Reconta Aí Atualiza Aí Tech? Pop? o Agro [quer mandar em] tudo

Tech? Pop? o Agro [quer mandar em] tudo

Nem a educação escapa da ânsia do agro em reescrever a história do Brasil sob cinzas.

A história do Brasil é permeada por violência. Ainda hoje é possível ver no perfil genético do povo brasileiro o estupro de mulheres indígenas e negras. O estudo que comprova o fato foi conduzido em laboratório pela pesquisadora da USP Lygia da Veiga Pereira. Contudo, nas bibliotecas brasileiras, estudos de ciências humanas há tempos já havia descrito o fato. Principalmente a História.

As cinzas

O Agro devastou parte da Amazônia durante o dia do Fogo.
Foto: Katie Maehler / Mídia NINJA

Há 520 anos aportava no Brasil o hábito de queimar vegetação nativa para fazer agricultura. Ao contrário do que diz o agro, indígenas praticavam um modo de produção em que não era necessário “limpar o terreno” para o plantio. Contudo, a destruição de ecossistemas para a chegada de um “novo mundo”, com cara de velho, sempre que possível é creditada a eles: aos pobres, aos roceiros, aos caipiras e até à vontade de Deus.

Há pelo menos dois anos, a maior parte da população brasileira assiste perplexa à destruição do País pelo fogo. Primeiro foi a Amazônia, com sua floresta úmida vítima de um incêndio de proporções devastadoras. Apesar da negativa do agro, investigações concluíram que latifundiários interessados em maiores áreas para pasto fizeram um Dia do Fogo.

Hoje o bioma que arde é o Pantanal, que passa pela pior seca dos últimos 50 anos, provavelmente devido às mudanças climáticas. No Pantanal, quatro fazendeiros, de acordo com a operação Mataá, botaram fogo nas áreas adjacentes às suas terras e queimaram, até hoje [7 de outubro], 26% de todo o bioma.

Os livros

Grande queima de livros durante o regime nazista.
Foto: AP Photo

A fogueira que consome as florestas do Brasil promete fazer o mesmo com os livros, principalmente com os de História. Xico Graziano – que de acordo com a Wipédia é político e agrônomo – já acendeu o pavio.

Em vídeo de 3 de outubro, debruçou-se sobre apostilas de 3º e 5º anos de ensino fundamental, produzidas por uma famosa rede de ensino. Nelas, descontextualizou fatos e dados para dizer que se tratavam de “doutrinação” para crianças. Foi rebatido pela rede com notas técnicas baseadas em Ciência e História. Matérias fundamentais para o desenvolvimento humano e para uma correta compreensão do mundo.

Contudo, ele escreve para sites de notícias e a tal rede, não. Assim, o alcance da mensagem correta não chegou a todos que o ouviram.

De acordo com um trabalhador do mercado editorial, mesmo amparados pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e documentos oficiais, há orientação para “amaciar” os conteúdos. “Tem crescido a patrulha ideológica em cima dos materiais e editoras de didáticos”, disse a fonte, que preferiu o anonimato para falar sobre o tema.

E como eles também acreditaram em Paulo Freire, quando escreveu que “Só a Educação liberta”, resolveram agir. Reesecrever a história para justificar o injustificável, hoje, é colocar um cabresto nos brasileiros.

O agro que não é pop

Enquanto isso, Tuira Tule, produtora orgânica certificada do Quilombo Campo Grande, um acampamento do MST, fala sobre a destruição física da escola popular Eduardo Galeano. Esse foi o primeiro prédio destruído pela polícia durante a reintegração de posse ordenada pela justiça a pedido da Companhia Agropecuária Irmãos Azevedo (Capia), antiga administradora da Usina Ariadnópolis Açúcar e Álcool SA.

O Quilombo Campo Grande foi construído sobre as ruínas da Capia, que faliu em 1996, “deixando abandonados não só os trabalhadores, mas também as terras”, segundo Tuira Tule. Ela ressalta que só havia degradação, inclusive do parque industrial. Assim, com os trabalhadores abandonados à própria sorte, o MST ocupou as terras improdutivas.

Todos os pés de café existentes na terra foram plantados por eles e hoje, além da bebida, os agricultores familiares produzem outros gêneros. São 450 famílias que vivem da produção agrícola e que pretendem chegar a dois milhões de pés de café em 2020.

Ou pretendiam, já que além da destruição de sua escola, voltada para a educação de crianças e especialização de adultos, as famílias estão ameaçadas de despejo. Depois de mais de 20 anos trabalhando a terra, movimentando a economia e oferecendo dignidade aos agricultores familiares, o Quilombo tem sua existência ameaçada.

Enquanto o agro que é tech, pop, que é tudo e que tem lobistas e um governo pró-grandes produtores, a população que depende da terra para sobreviver e os indivíduos que se alimentam dela estão ameaçados pelo poder econômico e pelo poder político conservador que quer transformar em cinzas, a História do Brasil.