Reconta Aí – Atualiza Aí Rita Von Hunty dispara: “É construindo nossa luta que a gente vence”

Rita Von Hunty dispara: “É construindo nossa luta que a gente vence”

Professora de língua e literatura inglesa, atriz, pesquisadora em estudos de cultura, drag queen e uma das maiores influenciadoras do campo progressista: essa é Rita Von Hunty.

Em evento online, aconteceu nesta quinta-feira (23) a estreia de uma live da diretoria de Políticas Sociais da Fenae. Nela, Rita Von Hunty e Rachel Weber conversaram sobre a sigla LGBTQIA+ e o fim das opressões.

Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais/Transgêneros, Queer, Intersexo, Assexuais + toda a diversidade sexual e de gênero que existam. Esta é a definição da sigla, que de tempos em tempos cresce.

De acordo com Rita Von Hunty, esses desdobramentos existem porque os modos de existir no mundo também mudam. Nesse sentido, ela falou um pouco sobre a história do movimento, que transforma o mundo.

Até os anos 80, qualquer sexualidade – ou que não a heterossexual – era considerada desviante e as pessoas, transviadas. Afinal, havia vasta literatura – principalmente médica – que considerava o “homossexualismo” um trasntorno mental.

Contudo, a luta dessa minoria para mudar o estigma ocorria cotidianamente antes disso. Um dos marcos organizativos foi a Rebelião de Stonewall nos EUA, em 1969. Entretanto, ao contrário do que se possa imaginar, no Brasil também havia protestos e revoltas contra a violência policial praticada combatendo “transviados”. Por exemplo: no ano de 1983, quando ocorreu o Levante do Ferro’s bar, as lésbicas se organizaram em favor do seu direito de existir e exercitar sua sexualidade.

Rita Von Hunty explica a história da sigla

“Temos que pensar que se hoje temos uma parada do orgulho, uma marcha, é porque antes os corpos e identidades desviantes eram impedidos de existir”, afirma Rita.

Depois da homossexualidade sair do Código Internacional de Doenças, todas as pessoas que não eram cisgêneras e heterossexuais foram abrigadas no guarda-chuva conceitual gay. Porém, Rita relembra que gay é uma palavra inglesa que significa feliz, ao mesmo tempo que pergunta: “Quem era feliz além dos ricos?” [que podiam exercer sua sexualidade e seu gênero livremente].

Assim, depois de considerar todos gays, a palavra lésbica começou a ser utilizada e junto a ela foi criado o simpatizante. Nesse contexto, foi criada a sigla GLS, que segundo Rita tinha um viés completamente mercadológico e se referia a espaços de consumo em que as pessoas não seriam discriminadas.

Todavia, esses espaços também eram excludentes, deixavam de fora quem não pode validar sua existência por meio do consumo, do dinheiro. Assim, Rita constata: “Era absurdo que validássemos essa lógica mercadológica neoliberal”.

A partir dos anos 2000, depois de muita luta e do aumento dos discursos científicos e dos avanços do debate da diversidade, a comunidade passou a reivindicar o termo LGBT, Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transsexuais.

Reconhecer existências e somar lutas

“Toda a vez que estamos divididos ficamos mais fracos”, constatou Rita. No mesmo sentido, ela acredita que é preciso que as reivindicações sejam coletivas e não sectárias. E que as lutas sejam direcionadas contra as estruturas que mantêm a repressão, seja de sexualidade, gênero, raça ou mesmo de condição social.

Segundo ela, as pessoas não são apenas uma coisa, por exemplo, lésbica. Uma mulher pode ser lésbica, trabalhadora e negra. Assim, a luta por sua existência perpassa pelo combate ao machismo, ao racismo e ao combate por direitos trabalhistas. Por isso, é preciso ampliar horizontes e construir coletivamente lutas pelo fim de todas as opressões.

Ao final da conversa, Rita Von Hunty afirmou que o horizonte é que raça, divisões por sexualidade e gênero deixem de existir, para que “não precisemos mais falar sobre isso”. Contudo, para superar esse debate, é necessário que a realidade material seja transformada e que não haja grupos submetidos por outros por conta de qualquer característica. Assim, afirma: “É construindo a nossa luta, que a gente vence a nossa luta”.