Reconta Aí Opina Aí Torcedores e os atos políticos: eles sabem de onde vieram. Por @Maufalavigna

Torcedores e os atos políticos: eles sabem de onde vieram. Por @Maufalavigna

Foto: Pam Santos/Brasil de Fato

Por Maurício Falavigna

Desde 31 de maio somos surpreendidos pelo tom da narrativa em jornais televisivos: as torcidas de futebol são exibidas com leniência e simpatia em manifestações de rua. Aliás, podemos dizer que, por uns dias, as matérias sobre torcidas em manifestações foram quase um contraponto aos escândalos de violência policial nas periferias de São Paulo, um chiaroscuro invertido da programação tradicional dos telejornais.

Corpos e camisas rivais se abraçando e gritando juntos as mesmas palavras de ordem; símbolos partidários, de movimentos sociais e de clubes se entrelaçando nas imagens das câmeras, enquanto narradores destacavam que era um ato “apartidário”, de “torcidas organizadas”, contra Bolsonaro e integrado a marcas globais do momento: “Antifas” e “Vidas Negras Importam”. A desvinculação ideológica do mundo político oficial e de sua terminologia foi fundamental para a cobertura jornalística.

Como ocorre com absolutamente tudo no Brasil, é preciso voltar ao palco e aos atores para reescrever a encenação dirigida pela mídia. Para isso, conversamos com integrantes dos coletivos Porcomunas e Democracia Corinthiana que participaram das manifestações.

Torcedores organizados

Reescrevendo a peça: não foi um movimento de torcidas organizadas, mas de coletivos de torcedores com afinidades ideológicas, ou seja, com uma visão similar do contexto político e dos problemas atuais nascidos de suas origens, classes sociais e da exclusão. Sim, essas pessoas eram marginalizadas pelos mesmos narradores até uns dias atrás, enquanto a bola rolava.

Não, não houve proibições de símbolos e representantes partidários, embora existiram discussões quanto a isso. Um dos medos era repetir os eventos de 2013, e a decisão por abarcar todos os grupos com participação política vingou. Daí vimos a incorporação do PCO, de Boulos e do MTST, da presidenta do PT, Gleisi, e do seu candidato, Jilmar Tatto (com a camisa do Juventus) à passeata.

E, mais que sair às ruas em função de slogans repetidos na mídia, há pautas próprias das torcidas que se acumulam há anos e que englobam muito bem as motivações do momento. Por isso o desejo de protagonismo.

Violência policial naturalizada

“Cada torcedor sai de uma quebrada; eles se encontram nos ônibus, no estádio, em viagens longas e, nas conversas, os problemas são comuns: a repressão policial, a falta de transporte, de acesso à educação, a falta de infraestrutura onde moram”, diz um integrante da Democracia Corinthiana.

“Eles são vistos como um perigo para a sociedade, mas a sociedade é que os ameaça todo o tempo”, completa. Uma cena de um homem negro que morre com o pescoço esmagado e sem poder respirar não precisa de frase de efeito ou legenda para ser compreendida pela maior parte dos torcedores como uma barbárie cotidiana e brasileira.

Como diz um membro do Porcomunas: “são predominantemente pessoas de baixa renda, negros, nordestinos, ninguém precisa explicar a violência policial a eles, é algo naturalizado”.

Assim como essa vivência marcada pela falta de importância de vidas negras e pobres, a rejeição a Bolsonaro foi mais ampla que a cobertura jornalística mostrou: “todos falavam em cassação da chapa, mais do que impeachment. De que adiantaria sair Bolsonaro e continuar a política de Guedes?”, pergunta o associado do Porcomunas.

Outro fato desprezado pela mídia: não eram as organizadas representadas institucionalmente ali. Coletivos de torcedores de esquerda e avulsos se fizeram presentes. Organizadas são imensas e diversificadas. A Gaviões da Fiel (aliás, nascida no combate à ditadura no clube, à época sob a presidência de Vadih Helu) possui mais de 120 mil associados, mais gente do que a maior parte das cidades brasileiras. E, sendo tão amplas, são instituições que também possuem ações sociais inclusivas, aspectos conservadores e posições diversas quanto à vida. A uniformidade com que a mídia sempre as retrata tem poucas cores perto do mundo real.

O dia em que o morro descer…

Os torcedores que desafiaram o isolamento para ir às manifestações podem não apresentar um perfil político complexo e delineado. Mas possuem muita consciência da situação em que vive a maior parte da população brasileira, pobre e excluída.

Como sempre frisa Maurício Murad, que pesquisa o tema há anos: as torcidas convivem e sofrem com a violência de Estado e com a diferenciação social desde a ida ao estádio, no preço do ingresso, na maneira como são tratados pelas autoridades e pela mídia.

Se na Europa as facções de torcedores que se destacam pela mobilização são braços do fascismo e da xenofobia, aqui o movimento pode ser oposto. Se a consciência desses coletivos se expandir será como a utopia do samba, “o dia em que o morro descer e não for Carnaval”.

Cabe também aos atores políticos tradicionais provocarem o ensaio geral. Essas vozes gritam por cidadania e participação. São pessoas que sabem de onde vieram. E onde estão.