Reconta Aí Atualiza Aí Mulher, negra, periférica, mãe e rejeitando o rótulo de mercadoria: “Eu mostro o rosto”. Conheça Linda Abadia.

Mulher, negra, periférica, mãe e rejeitando o rótulo de mercadoria: “Eu mostro o rosto”. Conheça Linda Abadia.

Ao ser confrontada pela visão de que mulheres com filhos que se separam perdem o valor, Linda Abadia Alvez Gonçalvez reagiu dizendo que não é mercadoria.

Assim como tantas mulheres brasileiras, negras e periféricas, Linda Abadia Alvez Gonçalvez tem uma história marcada pela violência. Contudo, como ela mesmo afirmou, “cada vez que eu me separo eu faço uma graduação”. Assim, Linda se separou duas vezes, ambas por conta da violência doméstica, mas já fez três graduações e está terminando a segunda especialização.

Sistemas de Informação, Licenciatura em Matemática, Gestão em Segurança Pública, foram as matérias que estudou na faculdade. No mesmo sentido, fez Especialização em Docência no Ensino Superior e está concluindo Gestão em Projetos.

Mesmo assim, Linda, que é moradora de Santa Maria, uma Região Administrativa pobre do Distrito Federal, esta desempregada. Segundo ela, espera que o governador autorize a contratação de professores, concurso no qual ela passou. E ainda completa, “A gente só consegue sobrevive aqui com muita luta”.

A primeira violência doméstica

Os dois casamentos terminaram por causa da violência doméstica. No primeiro, o marido trabalhador, sem vícios e sério, torturava o filho. Linda descobriu da pior forma possível.

Nessa época, segundo conta, Linda saía de casa de madrugada para trabalhar como cobradora de ônibus. O seu marido, pai da criança à época com 8 anos de idade, queimava o menino em lugares pouco visíveis, batia na sola dos pés dele e chegava a pendurá-lo de ponta cabeça no telhado da casa.

Porém, ela só soube isso, quando o garoto expôs o drama vivido para a professora da escola, que chamou o Conselho Tutelar e a Polícia. Linda jamais duvidou da criança. Assim como imediatamente pediu o divórcio. Levou o menino pra casa e o ex-marido para a prisão. Ela não confrontou o ex-marido, “Era tão monstruoso que não havia explicação”.

Mulher, negra, periférica, mãe e rejeitando o rótulo de mercadoria

Recém separada e com um filho pequeno aos 23 anos, Linda teve que lidar com o preconceito. Ao contrário do que se possa imaginar, sofreu preconceito de vizinhos, e principalmente, de vizinhas. Chegou a ouvir que mulher com filho que se separa não tem valor. Segundo ela, se indignou respondendo, “E desde quando eu sou mercadoria?”

Assim fez sua primeira graduação, se envolveu no movimento sindical da sua categoria e principalmente, nos movimentos de mulheres. Foi nesse momento conseguiu se sentir fortalecida e acolhida.

Contudo, isso não evitou que fosse vítima mais uma vez de violência doméstica. Dessa vez, o marido tinha problemas com alcoolismo e, por isso, as brigas estavam se tornando constantes.

Depois de uma agressão acidental, um episódio de fúria em que o marido destruiu a cozinha e de ameaças, Linda mais uma vez se separou. Mais uma vez recorreu à justiça, obteve uma medida protetiva e se divorciou.

As marcas da pele, as marcas da alma

“As vezes achamos que a violência é só quando marca, machuca. Essa é uma visão das nossas mẽs e avós”, afirma Linda. Nesse sentido ela explica que a violência das palavras e da privação também deixa cicatrizes, mesmo que invisíveis.

Definitivamente, Linda transformou suas experiências dolorosas em conhecimento e generosidade. No ano de 2019 se candidatou ao Conselho Tutelar de Santa Maria, e mesmo não ganhando, segue orientando mulheres e mães no seu dia a dia e em reuniões.

Quando perguntada sobre o que diria para as mulheres que sofrem violência, prontamente respondeu, “Contem comigo”.

Nesse momento de pandemia, em que a violência doméstica explodiu, as mulheres podem contar com a Linda. Se não com suas palavras, com a sua história.