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Crise do carro novo poderia ser atenuada por estatal liquidada por Bolsonaro

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Ceitec

A falta de semicondutores no mercado está ocasionando uma crise na indústria automobilística. A falta dessas pecinhas, pequenas no tamanho e grandes em tecnologia, está diminuindo o ritmo da fabricação de novos carros.

“Estimamos que a falta de semicondutores tenha impedido que algo entre 100 mil e 120 mil veículos fossem produzidos no primeiro semestre. Esse problema afeta todos os países produtores e tem impedido a plena retomada do setor automotivo”, explicou o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Carlos Moraes, ao apresentar os números do setor no início do mês.

Segundo a Anfavea, em junho, a produção de 166.947 unidades foi a pior dos últimos 12 meses, em função das várias paradas de fábricas de automóveis ao longo do mês.

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Em relação à falta dos semicondutores, o Brasil poderia apresentar soluções caso o presidente Jair Bolsonaro não estivesse liquidando a única empresa da América Latina capaz de produzir tais peças: a Ceitec.

De acordo com Marcos Dossa, engenheiro de aplicações da Ceitec, a empresa tem capacidade de fornecer às indústrias automobilísticas pelo menos alguns dos semicondutores que estão em falta. "Em primeiro lugar seria preciso fazer uma grande pesquisa sobre quais são as necessidades das indústrias. Há uma grande variedade de semicondutores em um veículo e poderíamos fornecer alguns tipos", contou o engenheiro, acrescentando que "nenhuma empresa poderia oferecer todos os produtos necessários".

A Ceitec, criada em 2008 durante o segundo mandato do governo Lula, está sendo gradualmente extinta ainda que seja a única empresa da América Latina capaz de produzir tais peças - necessárias desde a fabricação de eletrodomésticos a um foguete espacial.

O que são semicondutores?

Semicondutores são materiais capazes de isolar ou conduzir correntes a depender do estímulo que recebem. Essas peças são feitas de silício ou germânio e são parte de diversos componentes eletrônicos. Com a inserção de cada vez mais eletrônicos no dia a dia das pessoas - seja por meio de geladeiras inteligentes ou por carros automáticos - esses produtos se tornaram necessários.

Nos carros, por exemplo, Dossa explica que há diversos semicondutores, "dos complexos necessários aos computadores de bordo, até os mais simples utilizados para o acionamento dos vidros elétricos".

Nesse sentido, o engenheiro conta que a Ceitec poderia produzir três tipos de semicondutores, que se desdobram em diversos produtos. "Os controladores, que são os chips mais complexos; os atuadores, que são aqueles que controlam correntes por meio de estímulos; e os sensores, que são mais simples porém resistentes".

O que a Ceitec faz?

Hoje, a Ceitec se dedica à produção de semicondutores de média complexidade, que vão desde produtos para o controle de rebanhos, mais simples; até as etiquetas de pedágio, mais complexas. Sobre as últimas, Dossa destaca que cerca de 40% são desenvolvidas e produzidas pela empresa pública, sendo que dentro daquele simples adesivo, há criptografia e desempenho rápido.

Porém, os funcionários da Ceitec seguem pesquisando e criando, como microprocessadores. "Estamos começando a projetar produtos com maior valor agregado", conta o engenheiro.

A Ceitec é apenas uma semente, que pode ou não germinar

O engenheiro de aplicações conta que a Ceitec foi criada como uma semente para a nova etapa do desenvolvimento industrial. Sua missão não era apenas atender o mercado, mas sim trazer essa tecnologia para o Brasil e formar profissionais capazes de atuar nessa área inovadora. A Ceitec deveria ser a 'semente' que fomentaria um ecossistema de empresas de alta complexidade para atender não só ao Brasil, mas ao mundo.

Países como China, Índia e Estados Unidos têm investido pesadamente no desenvolvimento dessa indústria. E países europeus seguem a tendência, contratando inclusive os 'cérebros brasileiros' que deixaram a Ceitec antes de sua liquidação total.

"Produzir conhecimento, dominar processos e treinar profissionais capacitados, demora. O que o Brasil não está enxergando é que os outros países, mesmo os mais liberais, já passaram por esse processo. Hoje, eles estão colhendo os frutos e o Brasil está matando essa semente nascente", lamenta o engenheiro.

Ainda há tempo

Os investimentos do Tesouro Nacional na Ceitec são da ordem de R$ 60 milhões ao ano - R$ 30 milhões a menos do que o gasto com remédios ineficazes do "tratamento precoce" conta a covid-19; ou menos da metade do que o Governo gastou com sobremesas em 2020, da ordem de R$ 123,2 milhões.

Dossa espera que o País aprenda com a crise atual do automobilismo. "Fica óbvio que temos que ter uma solução nacional", opina o engenheiro. No mesmo sentido, afirma que tal crise é uma oportunidade de que os semicondutores ganhem a relevância necessária ao olhos da opinião pública, que pouco tem se manifestado sobre o que significa para o futuro do Brasil a liquidação da Ceitec.