Reconta Aí Opina Aí Artigo – Weintraub e o grande jogo de truco no MEC

Artigo – Weintraub e o grande jogo de truco no MEC

Foto: Pedro França/Agência Senado

Pela milionésima vez desde o início do governo Bolsonaro surgem boatos de que o Ministro da Educação, Abraham Weintraub, está para cair.

Por Nathalia Cassettari

Nas primeiras vezes eu acreditei – afinal o que não faltam são motivos, que vão desde uma total paralisia do MEC, até ofensas ao maior parceiro comercial do Brasil, passando, é claro, por ameaças diretas aos ministros do STF – , mas com o tempo fui me tornando cética.

Nas últimas semanas, contudo, o jogo ficou mais complicado. Weintraub é intimado pelos comentários racistas que fez ao povo chinês e pelas suas declarações sobre os ministros do STF. A defesa apresentada por escrito à primeira acusação consegue piorar as relações entre Brasil e a China, recebendo críticas do Ministério da Economia e da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Em seguida, Olavo de Carvalho – padrinho “político” de Weintraub, publica um vídeo cobrando um posicionamento mais enfático de Bolsonaro em favor de seus interesses, com a elegância e delicadeza de sempre. Bolsonaro ameniza e, ao que parece, os dois voltam a fazer as pazes.

Weintraub segue jogando

Em um contexto em que a participação em atos a favor de Bolsonaro passou a ser tão desfavorável que o próprio presidente preferiu ficar em casa, quem foi pra rua? Ele mesmo, excelentíssimo ministro da Educação, descumprindo no mínimo dois decretos do Governo do Distrito Federal (ao participar de ato na Esplanada dos Ministérios e ao não usar máscara).

Mas ele ficou quieto durante o ato e apenas apertou a mão de alguns apoiadores (como fez, por exemplo, o general Heleno na semana anterior)? Claro que não! Pediu truco e foi pra cima dos ministros do STF, além de disparar outras pérolas que não merecem ser mencionadas. As críticas vieram de todos os lados, inclusive do Planalto.

Chegamos ao dia 16/06/2020 e é publicado no jornal Folha de São Paulo um editorial todinho dedicado a ele, intitulado “Fora, Weintraub”. O parágrafo final parece ser a maneira encontrada pela Folha de dobrar a aposta (ou pedir seeeeeeissssss, pra quem é familiarizado com o jogo). Em singelas quatro linhas, o texto chama Bolsonaro para a responsabilidade de demitir Weintraub e “recuperar condições para tirar o governo da rota do desastre”, no que parece ser uma oferta de bandeira branca em troca de uma certa cabeça servida em bandeja de prata.

Weintraub não tem feitos a mostrar ou apoio popular: seu trunfo é ser amado pelo núcleo fanático, que inclui os filhos presidenciais. No restante da grande população brasileira, suas ações provocam, no mínimo, vergonha alheia. Parece ser uma troca fácil, se livra desse entulho e ainda sinaliza em direção ao apoio não só da Folha de São Paulo, mas em especial, da parcela do empresariado que ela representa. Faz sentido! O que não faz sentido é ter Olavo de Carvalho como mentor ideológico.

Por isso não acredito em boatos, só no Diário Oficial.

Nathalia Cassettari é professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília.