Reconta Aí Atualiza Aí O que fazer com as estátuas de um passado inglório?

O que fazer com as estátuas de um passado inglório?

Protestos antirracistas ao redor do mundo têm derrubado estátuas e suscitado debates sobre racismo, memória e história.

Estátuas e monumentos fazem parte da paisagem de cidades e, não poucas vezes, são seus cartões postais. Porém, quem são as personagens homenageadas? O que elas fizeram pela maior parte da população brasileira? Qual passado enaltecem?

É em meio a tantas perguntas – cujas respostas podem ser diferentes maneiras – que se insere o debate sobre o que fazer com estas estátuas. Afinal, mantê-las como lembrete de como o racismo estrutural surgiu ou derubá-las para que novas memórias sejam revisitadas?

Qual história é contada pelas nossas estátuas?

Renato Brancaglione Cristofi é historiador e mestre em História da Arquitetura pela USP. No contexto da formação das elites do Brasil, e relembrando que são elas que possuem o capital financeiro e político para a construção de estátuas, Cristofi afirma que “mais do que ‘quem são’, devemos procurar observar tais estátuas e espaços públicos de maneira mais ampla que as próprias figuras em si”. Ou seja, o historiador reflete que é necessário entender “sob quais narrativas de memória e representação estes espaços foram ocupados ou nomeados”.

Nesse sentido, Cristofi afirma que bustos e estátuas são símbolos que reafirmam o poder das elites frente à uma história nacional em disputa. E explica que grande parte desses monumentos surgiram durante a “consolidação do modelo republicano” no País.

O historiador ainda explica que mesmo que hoje sejam vistas – não sem razão, como um símbolo da opressão e morte de negros e indígenas – durante anos representavam as virtudes mais importantes para a época. Para tanto, Cristofi exemplifica os diversos monumentos aos bandeirantes em São Paulo ou da expulsão dos holandeses em Pernambuco.

Se por décadas os monumentos destacavam a bravura dos que dominavam os sertões, no caso paulista, ou lutavam contra invasores, no caso pernambucano, hoje suscitam outro tipo de reflexão, sem deixar de dizer que aquilo, bandeiras ou guerras, aconteceram.

Os lugares de memória

Há no Brasil e no mundo uma série de monumentos aos que foram oprimidos. Geralmente, não são estátuas, mas sim lugares de memória. Por exemplo, o recém tombado Cais do Valongo, no Rio de Janeiro; o campo de concentração de Auschwitz, na Polônia ou a Cúpula Genbaku, no Japão.

Cada um desses locais reforça um momento histórico, cuja ação humana provocou dor e sofrimento a milhões. Contudo, eles não parecem ser uma antítese das estátuas. Ao contrário, mostram que os mesmos momentos hitóricos eternizados nas estátuas também podem – e devem – ser vistos sob outra ótica.

Dessa forma, Cristofi afirma que mantendo as estátuas é possível recuperar a história como um monumento à vergonha. Representações materiais podem ser preservadas para mostrar o que houve e garantir que isso não se repita.

“Quebrar uma estátua não rompe um lugar de memória”, aponta Cristofi. Ele ainda defende que o local seguirá como ponto de referência para os que defendem o revisionismo hitórico. Para tanto, Cristofi cita não só as manifestações de neonazistas em Dresden (Alemanha), como também as estátuas que rementem aos confederados nos EUA e viraram ponto de reunião de supremacistas brancos no país.

“Mais do que derrubar as estátuas, como historiador penso que elas devem ser observadas enquanto elemento de memória e devem ser ressignificadas”, afirma o pesquisador. Dessa forma, é possível refletir não só que os retratados existiram, que promoverammassacres, mas que ainda assim a elite cultural do País, em certo momento histórico, os reverenciou.