo).

Fingimos não ver os militares no governo, os privilégios dos togados, o banditismo policial e miliciano, o medievalismo pastoral, a sanha rentista, as mentiras calculadas da mídia. Fingimos que o agro é pop. Fingimos que não há Estado de exceção. Fingimos não ver que o fascismo ascendeu ao poder e se imiscuiu em nosso cotidiano.

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E, se boa parte de nossa história é marcada pela conciliação, pelo amaciamento da violência, pela cordialidade que nubla desigualdades e por pactos que acomodam interesses de classe, lembremos de nossa elite. Quando a tormenta não passa, ela é useira e vezeira em escravizar, amordaçar, torturar e assassinar renitentes e insurgentes. Bem nascidos e influentes não hesitam em cometer crimes para manter os privilégios e o sistema de exploração.

Nesta toada, as pequenas vitórias comemoradas já estão encharcadas de realidade. O pequeno tirano de Curitiba, embora com seus crimes desvendados, volta à cena como a última esperança da elite. Qualquer imputação de irregularidade do Ministério Público não diz respeito à sociedade, disse o Senado. O mesmo Senado que permitiu o ingresso, no STF, de um ser abjeto que jura primazia à Assembleia de Deus antes da Constituição, diz que clamores populares estão acima das leis e, logo na primeira entrevista, reafirma o ideário evangélico, a despeito da laicidade do Estado. A moralidade substituiu a racionalidade das leis.

Vale lembrar que, se houvesse um sistema de Justiça minimamente íntegro, dois dos candidatos que surgem na pesquisa em segundo e terceiro lugar, respectivamente, estariam presos. Mas aí seríamos uma Nicarágua ou uma Venezuela, o que Deus não permitiria.

A nuvem carregada já ocupa todo o horizonte. A tormenta parece não ter fim. O ano de 2022 pode ser o da esperança, sim. Uma lenta saída do poço e a reconstrução de um país. Mas os interesses hegemônicos não criaram a tempestade para oferecer tão cedo um dia ensolarado. 2022 pode ser o ano de algo muito pior.