Reconta Aí Atualiza Aí Opina Aí Artigo – O Brasil não, mas algo se quebrou

Artigo – O Brasil não, mas algo se quebrou

(…) Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

(Drummond)

Como já nos habituamos, a fala é o fato. Cozida para fervilhar as notícias, dar sabor às manchetes, alimentar as análises na mídia, abarrotar o bucho da opinião pública.

“O Brasil quebrou, eu não posso fazer nada”.

Embora os principais formadores de opinião saibam que o País não quebrou, a balela foi levada ao pé da letra para o debate. Como frisou Nelson Barbosa, um País quebra quando não consegue pagar compromissos em moeda externa (como as crises cambiais do governo FHC que nos levaram ao FMI) ou quando não pode mais rolar sua dívida interna e se vê às portas da hiperinflação. Não vivemos nenhuma dessas situações. Maria Lucia Fatorelli, coordenadora nacional da Auditoria Cidadã da Dívida, apressou-se em somar os caixas da conta única do Tesouro, das reservas internacionais e das sobras de caixa dos bancos que rendem juros (somente aos bancos) no Banco Central, e chegou a quase 5 trilhões.

Os números começaram a salpicar, no afã de mostrar que a afirmação não era verdadeira. No entanto, como as fontes dos números serão sempre incompreensíveis para as massas, a imagem do País quebrado será bem difundida nas ruas. Ainda mais quando ninguém quis estancar a celeuma para analisar a parte mais importante: “eu não posso fazer nada”.

Um charuto jamais é só um charuto. Não é possível que a mídia, as instituições e quase toda a classe política reajam moralmente a frases de efeito, discutindo literalmente questões de comportamento e caráter, disseminando motes deste governo. Aliás, é possível, sim. Basta imaginar a hipótese de todos estarem desempenhando papéis complementares – temos um governo e uma oposição palatáveis ao mercado, à elite financeira, ao complexo jurídico-midiático que redesenhou o panorama político brasileiro. Até a oposição de verdade, aquela proibida de irromper na mídia, desavisadamente pode cumprir seu papel, apoiando, por exemplo, para a presidência da Câmara, um candidato que mantenha a chancela de oposição, mas seja talvez o verdadeiro candidato de Bolsonaro e Guedes.

Assim como “não sou coveiro” não foi um desrespeito aos familiares dos milhares de mortos, mas sim um prenúncio de como seria enfrentada a pandemia, a falsa quebra não foi “sandice” ou “demonstração de incompetência”, como a maioria dos analistas nos faz crer. Um exemplo de análise lúcida: Marcia Kumer, 34 anos de Caixa e ex-diretora da instituição, traduz claramente a fala do presidente: “Ele está dizendo que precisa de dinheiro, que precisa vender. É a síntese do que eles pretendem fazer. Uma grande farsa para liquidar com as estatais. Como o País pode estar quebrado, quando o Banco Central informa reservas cambiais acima de U$ 350 bilhões? Existe uma ação articulada do sistema financeiro internacional para acabar com os instrumentos de desenvolvimento de um País, e também com os fundos, para que o País fique dependente das regras, condições, taxas do mercado financeiro internacional. A Caixa é uma das instituições que permitem a construção da soberania nacional”.

A quebradeira é a justificativa para novos cortes e impostos e, principalmente, para as privatizações em curso. E, não, “eu não posso fazer nada” está longe de ser um apelo a um golpe. Inclusive porque não há a menor necessidade. Quando o Congresso não colabora ou exige altos pedágios, o Judiciário entra em cena: veta as privatizações das matrizes, mas permite o fatiamento de diversas estatais sem autorização legislativa. O “eu não posso fazer nada” desloca qualquer futura culpa sobre a insatisfação com a crise para outros atores. Tanto a máquina quanto a crise parecem funcionar por si mesmas, sem interferência do Executivo.

Se antes reclamávamos da ausência de vozes dissonantes na prestação de serviços de informação e comunicação, no discurso único que moldava a formação da opinião pública, no recorte da realidade que dominava os debates políticos, a situação agora é mais dramática. A própria oposição a insiste no debate moral e ético sobre este governo. A palavra de ordem sai da boca do próprio mandatário, é criticada pela mídia, pelo Congresso, pelo Judiciário e pelas vozes de esquerda com a mesma ladainha de sempre: a imoralidade da mentira, o falseamento da realidade, a postura tosca e primária do mandatário. São argumentos que os donos da reação, historicamente, sabem manusear com muito mais habilidade. Sem falar que boa parte da população já demonstrou sua identificação com a postura simplória, desagradável e mentirosa do presidente.

Enquanto isso, os objetivos deste governo – o desmantelamento do aparato estatal, o apagamento (até na memória) do Estado social, a dedicação exclusiva ao agronegócio e ao sistema financeiro, o fim da ideia de soberania – andam de vento em popa. A naturalidade dada pela mídia a conceitos como “teto de gastos”, “responsabilidade fiscal” e “equilíbrio das contas públicas” torna possível todo e qualquer corte de gastos sociais, mesmo no enfrentamento à pandemia. Mas jamais resvalará nos lucros dos bancos, algo tão natural quanto sagrado. E insistimos em denunciar mentiras e imoralidades ao invés de martelar no desemprego, no preço do gás, na fome que cresce, na comida mais cara…

Enquanto isso, mesmo para quem não se ilude com a mistificação da realidade, a vida parece estagnada. Mantemo-nos como espectadores desse cenário de caos aparente e destruição efetiva, sem desvendar como enfrentar o massacre de um país, de uma sociedade, de uma cultura, de qualquer futuro. A ordem parece ser aceitar os estreitos caminhos que nos são dados e seguir vivendo. Até a morte, realidade cada vez mais presente. E que não deve ser tão distinta do sopro atual que nos anima.

O Brasil não quebrou. O brasileiro, sim.

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