Reconta Aí – Opina Aí Se liga Aí Artigo: Quatro anos de pesadelo – Como erguer a cabeça?

Artigo: Quatro anos de pesadelo – Como erguer a cabeça?

Brasília- DF, 29-08-2016: Dilma Rousseff faz sua defesa no plenário do Senado. Foto: Lula Marques/Agência PT

“Se a História não os condena,
a mancha nunca se apaga”.
(Jayme Caetano Braun, Payada)



O golpe que esfacelou o processo democrático brasileiro completou quatro anos no último dia 31. Um impeachment levado a cabo, por meio de uma farsa montada com apoio da mídia, foi o fecho formal da subversão institucional iniciada com as ações da Lava-Jato. O maior partido do País foi criminalizado junto à opinião pública; seu candidato, à frente nas pesquisas, foi impedido de concorrer às eleições. Após dois anos com Temer na presidência, reformas que alteraram a vida e o futuro do trabalhador foram aprovadas em nome de uma “modernidade econômica”, como explicavam os comentaristas da mídia. Inúmeras farsas (agora comentadas, mas na época denunciadas e ignoradas) garantiram o objetivo final da eleição de 2018: derrotar o PT e eleger um representante confiável para empresários e sistema financeiro. Em um balanço desses quatro anos, desenha-se um pesadelo.

Há um saldo palpável desses quatro anos: gastos públicos em áreas sociais foram congelados por vinte anos. Saúde – em meio à pandemia – e Educação foram setores que, em cada um deles, deixou de se investir R$ 20 bilhões. O argumento de controle da dívida pública era balela: como nos mostra Sérgio Mendonça: “entre 2016 e dezembro de 2019, a dívida pública líquida saltou de 46,1% para 55,7%. A dívida bruta, por sua vez, cresceu de 69,8% para 75,8%”. Os trabalhadores perderam direitos, garantias, carteira e aposentadoria.

Durante o último ano da primeira gestão de Dilma – só com uma boa e irremediável dose de cinismo pode-se afirmar que houve um segundo governo – o desemprego era de 6,5%. Em junho deste ano, mais que dobrou para 13,3%. O subemprego e a uberização se tornaram a normalidade. A promessa de novas vagas e maiores investimentos nunca se cumpriu. As maiores riquezas foram incrementadas, o Brasil retrocede para o Mapa da Fome. Segundo estimativa do Banco Mundial, a pandemia unirá mais 5,4 milhões de pessoas aos quase dez milhões que já se encontram na extrema pobreza. Setores da indústria nacional – que se destacavam ou avançavam com tecnologia de ponta – foram desmantelados. Quanto a pequenas e médias empresas, só nos últimos quatro meses mais de 700 mil fecharam as portas.

Mas como apagar a baixeza do movimento que arrancou da Presidência a primeira mulher eleita neste País?



Poderíamos completar esse saldo passando para qualquer área da vida pública. Se olharmos para a Justiça, mesmo com o desnudamento da Lava-Jato, a força-tarefa ainda é defendida pela mídia e os direitos políticos de Lula não foram restabelecidos. O desmatamento, só neste ano, aumentou em 34%. A violência policial bate recordes, os avanços em Direitos Humanos são constantemente solapados, assentamentos legais de agricultores beneficiados pela reforma agrária são invadidos, mecanismos de acesso ao estudo são desmoralizados, liquidam programas de habitação e de acesso a medicamentos, serviços e empresas públicas e essenciais são sucateados para serem vendidos – vivemos o reino do terror privado, onde o Estado não só se ausenta, mas começa a se desintegrar. O próximo passo é, paralelamente às privatizações, minar o funcionalismo público com a reforma administrativa.

Mas relembrar 31 de agosto de 2016 é algo ainda pior do que esse pequeno filme de horror, no qual recuamos quarenta anos em quatro. Aquela sessão solene marcou muito mais do que o retorno do poder a mãos tão conhecidas. A história certamente condenará um movimento elitista e entreguista que jogou no lixo desenvolvimento, mobilidade e avanços sociais, patrimônio público e a busca de justiça social. Os números do desastre, por si só, já enterram qualquer credibilidade dos donos do poder.

Mas como apagar a baixeza do movimento que arrancou da Presidência a primeira mulher eleita neste País? Como não lembrar que, de um lado, havia uma mulher íntegra e altiva, enfrentando serenamente todo o rebotalho de séculos de comportamento escravagista? Como não lembrar dos risos de escárnio de pastores, militares, fazendeiros e chupins diante da dignidade de Dilma, que com calma já descrevia o futuro de sombras e desastres que nos aguardava?

A injustiça e a opressão sempre nos acompanharam. Mas ali perdemos qualquer resto de dignidade. Poderemos até nos recuperar dessa realidade devastada, exposta em números. Poderemos até encontrar o caminho de volta. Mas não conseguiremos erguer a cabeça enquanto não fizermos justiça em relação à Dilma Rousseff.