Reconta Aí Atualiza Aí Artigo | O Amapá é o nosso futuro

Artigo | O Amapá é o nosso futuro

“Privatizar significa deixar o Estado no escuro”
(Jadilson Santa Bárbara de Oliveira, Sindicato dos Urbanitários do Amapá)

Não que esse governo tivesse condições de planejamento, ou quisesse aplicar suas teorias econômicas (para lá de conhecidas e fracassadas em outras “colônias”, como o Chile) em um local determinado do País, criando uma ilha de experimentos. Já se viu que planejamento e competência executiva não são o forte desta gestão. Mas o Amapá acabou por virar o laboratório da distopia criada por Guedes e abalizada pelo mercado e pela mídia nacional. Em breve, seremos todos Amapá.

Seremos todos Amapá. Desde o dia 3 de novembro, ao menos 80% da população do Estado vive sem energia. O termo apagão dá uma ideia de escuridão, mas boa parte dos dias são lindos: o sol a pino escancara o desespero dos cidadãos que encaram a ausência de trabalho, de renda e a pouca comida que resta estragando. Os dias os queimam vivos. Mas lamentam pelos que perderam o ar condicionado.

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Todo o Brasil será o Amapá. O laboratório de Guedes nos mostra como será a substituição de um monopólio público pelo ideal privado. A concepção de serviço público esvaneceu-se. O contribuinte pagou por uma infraestrutura que foi concedida à iniciativa privada. O Estado mantinha a função de controle e fiscalização. Mas desde 2016 a ANEEL não aparece para vistoriar o trabalho da empresa privada e a estrutura local. Compreendemos, o Amapá deve ser inóspito e desconhecido para a ANEEL. Mas eles souberam que em 2018 os geradores reservas queimaram, deixando o funcionamento do parque energético no limite. Alguns apontariam uma ausência de competência na direção, na manutenção e até uma certa falta de investimento… Mas isso é impossível. É uma empresa privada e estrangeira, não lhe coloquem a pecha das estatais botocudas.

(Aqui, uma pequena pausa. A mídia nos mostra o Amapá como a Oceania: uma terra misteriosa e inalcançável. Em respeito a ela, não falamos até aqui o nome da empresa. Mas temos que destacar que funcionários de carreira, com a experiência de anos no fornecimento de energia local, escreveram para o Senado dez dias após o apagão. Eles são do Coletivo Nacional Eletricitário, um nome anacrônico nos dias de hoje. Escreveram uma carta pública a Davi Alcolumbre, destacando a atuação da Eletrobras/Eletronorte no restabelecimento do fornecimento de luz no Amapá e a urgência de se combater a privatização da estatal. Disseram que autoridades “deveriam rever seus procedimentos e parar de ‘blindar’ a empresa privada espanhola Isolux Ingenieira S/A, responsável pelo apagão em Macapá”. Isso não saiu na grande mídia, talvez pela indelicadeza de citar o nome da empresa, ou ainda pela moderna irrelevância de funcionários públicos e organizações sindicais. Compreendemos o esquecimento.)


Eu, você, todos nós viveremos o Amapá. A situação é de racionamento. Termogeradores de emergência dão conta de 20% do abastecimento (dedicada aos melhores bairros, o que é suficiente para que o mundo gire e a lusitana rode). A oscilação de energia causou alguns incêndios, casas queimadas e transformadores espocando fogos de São João. As noites se iluminaram com quilômetros de fiação entrando em curto e provocando belas linhas de fogo suspensas. Postos de saúde e hospitais perderam medicamentos, capacidade de internação e de meros atendimentos, as mortes por Covid aumentaram em 500% e outros números não são possíveis de serem resgatados. Também não importam, já que todos estão unidos para enfrentar essa situação e não merecem informações que lhes tolham os ânimos. Mas não há como os corpos esfriarem. Não há refresco nem na morte.

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Todos conheceremos na pele o Amapá. A imprensa nos mostrou que, apesar da situação, podemos confiar nos rumos dos nossos dirigentes. O relicário da mídia ressuscitou uma economista e advogada de antigas transações privatistas se apressando em culpar o setor público e seus funcionários obsoletos pelo apagão. Também exibiu o presidente da Eletrobras, logo no dia 12, afirmar que o incidente não irá interromper o processo de privatização, que deverá ser retomado no início de 2021. “Não há nenhum tema maior no governo do que a privatização”, disse ele. O que são serviços essenciais perto das taxas de lucro que geram empregos, distribuem a riqueza e fazem o Brasil crescer? Se Guedes e a sumidade com nome de um antigo carro de luxo ainda não conseguiram te explicar que é assim, assista aos telejornais. Informe-se.

Nossos desafios são os do Amapá. Só o Amapá nos abrirá os olhos. Não bastará brecar as privatizações, será necessário revertê-las. E não só no setor energético. Se quisermos contar com serviços essenciais, com serviços públicos, com o aparato estatal em momentos de emergência, com alguma concepção de cidadania e com um Estado social, precisaremos encarar a tragédia privatista. Diversos países têm reestatizado seus serviços públicos. É inimaginável, hoje, devido a experiências anteriores, algum país sério entregar seu setor energético à iniciativa privada. Empresas privadas, além de seus interesses privados, não informam o público sobre como gerem seus serviços, não são obrigadas a planejar e investir a longo prazo, como esse setor e outros exigem.

Somos todos Amapá. Abandonemos as informações da grande mídia. Landau, originalmente, era uma carroça com melhorias (quatro rodas e dois bancos de passageiros), e não um carro de luxo. A comitiva do presidente fez festa de dia, antes do desastre noturno. A tragédia é muito maior que a veiculada nos telejornais, são vidas reais que estão se esvaindo. O ideal privatista não é “moderno” e nem a solução unívoca para os nossos problemas. Cidadãos não são consumidores. O Estado não é o Mercado. Privatizações podem ser revertidas. A cidadania e a dignidade do Amapá serão as nossas. Ou nos mexemos para resgatá-las, ou o apagão será geral.

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