Reconta Aí Opina Aí Artigo – Sobre desalentos, rancores e geladeiras

Artigo – Sobre desalentos, rancores e geladeiras

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

“A esferográfica garatuja. Este país é um azougue. Corrijo. Este país é um açougue.”
(João Antônio, Abraçado ao meu rancor)


Desempregado, de acordo com as normas internacionais, é o cidadão que, sem emprego, dispõe-se a sair às ruas em busca de uma vaga. Desalentados são os que já desistiram do feito. Por mais de três décadas, desde Malagueta, Perus e Bacanaço (1963) até Abraçado ao meu rancor (1986), João Antônio descreveu a gente miúda que perambula pelas ruas para ganhar o dia. Antônio Cândido disse que essa foi, para João, a maneira que encontrou para que rejeitados “existam, acima da triste realidade”.
Engraxates, pingentes, aviões, golpistas, pedintes, flanelinhas, cambistas e os faz-tudo se misturam a andarilhos com currículos amassados na mão, todos em busca de levar comida para casa, ou de arrumar pixulés para pagar aquele boleto, aquele credor… Se neste século essa fauna urbana havia definhado, basta uma saída às ruas em meio ao pavor da doença para vê-los brotarem novamente no asfalto. Nas filas para vagas de empregos temporários ou escarrapachados nos bancos das praças, entre os pombos, exaustos, já são incontáveis os que vêem o tempo passar, desalentados. Vidas rejeitadas.


Se puderem chegar em casa e acompanhar as notícias, ouvirão o barulho das manchetes sobre corrupções, rachadinhas – é o noticiário político – e o número de mortos em cada tragédia distante que nos toca, ou a estatística fria de contágios, leitos e mortos que se avizinham, mas são só vidas parecidas, tão próximas que não contam (é o noticiário das desgraças naturais, que vem lado a lado com a previsão do tempo). Mas dificilmente ouvirá sobre mais de 42 milhões de pessoas sem vínculo formal de trabalho, sem garantias de sobrevivência ou perspectiva de aposentadoria. Também não saberá que, somente de maio para cá, mais de 2,8 milhões de postos de trabalho fecharam. Verá que não há mais futebol e carnaval, mas não saberá que a quantidade de pessoas fora do mercado de trabalho é maior do que as que têm um emprego. Ou que 63% das pessoas alegam não ter renda suficiente para sobreviver. Se ouvir a palavra “crise” será relacionada à política, não ao fracasso de quatro décadas de hegemonia do mercado na condução da vida econômica e social. A crise e a revisão de conceitos podem ser destaques no restante do mundo, mas aqui a ordem do dia é vender patrimônio público e desonerar empresários do jugo dos trabalhadores. As pessoas famosas de terno e tailleur na tevê nos ensinam que é só assim que a sua vida irá melhorar.

Cresce o desemprego, a desocupação e a desesperança

Segundo o IBGE, a taxa de desemprego subiu para 13,3% entre abril a junho. Outros indicadores mostraram um quadro ainda pior, como a queda no rendimento dos trabalhadores: 4,4%, ou R$ 9,4 bilhões, em relação ao mesmo período do ano passado.


Não há válvula de escape. É sair no dia seguinte, se apinhar nos coletivos (“não esqueça a máscara, tape o nariz e a boca”), andar nas ruas, preencher cadastros e procurar vagas. O aluguel atrasado, as contas de consumo, as crianças sem escola e sem internet, a comida escasseando na geladeira (que, segundo garante o ministro, logo estará mais barata). E essa realidade doída não é reconhecida como vida pelos meios de comunicação. “A Previdência está equalizada, agora é preciso cortar gastos, acertar as contas públicas e vender as estatais”. A vida, pelo que vemos na mídia, possui um trajeto lógico e natural. O trabalhador brasileiro é que não se encaixa na natureza. E voltamos a ser invisíveis, como os personagens de João Antônio. A fome está batendo às portas.

Mas há uma classe média que continua como tal, parecendo ainda não ver o achatamento e o desalento. João Antônio também não esqueceu dessa outra gente. “Mas da classe média você não vai escapar, seu. A armadilha é inteiriça, arapuca blindada, depois que você caiu. Tem anos e anos de aperfeiçoamento, sofisticação, tecnologia, ah o cartão de crédito, o cheque especial, o financiamento do telefone, da casa própria e do resto da merdalhada que for moda e, meu, sem ela você não vive. Não respira, é ninguém. Ou melhor, é nada: você já virou coisa no sistema. E não pessoa. Dane-se!”

O retrocesso é grande e rápido. Voltamos décadas em cinco anos. Todos vão sentir. Mesmo os remediados que possuem alguma renda e privilégios, terão de fazer escolhas. Ou a escola particular ou o plano de saúde. Ou a tevê paga ou a internet. O carro ou a faxineira. A possibilidade de se tornar Zé Ninguém vai crescer. Como João Antônio já sabia, a água vai bater.

Mas a geladeira estará bem em conta.