Reconta Aí Atualiza Aí Explode o número de feminicídios na quarentena

Explode o número de feminicídios na quarentena

Durante o período de isolamento social e quarentena imposto pela pandemia, o índice de feminicídios aumentou 22,2% em 12 estados do Brasil.

Violência doméstica e feminicídios explodem na quarentena.
Foto: Alexas_Fotos

O resultado da pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública não surpreendeu quem acompanhou os índices de violência doméstica e feminicídio. Porém, não deixou de chocar.

Na China, logo no início do combate à pandemia o número de denúncias de agressão às mulheres aumentou. Assim como, na Itália, país em que as denúncias aumentaram 6,86% durante a quarentena. No mesmo sentido, números ainda piores foram auferidos na Espanha,que nos primeiros 15 dias de isolamento registou um aumento de 12,4% nas denúncias. Os dados da França, Colômbia e de diversos outros países apresentam uma tendência no aumento das agressões de mulheres e crianças a partir do momento em que os homens tiveram que ficar em casa.

Porém, no Brasil a situação mostrou-se ainda mais trágica. Enquanto os registros de lesão corporal dolosa, estupro e estupro de vulnerável e de medidas protetivas de urgência caíram no período, o número de feminicídios aumentou. Os dados do Fórum mostram que entre março e abril o número de feminicídios aumentou de 117 para 143 nos estados pesquisados.

Em síntese, “Durante a crise sanitária, muitas mulheres estão confinadas com o agressor, com dificuldade em pedir ajuda pelo celular, sem poder sair de casa e, além disso, muitas vezes em condições precárias e desempregadas“, afirma Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O que são feminicídios?

“O feminicídio é o assassinato de uma mulher motivado por questões de gênero”, afirma a Dra. Mariana Tripode, advogada especializada na defesa da mulher e Presidente da Comissão da Mulher da ABA-Brasília (Associação Brasileira de Advogados).

De acordo com a lei, é diferente do homicídio comum porque “o crime é praticado contra a mulher apenas por sua condição feminina, motivado geralmente por uma perspectiva do homicida carregada de machismo”. Tripode ainda exemplifica, “como se houvesse uma superioridade masculina perante a mulher”.

Segundo a advogada, “o feminicídio é praticado sobretudo no âmbito da violência doméstica e familiar”, mas “também por situações como estupro e outros crimes de natureza sexual que resultam na morte ou na tentativa da morte de uma mulher”.

Atualmente, a proteção das mulheres vítimas de violência doméstica é assegurada pela lei. “A principal delas é a Lei 11340/2006, a Lei Maria da Penha, que efetiva uma série de direitos e divide responsabilidades entre as esferas de governo”, explica Dra. Mariana Tripode.

A especialista ainda afirma que “Um dos principais instrumentos para proteger as mulheres é a expedição de medidas protetivas de urgência, que encaminham a mulher a programas de proteção, restituem eventuais bens subtraídos pelo agressor, e proíbem o criminoso de se aproximar da vítima e de seus familiares”. Em alguns estados do Brasil medidas protetivas podem ser solicitadas pela internet. Mas, ainda assim, casos mais graves devem ter o apoio de policiais e, em casos mais graves, até mesmo mudanças de endereço e programas de proteção.

Entre a dor da violência e o medo da morte

“As marcas deixadas pela violência doméstica são indescritíveis”, segundo o relato de uma vítima que não quis se identificar. No mesmo sentido prossegue, “É menos um dia sem apanhar, menos um dia sem ser violentada, sem ser cuspida, sem ser rechaçada, sem ser humilhada. Ainda carrego essa sombra”.

Como resultado, ela afirma que passou por um processo em que conseguiu além de se livrar da violência, se livrar da baixa auto-estima. Hoje, aconselha as vítimas de violência doméstica, emocional, sexual e financeira, “Procurem um lugar seguro, principalmente na questão emocional”. Sob o mesmo ponto de vista, ainda afirma “É preciso se reconhecer enquanto vítima, e, assim, procurar ajuda de pessoas confiáveis, psicológica e social”.