Reconta Aí – Atualiza Aí O cliente tem poder para exigir um mundo mais justo?

O cliente tem poder para exigir um mundo mais justo?

Em meio à destruição de biomas, retrocessos dos direitos trabalhistas e falta de solidariedade de classe, qual é o papel do consumidor – o cliente?

Diz a máxima que o cliente tem sempre razão. Mas por que a vontade do cliente não é levada em conta na produção? Por exemplo, é bem difícil imaginar que ao fazer uma marmita, uma pessoa deseje a terrível destruição de 17% do Pantanal brasileiro para criação de mais pastos. Ou que ao vestir uma roupa da moda, uma mãe apoie o trabalho infantil nas confecções. Contudo, o consumo é parte fundamental da cadeia econômica que sustenta o sistema no qual estamos imersos.

Porém, é um erro pensar que ele é a parte mais forte dessa cadeia e bastaria boicotar para que os grandes problemas da produção sumissem. Depois dos trabalhadores, os clientes são o elo mais frágil nas relações comerciais. Basta dar uma olhadinha nos sites de defesa do consumidor como Procon ou mesmo no Reclame Aqui. Geralmente, os clientes pagam altos preços por serviços e mercadorias ruins e ainda são penalizados com o estresse de ter que ir atrás de fazer valer seus direitos.

Entretanto, não precisa ser assim. Principalmente se os clientes se unirem e assim tiverem poder de barganha. Um exemplo do que pode advir dessa união são as sanções impostas ao Brasil por países importadores. O outro, bem mais próximo ao poder real de indivíduos, são as organizações da sociedade civil que lutam contra a publicidade infantil.

A escolha está nas mãos do cliente?

E quando o cliente não tem maturidade para consumir de maneira consciente?

Nem sempre, principalmente quando esse cliente não tem responsabilidade legal para efetuar contratos, como é o caso das crianças. Porém, a publicidade infantil segue a todo vapor no país, produzindo o aumento da produção de desejos. Incentivando o hiperconsumo desde cedo e colaborando para um sistema econômico predatório à própria espécie humana.

A publicidade infantil, com estratégias cada vez mais sofisticadas de maketing voltadas às crianças surte efeito há anos. Mas gera também resistência. Esse é o caso do Instituto Alana, uma organização civil que busca promover o direito das crianças à infância. Ela atua frontalmente contra a publicidade infantil em várias frentes, destacando-se principalmente o contato com os parlamentares que fazem as leis, e o mundo jurídico.

De acordo com Livia Cattaruzzi, advogada do programa Criança e Consumo, do Instituto Alana, “A criança é vista dentro da lógica dessa sociedade de hiperconsumo”. Ainda segundo a especialista, as crianças são vistas sobre três aspectos fundamentais dentro dessa cadeia – consumidora de hoje, consumidora do futuro, como promotora de vendas dentro do seu círculo familiar.

Dessa forma, organizações da sociedade civil se articularam com diversos órgãos públicos – como Procon e Defensoria Pública – para barrar o que já é contra a lei. “A publicidade infantil já é proibida no Brasil. Nesse sentido, a mensagem publicitária não pode ser dirigida à criança, mas sim aos adultos. Porém esse desrespeito acaba compensando financeiramente, porque os órgãos públicos Procon, Senacon, Defensoria Pública enfrentam demora na justiça para coibir esses abusos”, afirma Cattaruzzi.

Advocacy e lobby para pressionar por mudanças

Por ser uma ponta fraca na relação com grandes empresas, resta ao consumidor se unir em torno das pautas que consideram justas. Boicotes já deram resultados, mas nem sempre com o direcionamento desejado. O caso da diversidade é bastante visível. As pautas estampam camisetas e comerciais de grandes marcas, mas na estrutura produtiva, pouco foi transformado.

A intervenção nas instâncias de poder que podem mudar e fazer valer as leis é uma forma eficiente de organização.: associações, organizações não governamentais de outros grupos articulados têm tido vitórias em alguns segmentos da vida brasileira. Contudo, os consumidores e clientes ainda parecem desconhecer os resultados positivos que a união pode conquistar.