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Um Estrangeiro na ilha do Senhor das Moscas

Por Maurício Falavigna, historiador.

É chegada a hora da reeducação de alguém. Do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém. O certo é louco tomar eletrochoque. O certo é saber que o certo é certo. O macho adulto branco sempre no comando. E o resto é o resto, o sexo é o corte, o sexo. Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita. Riscar os índios, nada esperar dos pretos

(O Estrangeiro, Caetano Veloso)

Ler jornais (ato cada vez mais improvável) ou assistir aos noticiários no Brasil talvez tenha se tornado algo próximo ao decantado “novo normal” – algo ainda desconhecido, mas que difere do passado – e, pelo que temos visto, se aproxima mais da experiência da ficção do que da vida. Como a imaginação não dá mais conta da realidade, vivemos no mundo d’O Senhor das Moscas há algum tempo. No livro de William Golding, em uma ilha dominada por crianças da elite britânica que sobrevivem a um acidente aéreo, a democracia planejada é rapidamente deteriorada pelo comportamento juvenil, ignorante e selvagem de seus integrantes.

A solução que o mundo empresarial e das finanças arranjou para chegar ao governo pode parecer inadequada à parte civilizada da sociedade, pode ainda parecer esdrúxula aos olhos estrangeiros, mas seduz boa parcela da elite e das classes médias nacionais. Com a ajuda da mídia criou-se a Besta, o inimigo público: em nosso caso, o Estado. Para desmantelá-lo, foi preciso demonizar um partido e prender seu líder. O caminho utilizado, a estrada do lawfare, desintegrou a vida institucional, a ordem da normalidade. Recursos jurídicos flexibilizados ou usados indevidamente por representantes do próprio aparato judiciário relativizaram regras de convívio social. Hoje está claro que os fóruns de autoridades perderam credibilidade: quem possui dinheiro ou cargo público sente-se a própria lei.

Não basta mais a ostentação social que demarcava fronteiras. Há que se impor uma superioridade moral e torná-la natureza, verdade. Partindo do exemplo presidencial, onde um velho com cabelos nas narinas deixa claro que sua família, seus amigos e sua vontade prevalecem sobre a coisa pública, privilegiados estão convencidos de sua autoridade moral, e o “certo” substituiu o “legal”: leis limitam os indivíduos e sua criatividade, são antinaturais. A autoridade dos mais fortes é, por sua vez, uma regra natural.

Neste cenário, a prevalência de interesses econômicos transforma uma pandemia em genocídio. O empreendedorismo de pecuaristas, latifundiários e madeireiros faz com que o fogo nas reservas não se apague. Nem todas as câmeras do mundo estancam o sangramento das periferias pelas polícias. O uso de máscaras não pode inibir a liberdade do indivíduo. O desmascaro do preconceito é a liberdade de opinião. Os famigerados direitos humanos são suplantados pelo direito de propriedade. O berço do CCC ganha de presente o ministério da Educação. São regras da vida.

Porém, na ilha de Golding, não basta sobreviver – é preciso se divertir. Eram as duas regras principais ditadas pelas crianças. E é aí que, além de conviver com o desmantelamento do Estado e das instituições democráticas, somos obrigados a dividir o espaço com o grotesco que baila a nossa frente. Fedelhos vestidos como assassinos dão gritos de ordem em aviões. Um mero “sou filho de procurador” chancela bebedeiras ilegais e humilhação pública de serviçais. O elogio a castigos físicos é motivo para manifestações de apoio público coreografadas com alegria. Festas organizadas por autoridades fardadas desafiam ordens públicas de isolamento. Najas e tubarões são brinquedos de jovens ricos. É preciso se divertir. As crianças chegaram ao poder, com suas vontades violentas e fomes egoístas.

Na obra de Golding, a criação de cultos e gangues ocupam o tempo dos garotos – travestem-se de pastores e militares. O exercício do poder se impõe com medo e assassinatos. As mortes se sucedem, metade da ilha é incendiada e destruída. A saga se encerra com a chegada de um adulto da Marinha Real, que se constrange ao ver o que aquelas crianças de boas famílias, criadas com a Bíblia e leite com pera nos melhores colégios, foram capazes de fazer. Sente-se um estranho em meio à barbárie dos seus. E leva os sobreviventes de volta à civilização.

E nós, menos estrangeiros no lugar que no momento, não teremos para onde voltar. O que nos daria esperança seria reconhecer que essa irracionalidade já fazia parte da nossa formação, do “antigo normal”. Mas ainda estamos distantes dessa maturidade. Agarramo-nos à ideia de que vivemos um acidente de percurso. Discutimos o futuro dentro dos moldes institucionais, crianças famintas por uma fatia de poder. No fundo, pensamos: “logo a normalidade voltará”.

Nunca mais.