Reconta Aí Opina Aí Paralisação dos entregadores: o rei está nu, mas o povo é cego

Paralisação dos entregadores: o rei está nu, mas o povo é cego

Por Maurício Falavigna, historiador

Com exceção de uma mínima parcela da sociedade que acumula conhecimento para escapar dos discursos que moldam os temas e as soluções para os debates públicos, vivemos sob um ataque de informações e fatos globais que já nos chegam interpretados, desenhados e valorados, com os entornos e as cores preenchidos – até a crítica à obra apresentada possui limites em seu discurso.

Em um curto período de tempo, vimos o mundo das relações de trabalho se esfacelar. Reformas legislativas acabaram com direitos e garantias, suprimiram a formalidade do contrato, retiraram o papel do Estado como regulador dessa relação. Nesse mesmo período, investimentos públicos em projetos de redistribuição de renda, em áreas sociais (educação, saúde, saneamento), em projetos de facilitação da ascensão social e do fortalecimento da cidadania foram sucateados ou extintos. Na produção industrial e exploração de riquezas nacionais, a presença estatal se faz e se deseja menor, e toda orientação governamental parece dirigir-se tão somente para essa minimização.

Samba, futebol, feijoada e comentarista econômico.

Esse é o quadro, e os fatos são palpáveis – mas as maneiras de descrevê-los e os julgar são limitadas. As mídias nos descrevem a brutalidade da mudança como um movimento natural, até mesmo moderno e inevitável. Toda uma realidade anterior surge em preto e branco, imagens esmaecidas de um tempo que não é mais alcançável, nem mesmo desejável. Qualquer sensação de insegurança ante à paisagem é reprimida. A letra é dada em todos os noticiários por comentaristas econômicos – essa figura mais brasileira do que o futebol e a feijoada. Nessa Economia, o drama humano é descartado, o governo é descrito como uma extensão do empresariado e/ou do mercado, os valores desde sempre foram o empreendedorismo, o mérito em sobreviver na competição, a “parceria” como regra de convívio entre quem têm vantagens naturais e a massa de despossuídos. Só a partir dessas premissas é que o mundo gira. Os analistas da mídia são os pícaros, os costureiros da roupa invisível do rei.

Esse é o quadro, mas o drama e a miséria também são palpáveis, embora não sejam tratados como fatos. Entregadores de APP’s são um símbolo da nova ordem, da chamada “uberização” da força de trabalho. Grandes empresas internacionais, máxima exploração de trabalhadores desqualificados pela falta de formação ou pela crise de emprego, ausência absoluta de garantias e direitos, vinculação trabalhista inexistente (são “parceiros”), possibilidade de reposição imediata devido ao imenso mercado de reserva. Quando os lucros crescem devido ao isolamento, aumenta-se os riscos e se diminui a renda dos entregadores. Isso é liberdade, ainda que tardia.

Reconversão convertida do breque

Como fazer o drama humano participar da pintura do mundo? Pois mesmo que algumas almas infantis gritem que o rei está nu, os gritos não ganharão espaço no noticiário. E, se não houver uma divergência crítica, a legitimidade da obra não alcança a posteridade. É preciso criar uma polêmica leve, que não altere as tintas.

De um lado, vemos analistas que demonstram pequenos arrependimentos e espaços sendo abertos para quem estava do lado de fora, teoricamente na oposição. Antigos arautos do Estado mínimo hoje pregam algum investimento estatal. Uns poucos economistas ditos “de esquerda” ganham também direito a voz. No entanto, qualquer um deles deve se adaptar a algumas regras para ingressar no coro. Sejam Mirians, Mônicas, Lauras, Eduardos ou Sabrinas, há que se respeitar a regra da demonização: todo o período anterior ao atual deve ser encarado como passado indesejável, o mal absoluto. Lideranças e partidos responsáveis devem ser alvos de críticas, no mínimo, paralelas, ou os analistas não encontrarão espaço na mídia. Nada que denote uma vida anterior melhor, mais civilizada, com caminhos de progresso, de justiça social ou de emancipação nacional, pode ser expressado. Seria jogar fora espaço, emprego e renda.

Do outro lado, um movimento reivindicatório que expõe o modelo econômico não ganhará mídia e audiência se não obedecer às mesmas regras. Apelem ao bom senso do “parceiro”, mas não falem em organização sindical, classes sociais, partidos, política e nem mesmo em greve. “Breque” é um termo simpático, pode ser aceito. Um representante da categoria explicando que não é um movimento político e que não há simpatias partidárias, isso é obrigatório. O acordo implica que os donos da mídia assumam o apelo à “responsabilidade social” dos empregadores, algo como a filantropia empresarial que vem ocupando boa parte do JN, principal panfleto da nova ordem.

Servidão digital

Assistam ao vídeo abaixo, o minidocumentário intitulado “Subordinação cibernética: patrão invisível”. Notem que há diversas vozes que dão conta da situação de trabalho dos entregadores, indo da mais “conscientizada” a mais “alienada” (peço perdão pela utilização de termos tão anacrônicos). Reconheçam quais vozes repercutem pelo universo da mídia.

O quadro é esse: a interpretação política do cenário está a cargo dos analistas econômicos dos meios de comunicação, os costureiros reais. Os gritos de que o rei está nu são completamente abafados, mas permite-se falar um pouco sobre a transparência das vestes. A mídia decide quem é governo e quem é oposição nesta paisagem, que deve manter suas cores e a cegueira dos súditos. A situação do trabalhador está mais próxima da servidão e do escravagismo do que de outra formatação moderna das condições de trabalho. E não pode emergir qualquer solução política que inverta os parâmetros da interpretação.

Muito mais que econômico, nosso horror é político.