Reconta Aí Atualiza Aí Opina Aí Artigo | Uma conta simples e um desafio gigantesco

Artigo | Uma conta simples e um desafio gigantesco

Por Sérgio Mendonça – Economista e diretor do Reconta Aí

O auxílio emergencial (AE) transferiu cerca de R$ 275 bilhões em nove meses (abril a dezembro de 2020) para aproximadamente 68 milhões de pessoas. Em média, R$ 31 bilhões por mês.

Pela estimativa da PNAD/IBGE, a massa de rendimento habitual das pessoas ocupadas – no trimestre julho/agosto/setembro de 2020 – foi de R$ 205,3 bilhões (podemos simplificar e dizer que foi a massa do mês de setembro/2020). No trimestre julho/agosto/setembro de 2019, a massa de rendimentos foi estimada em R$ 216 bilhões. Uma queda de 10,7 bilhões em um ano, ou 4,9%.

Segundo algumas projeções, é possível que a massa de rendimento efetiva seja menor do que a massa de rendimento habitual em função da crise econômica de 2020. Por exemplo, o rendimento habitual esperado de um trabalhador por conta própria, que trabalha junto ao público, pode não se efetivar num mês de isolamento social pela diminuição de pessoas circulando nas ruas.

Tomando a massa de rendimento habitual de setembro/2020 como referência para todos os meses do ano, pode-se afirmar que o AE acrescentou R$ 20,3 bilhões de reais por mês a mais (com o perdão da redundância!) no montante total da massa de rendimento (R$ 31 bi – R$ 10,7 bi) em relação ao trimestre julho/agosto/setembro de 2019, período onde a pandemia não existia.

Admitindo que nenhuma transferência do AE esteja incorporada à massa de rendimento habitual da PNAD (uma vez que não é um rendimento habitual), a conta direta e simples que poderia ser feita é a seguinte:

Para manter a massa mensal de rendimento habitual (R$ 205,3 bi) + o auxílio emergencial (R$ 31 bi), será necessário que o mercado de trabalho gere uma massa de rendimentos de R$ 236,3 bi quando for extinto o AE, para que a massa de rendimentos total (ocupados + AE) não caia no início de 2021.

Fazendo outra conta simples: para gerar uma massa mensal de rendimento de R$ 236,3 bilhões, com um rendimento médio de R$ 2.554,00 (setembro/2020), seria necessário que 92,52 milhões de pessoas estivessem ocupadas no mês de referência. No trimestre jul/ago/set de 2020 estavam ocupadas, segundo a estimativa da PNAD, 82,5 milhões de pessoas, cerca de 10 milhões de pessoas a menos que o necessário para manter a massa de rendimento total (ocupados + AE). A título de comparação, em relação ao mesmo trimestre do ano passado (jul/ago/set/2019), estavam ocupadas 11,3 milhões de pessoas a menos (93,8 milhões – 82,5 milhões).

Considerando que o total de perda de ocupação na pandemia se deu em ocupações com rendimentos abaixo da média (70% das ocupações perdidas eram do setor informal), na tabela que segue são apresentadas algumas estimativas de necessidade de geração de novas ocupações em função do rendimento médio habitual das pessoas que perderam suas ocupações entre 2019 e 2020, e da necessidade de manutenção da massa de rendimento total + AE:

Tabela 1 – Necessidade de geração de ocupações para manter a massa de rendimento – Setembro/2020

Rendimento Médio (em % do rendimento médio de set/2020 – R$ 2.554,00)Quantidade de ocupações necessárias para manter a massa de rendimentos + AE – R$ 236,3 bilhões
50% – R$ 1.277,0024,3 milhões
60% – R$ 1.532,0020,2 milhões
70% – R$ 1.788,0017,3 milhões
80% – R$ 2.043,0015,2 milhões
90% – R$ 2.299,0013,5 milhões
100% R$ 2.554,0010 milhões

A massa de rendimento habitual de setembro de 2020 foi estimada em R$ 205,3 bilhões. O AE, como dito acima, foi estimado em R$ 31 bilhões/mês (abril a dezembro de 2020).

Desafios

Admitindo que as pessoas que perderam suas ocupações – ou saíram do mercado de trabalho em função da crise sanitária e econômica – tivessem rendimento médio abaixo ou igual ao rendimento médio habitual de setembro de 2020 (R$ 2.554,00), seria necessário gerar entre 10 milhões e 24,3 milhões de novas ocupações para manter a massa de rendimento habitual equivalente à atual (set/2020) + o pagamento do auxílio emergencial.

Não se ignora que há muita imprecisão nessas estimativas. Foram utilizadas as informações disponíveis da PNAD/IBGE até setembro de 2020*. Alguns críticos dirão que é uma conta de padaria (muitas vezes menosprezando a precisão das contas de padaria!).

Mas esse cálculo, ainda que impreciso, nos dá uma dimensão do tamanho do desafio que teremos à frente, em 2021 e nos próximos anos, no mercado de trabalho e na economia brasileira. Para manter a massa de rendimento e enfrentar o desafio do desemprego e da precarização do trabalho.

Como o consumo das famílias representa aproximadamente 65% do Produto Interno Bruto – PIB (geração anual de renda de um país), a manutenção da massa total de rendimento será vital para que a economia sustente a demanda agregada nos próximos meses/anos. E sem um programa de transferência de renda como o AE em 2021, a geração de empregos e ocupações será decisiva para a retomada da atividade econômica e do consumo.

Tarefa para Hércules, ou para um governo que coloque a geração de empregos e de ocupações (incluindo ações emergenciais), além de programas sociais como o AE, como prioridade máxima de sua política econômica e social. Algo difícil de esperar deste governo que aí está.

Dados utilizados:

Período de referênciaJul/Ago/Set 2019Jul/Ago/Set 2020
Massa de Rendimento habitual (em R$ bilhões)216,0R$ 205,3
Rendimento Médio Habitual (em R$)R$ 2359,00R$ 2554,00
Número de Ocupados (em milhões)93,882,5
Auxílio EmergencialNão existiaR$ 31 bilhões/mês (média)
Fonte: PNAD/IBGE e Ministério da Cidadania

* O texto finalizado não leva em conta a já divulgada PNAD, com informações do trimestre ago/set/out/2020. Como se trata de um exercício numérico, as estimativas com as informações do trimestre jul/ago/set/2020 não são, na essência, modificadas pelos dados recém divulgados do trimestre ago/set/out/2020.

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