Reconta Aí Atualiza Aí Opina Aí Artigo – Sob as ruas e prédios da mídia corre um rio

Artigo – Sob as ruas e prédios da mídia corre um rio

Foto: Rafael Neddermeyer/ Fotos Públicas

“– Olhe bem Vossa Mercê – disse o escudeiro –, que aquilo não são gigantes, são moinhos de vento; e o que parecem braços não são senão as velas, que tocadas do vento fazem trabalhar as mós.
– Bem se vê – respondeu Dom Quixote – que não andas corrente nisto das aventuras; são gigantes, são; e se tens medo, tira-te daí…”
(Dom Quixote de La Mancha, Cervantes)


Mais um factoide saído de um folhetim olavista dominou o noticiário da semana – a pouco provável recusa de uma vacina chinesa, o que deu continuidade ao tom bizarro da operação da PF que encontrou maços de dinheiro em cofres inusitados. Ao lado desse conteúdo nonsense, tivemos garantias de que o Renda Cidadã virá, mas não arrombará o Teto de Gastos, dogma de fé de nossa mídia. Pouca matéria surgiu para ser discutida em bares, pontos de ônibus ou filas de mercados. No entanto, enquanto o debate público é canalizado para polêmicas exóticas, manchetes policialescas e responsabilidade fiscal, um rio caudaloso corre sob este cenário.

Embora não tenham destaque na mídia, centrais sindicais ainda lutam pela prorrogação do auxílio de R$ 600. O desemprego já alcança 14 milhões de pessoas e a situação não vislumbra melhora. Vale lembrar que, apesar do auxílio emergencial, 23% dos cidadãos vivem abaixo da linha de pobreza, e esse número deverá saltar para 31% após o término do auxílio.

Mas a pobreza crescente não dói na mídia. A fome voltou à normalidade do século passado, o que talvez justifique esse silêncio: não é o estado de exceção que se instaurou após os programas sociais e o pleno emprego da era PT. O que importa neste momento é impregnar de modernidade e racionalidade a aura da política econômica deste governo. Esqueçam discussões sobre reforma administrativa e privatizações, são águas que se movem sob o concreto dos noticiários.

O anseio de privatizar vai contra argumentos que sequer surgem em debates midiáticos. Poderia se mostrar que a maior parte da população, segundo pesquisa, é contrária às privatizações, especialmente da Caixa, BB e Petrobras. Mas o interesse público jamais é mencionado. Vendas são feitas sob silêncio total, sem cobertura jornalística, como ações da Vale negociadas pelo BNDES e as subsidiárias lucrativas da Caixa. O objetivo do capital internacional, privatizar serviços públicos ao redor do mundo, não é questionado. A resistência de centrais sindicais e algumas lideranças parlamentares não irrompe em jornais.

No Fórum Sindical das Américas, evento desconsiderado pela mídia, Rita Serrano, representante do Conselho de Administração da Caixa Econômica Federal e integrante do Comitê Nacional de Defesa de Empresas Públicas, frisou: “Tudo que é público é voltado para o cidadão. O olhar privado se volta para o consumidor. Não é possível uma sociedade baseada na lógica de que o serviço público só é fornecido para quem pode pagar”. Mas esse discurso é elipsado pela naturalidade com que a privatização de empresas públicas (rentáveis e competitivas, diga-se de passagem) é veiculada.

Unir o anseio de privatização à necessidade de um programa social como o Renda Cidadã seria um sonho para o governo. E já foi resolvido pelo Manifesto Convergência Brasil. Empresários, banqueiros, executivos de multinacionais e pesquisadores sugerem que o custeio do Renda Brasil venha de 30% dos valores arrecadados pelas privatizações. O projeto foi recebido por 70 deputados. Entre as estrelas do Convergência Brasil, Luísa Trajano, com manifesto interesse na aquisição dos Correios. Aguardem para os próximos meses um massacre midiático em prol das privatizações, agora com a faca no pescoço da sociedade para angariar apoio popular: a sobrevivência mínima estará vinculada à venda das estatais. E assim será apresentada.

No País que odeia a res publica, o empresário bilionário é idolatrado. Os servidores públicos, que participaram da construção do País que já tivemos, são desprezados. O patrimônio público, indesejável. Quem representa os interesses dos trabalhadores, silenciado. As únicas oposições são as consentidas pelo capital e pela grande mídia. O inimigo ganhou contornos gigantescos, já que, graças aos formadores de opinião, surgem como belos e úteis moinhos de vento aos olhos do público.

Sem políticas públicas ou medidas governamentais que não sejam voltadas exclusivamente para as grandes corporações e o capital financeiro, teremos de aguardar programas de trainees de grandes empresas para ver quem se salva do desemprego e do desalento. E, assim, muitos de nós irão abraçando os moinhos.