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Congresso Anapar: "Não estamos enfrentando apenas a pandemia", avalia Ladislau Dowbor

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Imagem do site Recontaai.com.br

Professor de Economia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, Ladislau Dowbor combate a ideia, muito presente no discurso de integrantes do governo federal, de que a economia foi prejudicada exclusivamente pelo pandemia do novo coronavírus.

“Não estamos enfrentando apenas a pandemia. O coronavírus demonstrou o nível de desajuste na sociedade. O mundo todo está debatendo alternativas”, afirmou durante sua participação no 21º Congresso Nacional dos Participantes de Fundos de Pensão e de Usuários de Planos de Saúde de Autogestão.

Apontando 2013 como “último ano distributivo, com crescimento”, o economista defendeu que “a austeridade não funciona. É o sétimo ano em que a economia está parada. É o sétimo ano que dizem que estão concertando”.

Dowbor avalia que o predomínio do capital financeiro no mundo, em contraponto ao comando do capital produtivo no passado, criou uma situação de crescente precarização da vida e de obstáculos cada vez maiores para o desenvolvimento: “O endividamento de famílias e empresas trava a economia”. E lembrou que, em meio à crise provocada pela pandemia, “42 pessoas se apropriaram do equivalente a seis anos de Bolsa Família. Gente que a rigor não produz nada”.

“Estamos na mão de atravessadores. No capitalismo que a gente conhecia, do século passado, para explorar um trabalhador pelo menos se ‘dava’ um emprego”, criticou.

Para ele, não há soluções fora de ações que busquem dinamizar a “base da economia”, redistribuindo renda entre os segmentos sociais.

“Quando se dinamizou a base da economia, as empresas voltam a produzir e voltam a empregar. E isso gera receita para o Estado. Acaba entrando mais dinheiro no Estado do aquilo que ele inicialmente colocou”, sintetizou em relação ao período entre 2004 e 2014.

Impactos da pandemia

Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Dieese, também participou do Congresso. Na mesma linha de Dowbor, abordou como a pandemia intensificou um processo de piora no mercado de trabalho: “A crise sanitária acentuou o desemprego, que já vinha crescendo. É um problema que já se agravou e que tende a se agravar mais”.

Esse impacto momentâneo, em sua explicação, se somou a uma profunda alteração no emprego da tecnologia no mundo do trabalho. Se antes máquinas substituíam o esforço físico humano, cada vez mais substituem atividades intelectuais, o que impacta diretamente o setor de serviços.

No futuro, a tendência é que, primeiro, a maioria das atividades laborais sejam auxiliadas por máquinas tecnológicas e, depois, o trabalho passe a ser o auxílio humano a estes componentes.

“A substituição continua acontecendo, mas estamos observando uma mudança importante, o surgimento de máquinas que acumulam e processam informações em grande escala, o que tem levado a um uso da tecnologia para além da substituição da força de trabalho, sendo aplicado na área de serviços”, afirmou.

“No Brasil, além dessas transformações, há os efeitos de uma economia extremamente desigual. A pequena e média empresa tem um déficit de produtividade enorme em relação às grandes”, complementou.

Ataques aos fundos

Representantes de entidades de representação de trabalhadores também estiveram na abertura do Congresso. Sergio Takemoto, presidente da Fenae, lembrou que os ataques do atual governo às empresas públicas também são combinados a ataques aos fundos de pensão e aos direitos por eles garantidos aos funcionários de estatais.

“Para nós, é uma obrigação estar aqui. A resistência é necessária em todas as formas. É fundamental fortalecer nossa unidade”, pontuou.