Reconta Aí Opina Aí Artigo – O vazio político e os demônios à solta

Artigo – O vazio político e os demônios à solta

“Olho as coisas em torno.
Com um desconhecimento completo das coisas que me rodeiam.
Vago em mim mesmo, sozinho, perdido.
Tudo é deserto, minha alma é vazia.
E tem o silêncio grave dos templos abandonados.”
(Vazio,
Vinícius de Moraes)

Por Maurício Falavigna, historiador

Escrevendo seus cadernos da cadeia, frente a uma crise que não era somente econômica, mas de todo o aparato estatal, com uma profusão de vozes políticas que pareciam divorciadas dos anseios sociais, vendo a erosão da credibilidade institucional, da própria cidadania e a descrença em lideranças e partidos políticos, a ascensão do fascismo e a iminência de uma guerra, Gramsci começou a falar em “crise de hegemonia”.

Vivemos sem dúvida uma crise hegemônica e, dentre seus males, uma crise partidária, um aparente vazio de lideranças e até de movimentação da vida política. Desde antes do golpe que afastou Dilma da presidência, o modo pelo qual a cena política era apresentada pela mídia já trazia sua desqualificação intrínseca: impressão generalizada de corrupção, ocultamento de dados inéditos de desenvolvimento e de mobilidade social, demonização das estatais e, principalmente, a mitologização da Lava-Jato.

A voz mais alta

Grande criação cenográfica da mídia, de interesses norte-americanos, empresariado e parte da classe política, a Lava-Jato envolveu a construção de um herói e foi a pá de cal na vida política. Cercado de promotores, comandando a um só tempo operações policiais e condenações em tribunal, o herói global mandou a Constituição e a democracia às favas, arrebatando todos os três Poderes em torno de sua ascensão. A esquerda foi afastada do poder, seu principal partido foi criminalizado e a maior (ou única) liderança do país foi trancafiada e teve seus direitos políticos suspensos.

Ao mesmo tempo, conservadores também abandonaram seus nomes – afinal, ainda precisavam de votos – em prol da imagem da força e da farda. Despontando como a melhor solução eleitoral, um histriônico capitão logo atraiu os mesmos interesses golpistas e todo o aparato jurídico-midiático para a sua campanha. Junto a eles, as igrejas pentecostais e seus pastores davam o aval divino para as togas e as fardas, garantindo uma massa de apoio que ultrapassava a elite e as classes médias. Saem os partidos e os políticos, entram em cena juízes, promotores, pastores e membros das polícias e das FFAA. Abrimos os jornais, ligamos a tevê ou o rádio e lá estão eles, trabalhando pelo futuro da nação – são quase os únicos com legitimidade para aparecer na mídia.

Ocorre que vivemos esse caos político em meio a uma das maiores crises econômicas de nossa história. De quebra, uma pandemia. É, de fato, uma crise hegemônica. A classe dirigente conseguiu por um breve tempo manter seu bloco de alianças e o consenso (quase passivo) da sociedade, com o aval originário. Mas os amadores que ocuparam o cenário acumulam fracassos e incompetências.

O deserto, que atravessei…

Na ânsia de manter afastada a classe política do palco, a mídia aposta (pouco) em empresários e antigas lideranças atualmente sem votos, e um pouco mais em youtubers e apresentadores de tevê, qualquer personagem que não mantenha os propósitos dos governos petistas e que possa se destacar no imaginário social. Numa tentativa de desespero, chega a lançar acenos de reconciliação ao partido afastado – sob os termos de domesticação da elite dirigente – antes que o vazio político fique insustentável e o desastre chegue. E está chegando.

O fato é que estamos politicamente vazios, e todo o grupo golpista – Judiciário, MP, Forças Armadas e políticos conservadores – já se revelou incapaz de enfrentar a crise de saúde, de emprego, política e social. Além disso, começam a se auto-devorar. O tecido social está se esgarçando no aprofundamento da desigualdade. A irracionalidade e a ignorância irrompem em explosões que transformam o noticiário e o próprio cotidiano em uma sucessão de absurdos. Nossa vida política é oca, apenas o ridículo se sobressai.

Não é uma dominação que pode perdurar sem o uso da força. Se a opção é de restabelecer as instituições, refundá-las ou mesmo voltar a uma “normalidade” razoável, a única força política que possui tamanho, experiência e capacidade política para administrar esse caos não pode ser descartada. Mas, para isso, terá de fechar os ouvidos para os cantos de agonia que insistem em salvar os parâmetros em que o governo atual se assenta: desmantelamento do Estado, política econômica ultraliberal, venda de patrimônio, maximização de lucros empresariais, relações de trabalho informais e predatórias.

Para sobreviver, é preciso fechar-se em seus objetivos e tapar os ouvidos para as vozes da mídia, dos tribunais, da caserna, dos templos. Abandonar coaches e youtubers, apresentadores de tevê e “empresários do bem”, comentaristas econômicos e políticos que se penduram na grande mídia, oportunistas de plantão que procuram crescer no vácuo criado pelo golpe. Transformar esse inferno vazio com identidade e conteúdo próprios, deixando de lado os demônios que forjaram o caos. Se “o caos é uma ordem por decifrar”, como disse Saramago, temos de desvendá-lo com nossas ferramentas, não as de seus criadores.