Reconta Aí Opina Aí BBB: sobre elitismo intelectual e hegemonia cultural. O Big Fone pode tocar para você também

BBB: sobre elitismo intelectual e hegemonia cultural. O Big Fone pode tocar para você também

“Compreender e avaliar realisticamente a posição e as razões do adversário (e às vezes é adversário todo o pensamento passado) significa exatamente estar livre da prisão das ideologias (no mau sentido, como cego fanatismo ideológico), isto é, significa posicionar-se num ponto de vista ‘crítico’, único ponto fecundo na indagação científica.”
(Gramsci)


Se tomarmos como base os escritos e postagens em redes da parcela progressista da sociedade – e espero que esse seja o público deste blogue e dos meus textos – o tom de reclamação é monocórdico. A maioria das pessoas bem formadas, educadas e engajadas lastima-se pela onipresença do BBB em todas as suas redes. Basta conectar-se para saber das afinidades e ódios que alimentam o dia a dia dessa “gente comum, ignorante”. Não há como se livrar do “mau gosto”.

O elitismo intelectual não é necessariamente ruim para se efetuar análises críticas e destrinchar contextos históricos, pelo contrário. Mas, para o debate público, em geral, é uma postura cega e inepta. Não enxerga o outro e atua como placebo na transformação da realidade. A utilização de recursos de conhecimento para interferências culturais na sociedade não pode partir de uma concepção de cultura “como saber enciclopédico, no qual o homem é visto sob a forma de recipiente para encher e amontoar com dados empíricos, com fatos ao acaso e desconexos, que ele depois deverá arrumar no cérebro como nas colunas de um dicionário para poder então, em qualquer altura, responder aos vários estímulos do mundo externo”. “Gostos superiores” não se transmitem em comprimidos. Os entretenimentos produzidos e disponibilizados pelo mercado fazem parte da formação cultural da maioria que a esquerda quer mobilizar, educar, engajar. Não se explica às pessoas comuns e espoliadas seu lugar na ordem capitalista tirando-as da frente de um BBB e as obrigando a aturar solos de violino.

Poder e hegemonia cultural


Gramsci, o mesmo sardo que escreveu a citação acima, gostava de lembrar que o poder das classes dominantes não se garante apenas pelo controle do aparelho repressivo estatal. O poder se estabelece e sobrevive pela hegemonia cultural, que envolve o controle do sistema de formação dos cidadãos e dos meios de comunicação. Acho que não é necessário lembrar que, de Gramsci para cá, a sala de aula, a televisão e a web se mesclam neste papel formador. Jornalismo e entretenimento cumprem o papel de identificar os interesses das classes dominantes com os interesses da sociedade como um todo. Entender a mentalidade conformada pelas suas ações é essencial para estabelecer críticas, diálogos, ações de convencimento, de transformação social e cultural.

É verdade que, desta vez, o BBB suscitou análises intrincadas sobre sua validade sociológica. Um jornalista (sempre pretensos literatos, como dizia Gramsci), famoso comentarista de televisão, lançou a ideia de que o reality era um “retrato sociológico perfeito do país”. Um grupo jovem, mais ou menos nivelado em termos de classe, todos já inseridos no mundo da mídia, pela web ou pela música. A definição só não é uma rematada bobagem porque este deve ser o “país” com que o jornalista convive. Mas outros se aventuraram a ir mais fundo, analisando as intenções da emissora em relação ao ativismo identitário. Uns chegaram à conclusão de que a Globo queria demonizar os “movimentos” (que tanto promove), outros acusaram os ativistas de se olharem no espelho e não gostarem da imagem. São análises de alcance limitado frente ao sucesso estrondoso, financiado previamente e garantido pelo apoio de estrelas jovens, aparentemente pagas para divulgar o programa nas redes. Mas, ainda assim, um sucesso que chega a ser irritante para os segmentos esclarecidos (e é bom frisar que muitos intelectuais se renderam pelo caminho).

Paredão de comportamentos e valores

O que muitos chamam de “conformismo” da audiência é, no fundo apenas a maneira de se relacionar com o mundo. De novo Gramsci: “Conformismo não significa outra coisa que a socialização, porém prefiro utilizar a palavra ‘conformismo’ exatamente porque incomoda os imbecis. (…) É muito fácil sermos originais limitando-nos simplesmente a fazer o contrário do que fazem os demais”. O BBB socializa, expõe e impõe valores.

O circo humano envolve competitividade, individualismo, mentiras, exploração emocional, mesquinhez, falsa empatia, enfim… Emoções e atos que até algumas décadas seriam considerados os mais baixos possíveis, mas hoje são relativizados. Os interesses individuais se tornaram sagrados e, no caminho por um lugar ao sol – um contrato, um programa televisivo, espaço na mídia, tudo o que significa grana e sobrevivência – vale tudo. Toda a vileza é sobrepujada pela identificação que gera afetos e torcidas, ódio e perseguição. Qualquer manipulação dos personagens pela emissora é secundária, a identificação com o sistema é o objetivo final, e já vem garantida na fórmula. Nem mesmo a difusão massacrante do valor do “empreendedorismo” nos programas jornalísticos “sérios” funciona tão bem quanto o cotidiano dos jovens do BBB para difundir comportamentos e valores.

Pão, circo, novela e futebol

De nada adianta a acusação de que o programa se soma aos demais factoides políticos como parte de uma “cortina de fumaça” (antiga alienação, culpa lançada sobre novelas e futebol) enquanto se mantém a estrutura econômica que garante a exploração da maioria. Nem sempre o desenvolvimento social tem origem na estrutura econômica, e descobrir seu lugar no mundo – sua consciência de classe – não é algo que se dá espontaneamente. Entender os valores arraigados entre os jovens (e boa parte da sociedade), suas motivações e seus sonhos, é imprescindível para planejar diálogos e estratégias.

Não funciona desprezar os parcos prazeres que ainda restam a uma população massacrada. Há uma necessidade premente de se assistir a algumas horas de BBB e de atentar para as reações do público. Só assim para combater os valores que mais negamos. E talvez isso ajude a entender outras partes do dia a dia. Por exemplo, diálogos vazados entre procuradores, atos e falas hesitantes de juízes do Supremo, declarações de deputados e senadores, seguranças asfixiando pessoas negras no supermercado, aglomerações em meio a uma pandemia, enfermeiras aplicando injeções de ar no lugar da vacina… Uma vasta parcela da sociedade age conforme seus próprios interesses, sem a menor preocupação coletiva. E só estão praticando valores disseminados em outros aspectos da vida pública, e que são levados mais a sério.

Gramsci certamente sentaria no sofá para entender. Todos deveriam. Por mais que lhes cause desagrado ou repulsa, uns dois episódios bastam. Nos valores daqueles personagens é possível encontrar seus alunos, parentes, vizinhos e amigos. É ali que eles encontram seu lugar no mundo, o que é certo ou errado, a sua função na vida. É desesperador, mas necessário.

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