Reconta Aí Opina Aí Existe uma bolha petista, bolsonarista ou cirista? Sobre bolhas, pólos e margens

Existe uma bolha petista, bolsonarista ou cirista? Sobre bolhas, pólos e margens

bolha social

Por Maurício Falavigna, historiador.

Nos últimos anos, passamos rapidamente da esperança de um ciberativismo global, anunciada entre outros por André Lemos e Pierre Levy, para a denúncia de filtros e algoritmos limitadores da informação, mostrados por estudos e fartamente alardeados pela mídia. A ideia de que as redes sociais criam bolhas ideológicas passou a ser a mais difundida, sugerindo que elas se tornam inacessíveis a quem “pensa diferente” do grupo. Analistas da grande mídia partem daí para criticar uma consequente polarização política – o que supõe a existência de dois pólos (e não mais “bolhas”) à esquerda e à direita. “Esquerda” e “direita” são termos tomados genericamente, mais naturalizados por imagens do que definidos conceitualmente, à maneira da prática hegemônica cultural da qual a mídia é a principal salvaguarda. Pretendo erguer algumas questões que não frequentam esse debate.

Como era o mundo das informações antes do ciberespaço? Quais eram as críticas mais contundentes feitas à mídia tradicional? Oligopólio crescente, recorte de notícias idênticas em todos os veículos e o viés ideológico único. Podem gritar ou parar de ler por aqui, podem levantar as armas corporativistas, mas, no caso brasileiro, são acusações irrefutáveis. Podemos até dizer que quase vivíamos em uma grande bolha.

Na mão da velha mídia, agora digital.

Outra questão importante: se considerarmos os 174 milhões de perfis engajados nas redes sociais, 142 milhões deles seguem os veículos vinculados às mídias tradicionais, enquanto as chamadas “independentes”, declaradamente à esquerda ou à direita, reúnem 32 milhões de perfis seguidores. Ou seja, são as mídias de sempre que mais arrebatam os perfis. Elas é quem trazem o conteúdo majoritário dos debates da opinião pública. Assim sendo, acumulam boa parte dos seguidores dos “pólos” e/ou “bolhas”. E, por tradição, são reconhecidas por todos os públicos, não apenas os engajados politicamente. Ainda vale lembrar que essa “grande mídia” é utilizada por todos como reforço ou ponto de crítica, atraindo ou provocando repulsa conforme o teor das matérias. Balizam o conteúdo de todos os veículos. Os algoritmos, que mostram e definem aos perfis o que mais lhes interessa, abraçam os produtores de informação de sempre. Daí a influência do grupo Globo continuar inegável: o Portal G1 é a maior base para a realidade comentada nas redes.

Eu oriento o movimento.

Ainda assim, temos de admitir a presença de “bolhas” (deixamos a ideia de pólos para os analistas da midiazona). Grupos políticos organizam seus movimentos (à direita ou à esquerda). Também há diversidade presente nos dois lados do espectro político e, ainda, “bolhas” que se espalham ao centro. Divulgam mensagens planejadas, versões uniformes de fatos, elevam hashtags aos trends, incentivam eventos presenciais. Como exemplos, temos uma bolha bolsonarista. Temos outra nascida de uma dissidência, ligada a Moro e à Lava-Jato. Temos ciristas em grupo fortemente fechado. Temos bolhas identitárias, onde o posicionamento político é sempre explicitado.

Quais as características desses agrupamentos? Portam-se, para recuperar outro termo gramsciano, como intelectuais coletivos, substituindo ou representando partidos, sindicatos, movimentos sociais etc. Possuem uma personalidade ou ideia dominante a ser defendida, comandos que ditam ações e palavras de ordem, interferindo no jogo político e na opinião pública. Ninguém de fora entra: não por rejeição à diferença, mas por clareza política de quem faz parte do movimento contrário. A bolha é legítima, é um instrumento de comunicação política que tem mostrado eficiência.

O jogo político não impede intersecções entre as bolhas quando elas reúnem interesses comuns. Poderia ser uma luta antifascista que reunisse a parte menos conservadora do espectro, por exemplo. Mas isso não se dá. Na verdade, ao procurar intersecções entre as bolhas, chegamos à conclusão de que só o antipetismo é comum a todos o exemplos citados. As marcas da rejeição ao PT estão em todos esses grupos, indo da criminalização (à direita) até uma desejada autocrítica (restante do espectro). Com a abstrata corrupção, sempre, unindo as curvas das bolhas em beijos suaves.

Para dentro da casinha.

Concluindo a série de observações que não surgem no debate público, há um único partido ou posicionamento político que não consegue se inserir em uma bolha. O PT e o petismo não agem (ou não querem, ou não conseguem agir) no sentido de formação de um agrupamento sólido. Não há uniformidade em torno da palavra de sua presidenta, os temas mais comentados raramente são puxados pelo partido e, principalmente, não há cerceamento de vozes. Não se pode dizer que, mesmo no Twitter, única rede onde predomina a presença da esquerda, o partido apresente uma comunicação objetiva e organizada.

Se há uma suposta “bolha petista”, como muitos acusam, seria a única a se abrir para a divulgação de discursos de quem passou anos incrementando uma imagem negativa do partido e de suas lideranças. Seus integrantes aproximam-se de movimentos que rejeitam definitivamente o PT. Para reclamar direitos legítimos roubados, abre-se para quem aplaudiu ou participou do crime. Limita-se a agir de maneira defensiva e reativa. É o único agrupamento político considerado um inimigo pela mídia e suas personalidades, mas não se cansa de buscar uma aproximação com esse “senso comum”. E, volta e meia, é instado a “sair da bolha” até por algumas de suas próprias lideranças.

O PT é marginalizado pela mídia e segue esse caminho no jogo político das redes sociais. O maior partido da América Latina não tem uma bolha. E, talvez, precise de uma.