Reconta Aí – Atualiza Aí Opina Aí Artigo | A realidade queimada, triturada e esmagada

Artigo | A realidade queimada, triturada e esmagada

Presidente conhece a nota de R$ 200, que tem imagem do lobo-guará, animal em extinção. Enquanto isso, o fogo arde no Pantanal.
Foto: Marcos Corrêa/PR

“Atenienses, que influência exerceram meus acusadores em vosso espírito; a mim próprio, quase me fizeram esquecer quem sou.”
(Apologia de Sócrates)

Vivemos o tempo em que o discurso político de quem mantém o poder despregou-se da realidade e alçou vôo. Tempo de fake news, de falsidades construídas estrategicamente, de negação dos fatos, de simulacros de embates que monopolizam a opinião pública, de recusa do conhecimento e onde qualquer mentira simples pode ser dita e repetida à exaustão.

Embora cuidadosamente construídos para a manipulação da audiência, envolvendo vários atores (governo, instituições, partidos e, principalmente, a mídia), muitas vezes os discursos sobre o “outro mundo” (não aquele em que vivemos) transbordam e deixam vazar detalhes bizarros, que escancaram o desprezo pelos fatos.

Uma nota de R$ 200 é lançada com a imagem de um lobo guará enquanto arde o Pantanal, um alegre mico-leão da Mata Atlântica surge comprovando que não há incêndios na Amazônia… Uma família acusada de roubo do dinheiro público e relações íntimas com assassinos milicianos alimenta sua popularidade com a pecha da honestidade. Uma quadrilha de promotores que manusearam leis ao bel prazer (em conluio com jornalistas e juízes) destruiu uma das maiores economias do mundo e um sistema democrático, mas é ainda levada ao público como o um contraponto de lisura em relação ao mundo político.

Não que a verdade não tenha sido sempre um jogo inteiramente permeado pelas relações de poder. Longe disso. Os discursos que a estabelecem fazem parte de um jogo de conquistas, fracassos e permanências. No sentido em que Foucault se utilizava da palavra “jogo”, não como uma disputa ou pantomima, mas como o aparato de regras de produção, procedimentos de construção da verdade que só são validados (ou não) em função de seus resultados. E, neste jogo, a factualidade de comunicados oficiais e manchetes são o de menos, importam mais os efeitos que as vozes das tribunas alcançam, as identificações que provocam.

Pouco importam dados oficiais do próprio governo, recolhidos por quem mantém a credibilidade do conhecimento e a experiência de trabalho reconhecida: basta negar os dados, acusá-los de serem produzidos por inimigos internos. Frases como “Quem gosta de pobre é o PT” e “Taxar os pobres é pecado”, faladas pela mesma pessoa, alcançam públicos totalmente diversos, em diferentes momentos, mas alcançam também objetivos de manutenção do poder.

Apagam-se dessa forma biografias, opiniões, atos, senso comum e percepções da realidade óbvia, imediata. Nem a temporalidade importa mais, o instante do ódio aos humildes se mescla à redenção piedosa, e a última palavra só confirma a empatia emocional que não se desenha com traços lógicos.

Mas uma avalanche discursiva jamais se firma sem uma complexa estrutura de sustentação. E para isso não basta manipular sua base de apoio, é preciso marcar os passos dos inimigos, fazendo-os trilharem caminhos previstos. Do lado do poder, instituições comprometidas com os interesses de uma elite de rapina dançam conforme a música, reagindo com falsas indignações, investigações que não se completam, processos que perdem prazos, ameaças que pairam no ar e sequer provocam temor.

Empresas que continuam a financiar os publicistas do poder e aguardam por menos obrigações sociais e melhores oportunidades de adquirir patrimônio público. E, principalmente, os conglomerados midiáticos, que estabelecem limites de participação política, definem conteúdos e suas versões permitidas, armam cotidianamente a impressão do contraditório e de disputas, controlam o andamento dos processos, confeccionam as alegorias que garantem o espetáculo dos faraós embalsamados.


Quanto aos discursos de resistência ou revolta (pois para qualquer rompimento só restam as palavras e os convencimentos das almas, já que não há possibilidades críveis de caminhos institucionais ou violência organizada), esses discursos se movem no único espaço que lhes resta (por enquanto), o mar da web e das redes sociais. Mas trabalham sob a lógica do tempo contínuo, que já foi suprimido em termos de Terra plana.

Entregam-se à existência de instituições e legalidades que há muito se tornaram simulacros de Democracia e Justiça. Não compreendem que as certezas de outrora – a validade de direitos humanos adquiridos e justificados internacionalmente, por exemplo, ou o combate à indignidade humana e à pobreza, que um dia já pareceu razoável – não existem mais.


Um pequeno exemplo: para defender a obra social de um padre, buscam caminhos legais que não passarão da burocracia e de atos simbólicos, e, ao mesmo tempo divulgam uma candidatura que prega um ódio que, hoje, possui tanta validação junto ao público quanto o humanitarismo do padre. Não explicam o que deveria ser certo e o porquê seria certo, pois não assimilaram que essas certezas se esvaíram.


Não reconstruímos nossas verdades e acabamos reforçando imagens, personalidades, peças de consumo, espaços de mercado, ideias restritas a um grupo humano ou uma área da vida. Prendemo-nos a gestos ou fatos simbólicos, atacando-os sem relacioná-los a um sistema. Temos medo de perder espaços de sobrevivência material, e nos adequamos aos limites do discurso que encontra um pedaço do mercado.

Não geramos processos de identificação interna. Não definimos com exatidão quem está no poder e, mais grave, esquecemos quem somos neste mar de vozes e imagens. Não temos mais noção do que nos define. Mas quem está no poder, tem. E nos tira o chão da realidade todos os dias.

Nesta toada, só nos resta sacrificar um galo a Asclépio e tomar calmamente a cicuta.