Reconta Aí Atualiza Aí Artigo – Onde estão os coveiros?

Artigo – Onde estão os coveiros?

Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

“O capitalismo é um pecado capital. O socialismo pode ser uma virtude cardeal: somos irmãos e irmãs, a terra é para todos e, como repetia Jesus de Nazaré, não se pode servir a dois senhores, e o outro senhor é precisamente o capital. Quando o capital é neoliberal, de lucro onímodo, de mercado total, de exclusão de imensas maiorias, então o pecado capital é abertamente mortal”.
(D. Pedro Casaldáliga)

Não há problema, crise ou maldades no Brasil atual que não tenham, pairando sobre si, uma nuvem de ideias onde prevalecem a iniciativa privada e o mercado como panaceias. Privatizações, lucros do mercado financeiro, desmonte do Estado e o horror a políticas sociais compõem o discurso de governo e de seus apoiadores no Congresso e na mídia. Boa parte da sociedade, em todos os seus estratos, já assimilou esse ideário. Afinal, absorve os detalhes gerais desse discurso a cada vez que escuta o rádio, quando lê os principais veículos da mídia, assim que liga a televisão (aberta ou fechada), assiste ao seu youtuber favorito, ao culto ou ao programa de entretenimento familiar.

Os livros de Ayn Rand já foram indicados ao sistema público de ensino mineiro; diversos movimentos conservadores (ou até autointitulados libertários) cumprem o papel de espalhar essas ideias pela escola pública. Profissionais liberais, mesmo quando dependem do aparato estatal para a garantia de suas funções e rendas (caso claro de advogados e médicos, mas também de parte de funcionários públicos de carreira), defendem a iniciativa privada e seus valores mesmo quando esse libelo parece irracional.

O discurso que exalta as privatizações é o mesmo que ataca o Estado, a política em geral (“políticos são menos eficientes e mais dispendiosos que empresários”), afirma que o funcionalismo público é algo a ser extirpado, saúde e educação são áreas dispendiosas que devem ficar nas mãos da iniciativa privada, impostos e direitos trabalhistas são empecilhos…

Nesta semana que se passou, vale lembrar os Correios. Alvo das próximas privatizações, teve seus trabalhadores golpeados com a retirada de direitos. Com isso a empresa – altamente lucrativa e que, ao mesmo tempo, cumpre inúmeros papéis sociais sem visar o lucro – barateou seu custo para a futura transação. Na Caixa, ao menos, o processo de IPO da Seguridade foi suspenso, mas a MP 995 ainda assombra. Na destruição do CONAMA – sim, o CONAMA foi destroçado, embora o caso não seja assim apresentado pelos noticiários – o ataque direto a restingas e manguezais prejudicam quem vive da pesca e do extrativismo, mas favorece construtoras, criadores de camarão, especuladores…

Qualquer proposta de uso sustentável e preservação parece que pode ser abatida a tiros e incêndios. O termo “ecossistema” sequer é pronunciado, pode ofender interesses empreendedores e privados. Lembram do mantra “desregulamentar”, do período FHC? Nem precisou voltar à moda, o mesmo espírito privatista rege cada ato deste governo e toda a sua repercussão na mídia.

Enfim, adentramos o reino da Liberdade. A liberdade do Capital, livre para investir e produzir, embora todos saibamos que ele só sabe acumular. Não há outra saída a não ser recuperar valores do trabalho e do trabalhador nesta equação social. E lembrar com esperança de outro adágio de Marx, “o capitalismo cria o seu próprio coveiro”.

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