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As saídas para a crise econômica

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Imagem do site Recontaai.com.br

Os economistas Luiz Gonzaga Belluzzo, Guilherme Mello e Ricardo Carneiro falam sobre as saídas para a crise econômica que abate o Brasil nesse momento.

Projeta-se que a crise econômica aumente o número de desempregados, que poderá chegar à 17 milhões.

Convidados pelo Observatório da Democracia, três dos mais importantes economistas brasileiros da atualidade discutiram as saídas para a crise econômica. Luiz Gonzaga Belluzzo, Guilherme Mello e Ricardo Carneiro são professores da Unicamp, Universidade famosa por ter um dos únicos cursos de Economia cujo liberalismo não é a única corrente de pensamento.

Nesse diálogo online, coordenado pelo jornalista Osvaldo Maneschy, os três professores falaram brevemente sobre os efeitos da pandemia de Covid-19 no Brasil. Porém, ampliaram o foco da economia de agora, buscando orientar as melhores saídas para esse momento agudo pelo qual o Brasil passa.

Ricardo Carneiro: “O que o governo fez é claramente insuficiente”

Ricardo Carneiro acredita que “nós, no Brasil, vamos pagar um preço bem mais alto do que seria necessário pagar”. E ele explica o motivo por trás da sua informação enfática: o Governo tomou um conjunto de ações na direção correta, porém, com baixíssima intensidade.

De acordo com ele, é preciso colocar o Estado para recompor o fluxo de renda – quebrado pelas medidas sanitárias tomadas na pandemia – com o fechamento de tudo o que não é essencial no País.

Isso deveria ser feito seguindo as medidas já tomadas para os auxílios a estados e minicípios, aos trabalhadores informais, aos trabalhadores formais e aos bancos.

É preciso preparar saídas para a crise econômica

Carneiro afirma que é necessário um projeto de longo alcance. Por exemplo, com a criação de programas de construção civil e infraestrutura pelo Governo. Já há previsão de que o Estado retome algumas obras, contudo, com o baixíssimo valor de R$ 6 bilhões em três anos que, segundo Ricardo Carneiro, é “ridículo”. Uma saída apontada pelo economista é a reativação do programa Minha Casa Minha Vida da Faixa 1.

Segundo o economista, a renda média de um trabalhador informal é de R$ 1.400 e que a recomposição ao máximo desse valor é o desejável por, pelo menos, quatro meses. No mesmo sentido, é necessário recompor o máximo possível da renda do trabalhador formal que sofreu redução de jornada e trabalho e que perdeu, em média, 15% da renda.

Assim como os trabalhadores, estados e municípios também precisam de uma forma melhor de ajuda do Governo Federal. As perdas de arrecadação foram muito intensas e a forma de repor essa perda deve se aproximar o máximo possível da arrecadação dos meses anteriores. Já para o sistema financeiro, a solução foi bem encaminhada e suficiente até agora.

Sobre o projeto do ministro da Economia, Paulo Guedes, Carneiro é assertivo quando diz que não adianta fazer leilões e privatizações daqui há dois anos. É preciso retomar projetos parados e criar mecanismos do Estado que façam a economia caminhar novamente.

Guilherme Mello: “Neste momento, não faz sentido manter tabus”

Guilherme Mello afirma que o Brasil demorou muito para reagir à crise: “havia um descolamento absoluto da realidade”. Porém, esse descolamento não era só a respeito da “gripezinha” que poderia ser debelada com um histórico de atleta. Antes da pandemia, já havia uma propaganda do Governo dizendo que a economia estava decolando mas, olhando os indicadores, isso não se verificava. Mello aponta que o País caminhava para um crescimento medíocre do PIB, na casa de um ou no máximo 2%.

“A crise chega com o Brasil despreparado”. Assim Mello define a forma com a qual o governo lidou com os primeiros feitos da pandemia. Segundo ele, o Governo sequer conhecia os fundamentos de uma economia monetária. “Esse governo é baseado na fé; no caso da economia, fé num liberalismo rastaquera, que não dialoga nem com os liberais da atualidade”.

O governo só agiu porque houve pressão

Guilherme Mello ressaltou um aspecto pouco falado dos debates econômicos. O governo só reagiu com a pressão da sociedade e do Congresso Nacional. Ele relembrou que a proposta do governo era um auxílio de R$ 200 aos informais, algo que não paga uma cesta básica.


Entretanto, na opinião do economista, a categoria mais desassistida durante a pandemia são os pequenos e microempresários. Não há nenhum incentivo direcionado a eles, além da dificuldade de conseguir crédito em bancos privados – e também públicos – para manterem seus negócios.

Por isso, Mello aponta que “nesse momento, não faz sentido manter tabus”. É preciso ousar para que, com as pressões da sociedade, haja a montagem de um orçamento de guerra. Que assim como aconteceu para esse ano, se estenda por mais um. A retomada do projeto liberal, que estava fracassando nos últimos cinco anos, não pode ocorrer enquanto as pessoas estão sem renda.

Para que isso se dê, é fundamental a coordenação do Estado. Guilherme Mello aponta que há dois grandes desafios na atualidade: estender os auxílios e impedir que haja a retomada do projeto da austeridade. E ambos desafios se inserem em dois possíveis cenários.

O primeiro deles é o caminho do ministro Guedes, que na saída da crise combina austeridade fiscal, reformas de redução do Estado, diminuição de pagamento de funcionários públicos e venda de patrimônio e reservas cambiais.

O segundo é a coordenação dos estados, retomada do investimento público na infraestrutura, logística e construção civil, uma reforma tributária que estabilize o déficit e que promova a distribuição de renda com manutenção dos juros baixos.

Nas palavras de Guilherme Mello, precisamos impedir que “insanidade tome conta do País”.

Luiz Gonzaga Belluzzo: “Eles são analfabetos macroeconômicos”

Segundo Belluzzo, “temos um desgoverno em um momento em que o Estado está precisando de uma ação de coordenação de economia”. O economista afirma que os gestores da economia estão infectados por um vírus que afeta a compreensão do que está acontecendo.

Para ele, a economia de Paulo Guedes, ao invés de explicar o que está acontecendo, obscurece e complica o olhar de quem precisa analisar o que ocorre. Sua percepção é a de que o choque econômico proveniente da pandemia foi tão grande, que muitos liberais aceitaram que é preciso fazer algo diferente.

Ele também explica que essa choque gerou uma ruptura. Agora, a propriedade deixou de ser um fator de legitimação da apropriação da riqueza e renda. Débito e crédito são as formas pelas quais o dinheiro entra na economia; porém, com os setores não essenciais parados, o dinheiro não circula.

Belluzzo afirma que é necessária uma ação para impedir que haja um colapso. E que a demora do Governo em intervir foi e está sendo mito grande. O que mostra que esse Governo não sabe operar os instrumentos dos quais o Estado dispõe. A utilização dos Bancos Públicos está aquém do que deveria.

Seguindo a mesma linha que Guilherme de Mello, Belluzzo afirma que é preciso uma ação coordenada do Estado para o planejamento dos próximos passos para lidar com a crise. “Não há solução autorregulatória”, afirma. Bem como aponta a necessidade de usar as instituições monetárias e fiscais.

Belluzzo não economiza críticas ao Governo quando afirma as ações frente à crise: “eles são analfabetos macroeconômicos”. E reafirma sua ideia ao falar da equipe econômica do Governo Bolsonaro: “o Brasil está entregue nesse momento a um Governo inepto”. Como ele mesmo termina, “[são] palavras difíceis que precisam ser ditas”.