Reconta Aí Atualiza Aí Empréstimo internacional não é a melhor medida para o momento, explica economista

Empréstimo internacional não é a melhor medida para o momento, explica economista

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O governo brasileiro estuda solicitar empréstimos a organismos internacionais. Desde abril, a equipe econômica estima pedir cerca de R$ 20 bilhões (cerca de US$ 4 bilhões).

A iniciativa, na visão do Executivo, é necessária para cobrir os gastos no combate aos efeitos econômicos da pandemia, com ações como o auxílio emergencial, saques do FGTS e a compensação para quem tiver salários reduzidos.

A ideia gera receios quanto à volta do atrelamento do Brasil ao Fundo Monetário Internacional (FMI), mas, segundo o doutor em Economia pela USP Emílio Chernavsky, as propostas que têm chegado à imprensa não são “exatamente uma volta ao FMI, seria mais um crédito junto ao Banco Mundial ou ao BID nos moldes que estados e algumas prefeituras por vezes fazem”.

De qualquer forma, na visão de Chernavsky, não há “nenhuma necessidade para se adotar uma medida como essa”.

Empréstimo e moeda

O economista explica que é inegável o fato de que as receitas – principalmente através da arrecadação de tributos – caíram e as despesas aumentaram.

Entre as soluções possíveis, estão aumentar impostos, o que politicamente é improvável; cortar gastos, o que não é desejável; ou contrair dívidas. Nesta última opção, o Estado pode se endividar pegando empréstimos em dólares – internacionalmente – ou em reais, no âmbito doméstico.

“Qual a questão? A gente precisa pagar uma despesa em reais, para um benefício emergencial, que as pessoas pegam esse dinheiro e consomem basicamente produtos e serviços produzidos no País”, disse. “Acho grave do ponto de vista técnico porque a operação leva a se endividar [logo, pagando juros] em dólares, que nós não emitimos, para custear um benefício em reais, que é gasto principalmente em bens produzidos no País; ou seja, não precisaríamos desses recursos externos”, explica Chernavsky.

Além de desnecessário, um empréstimo internacional é arriscado: “Diferente do que seria se o Banco Central comprasse títulos do governo, você tem de pagar juros e pagar em uma moeda que você não emite. Para pagar, vai ter que tirar de algum lugar. Sempre que você contrai dívida em moeda estrangeira você fica sujeito às flutuações do valor dessa moeda”.

Uma opção seria a compra de títulos da dívida que seriam comprados pelo Banco Central, que emitiria moeda para pagar por eles. Tradicionalmente, a medida é vista como possível fator para inflação, mas muitos economistas apontam que a emissão extraordinária de moeda – que já tem sido adotada por diversos países – não levaria a um efeito inflacionário no contexto atual.

“O Banco Central emite reais e você faz os pagamentos que precisa fazer. Se você tem capacidade ociosa na economia, não tem problema do governo gastar porque isso não gera inflação. Faz sentido o governo gastar para trazer de volta o crescimento. Dado que há capacidade ociosa enorme, há condição de emitir moeda para cobrir os gastos”, defende ele.

O principal empecilho para a adoção de tal política, na visão de Chernavsky, é ideológico: “O governo é contrário a isso. As pessoas que estão lá são dogmáticas, de alguma forma não reconhecem a excepcionalidade do momento e se apegam a modelos que, em geral, não funcionam e, agora, menos ainda”.