Reconta Aí – Atualiza Aí Opina Aí Artigo – O fogo e a liberdade

Artigo – O fogo e a liberdade

Foto: Mayke Toscano/Secom-MT

“A obediência às leis que prescrevemos para nós é a liberdade”
(Rousseau)

O desastre das queimadas no Pantanal (e no Cerrado, na Amazônia) é a legítima expressão da liberdade decantada pelo presidente Bolsonaro ao final de seu discurso na ONU. É a liberdade do empresário, que deve viver sem o “jugo do Estado”. É o conceito de liberdade negativa, que se baseia no poder agir sem ser impedido ou obrigado. Os limites são dados por normas, leis (em seu sentido mais amplo), limites que permeiam e permitem o convívio social. O indivíduo e suas ações, e não o indivíduo como parte de um todo, da sociedade, fundamentam essa concepção – não é à toa o grito por “liberdades individuais” por quem se sente constrangido pelas regras de convívio e de deslocamento criadas pela pandemia. Importa a “minha liberdade”: as vidas alheias, se impedem minhas ações, são mais que obstáculos. São inimigos.

O contexto das queimadas é parte dessa concepção, que elegeu o Estado como um inimigo do indivíduo e de suas ações. É preciso lembrar a redução drástica do orçamento para a área ambiental, o desmantelamento de órgãos de fiscalização, a diminuição das multas, o embate com o sistema de informações sobre o desmatamento, o ataque a ONGs e entidades que trabalham com a preservação e com os povos indígenas, inclusive a própria FUNAI. Os obstáculos à exploração foram sendo diminuídos, burlados, quebrados. Hoje garimpeiros são levados por aviões da FAB para exercerem atividades em áreas de exploração ilegal.

O resultado: as queimadas no Pantanal neste ano são as maiores desde 1998, quando o INPE começou a registrar os números. Até a última sexta-feira, já eram quase 16 mil focos de incêndio, número 56% maior que 2005, ano dos piores registros de incêndio. Já foram destruídos 2,3 milhões de hectares de uma imensa área úmida que “teima” em pegar fogo.

Mais que isso. Completando o painel desse ensejo de “liberdade” que arde em nossos corações, a Polícia Federal investiga queimadas iniciadas em cinco propriedades do Mato Grosso. Uma devastação de uma área equivalente à cidade do Rio de Janeiro; 36% da área total atingida por incêndios no Pantanal mato-grossense entre julho e agosto. Duas das cinco fazendas são de pecuaristas que vendem gado para empresas da família Maggi, fornecedoras de empresas como JBS, Marfrig…

Agro é tudo, e é liberdade também. Essa liberdade individual e empreendedora é a liberdade do agronegócio, conquistada no braço e com galões de diesel e gasolina, que se choca com interesses do restante da sociedade. Mas essa é uma das características da exaltada liberdade que nos aprisiona.