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Brasil desmonta fábricas de fertilizantes e se torna ainda mais refém de importações

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Ouça, baixe e envie o comentário de Maurício Falavigna

Conflito armado, guerra financeira. Em que medida sentiremos os efeitos da guerra na Europa? A curto prazo, combustível e trigo deverão ter seus preços majorados. Outras commodities também podem contribuir para o aumento dos custos de suas compras mensais, a inflação deverá continuar em alta. Mas há opções de desenvolvimento, de vocação de um país, que vão influir em nossa vida a médio e longo prazo.

As orientações do governo brasileiro desde o golpe vão ao encontro do agronegócio e da crescente desindustrialização, além das privatizações do patrimônio nacional e abandono da posição indutora de desenvolvimento por parte do Estado. E essas escolhas, além de não contribuírem para assegurar a segurança alimentar do brasileiro, poderão também aumentar nossa dependência externa e nossa fragilidade econômica. A questão da dependência de fertilizantes ilustra bem toda a política econômica que vem mudando a cara do País desde 2016. Por sinal, enquanto este artigo é escrito, a Rússia anuncia oficialmente o fim das exportações de fertilizantes. E foi-se o tempo quando, nesta terra, em se plantando tudo dá.

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Para se ter uma ideia quantitativa, o Brasil consumiu 30 milhões de toneladas de fertilizantes em 2015; em 2020, o consumo foi de 40 milhões e, no ano passado, calcula-se que essa quantidade chegou a 45,5 milhões de toneladas. Dentro de uma política de substituição de importações, até 2015 a Petrobras manteve e fábricas de fertilizantes ativas e sob controle da estatal, e o percentual de insumos importados ainda era de 73%, em queda crescente. Com o fechamento de três fábricas e a venda da maior delas, que ainda estava na planta, justamente para a Rússia (venda comemorada pela atual ministra da Agricultura); já em 2020, 85% dos fertilizantes usados foram importados, maior percentual dos últimos 20 anos. E a perspectiva é de aumento dessas importações. Rússia e Belarus respondem por 26% dessas importações.

Os outros produtores (Israel, Jordânia, Alemanha, Chile) já tem seus contratos de venda e não possuem volume suficiente para aumentar a produção. Resta o Canadá – mas todos irão buscar os insumos no Canadá. Os preços dispararão em leilão. Nossas opções de transformar a Petrobras em propriedade de acionistas, desistir da produção local e tratar a estatal como um balcão de liquidações fez com que a capacidade de produção nacional fosse na direção oposta à da demanda crescente. A questão da soberania, da autossuficiência e do desenvolvimento foram totalmente desprezadas.

O saldo deste período catastrófico que vem de 2016 até agora é o seguinte: desistimos de uma política estratégica para o setor de fertilizantes e de insumos agrícolas, fomos nos desindustrializando, a produção de insumos e de fertilizantes encolheu e a demanda explodiu. Nossa dependência do setor agropecuário é crescente, e ficaremos cada vez mais expostos a variações e crises internacionais. Para completar o cenário caótico, o governo ameaça lançar um programa de produção de insumos (fósforo e potássio) por decreto, o que realizaria seu sonho (e o do agro, e o de madeireiros, garimpeiros) de se apropriar de territórios indígenas e protegidos.

Enquanto isso, mais uma vez – e não tocamos aqui na questão dos combustíveis – a Petrobras cumpre seu novo papel. Abandona a produção local de fertilizantes e vende suas fábricas, já que são projetos importantes para a sociedade e a sofre com do País, mas não resultam grandes lucros. Bate o recorde de lucros para 106 bilhões de dólares e divide 101 bilhões entre os acionistas. O Estado diminui, não investe em tecnologia e produção, vende patrimônio e commodities, serve apenas a rentistas e aos donos do agro, o País empobrece, a sociedade não alcança necessidades básicas e a mídia corporativa aplaude a modernidade desse novo Brasil.