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Artigo: Miséria Espacial

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foguete, miséria

Foto: NASA Wallops/Allison Stancil

Por Antonio Gracias Vieira Filho

Das coisas difíceis que um professor das Ciências Humanas enfrenta ao trabalhar com cursos de gestão, poucas se comparam ao desafio de conferir dignidade ao "empreendedorismo". Em nossos dias, empreender é o verbo utilizado para traduzir a precarização das relações de trabalho. Não se trata de criar novos produtos e processos, suprir necessidades e carências, fundar uma organização relevante; trata-se, antes, de vender força de trabalho a um aplicativo. Da forma mais mal remunerada possível e, preferencialmente, repetindo a ladainha sobre como é difícil empreender no Brasil – Uber que o diga.

Retornando a um passado não tão distante, podemos encontrar certos "heróis" de uma época mais "romântica" dos empreendimentos capitalistas. Claramente, as aspas se justificam porque é difícil perceber nobreza em figuras que ficaram conhecidas como barões ladrões. Andrew Carnegie (1835-1919), Jay Gould (1836-1892), J.P. Morgan (1837-1913) e John D. Rockefeller (1839-1937), ícones do capitalismo estadunidense*, não se furtaram a tratar mal seus empregados e explorar cada brecha regulatória de seu tempo. Na verdade, quando não estavam esmagando greves, buscavam formas de corromper as regras de concorrência - pasmem, a corrupção não foi inventada no Brasil.

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Dito isso, esses dois períodos históricos, com seus respectivos usos do verbo empreender, merecem comparação. No primeiro caso, a ideia é convencer trabalhadores a abrir mão de garantias e benefícios para que se atirem a uma miragem de autonomia financeira. A proposta é trocar a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) pela possibilidade de vender água no semáforo, transportar passageiros ou entregar comida. No segundo, por mais execráveis que esses personagens tenham sido, havia, de fato, uma ideia de criação. Carnegie foi um magnata da siderurgia; Rockefeller atuou na exploração de petróleo; Gould e Morgan tiveram múltiplos papeis no setor bancário e no mercado de capitais. Essas pessoas criaram algo e havia nelas um certo senso de propósito típico dos capitães da indústria: crescer, desenvolver, criar, vender, disputar mercado etc.

Poderíamos usar numerosos outros exemplos. Aliás, como falar de capitalismo, propósito e indústria sem citar o protagonista do principal paradigma produtivo do século XX, Henry Ford (1863-1947), aquele que emprestou seu nome ao fordismo? Difícil imaginar algum tipo de modernidade econômica sem pensar em linhas de montagem.

Então chegamos ao ano de 2021 e suas misérias. Neste colapso ético em que vivemos, com a radical depredação da biosfera e uma existência valorada pelas possibilidades de consumo, estamos a produzir magnatas lastimáveis. A meta é juntar quantidades ridículas de dinheiro para realização de sonhos de consumo que sejam, a um só tempo, egoístas e vazios de sentido. Vejam, os barões ladrões, os capitães da indústria e os ícones do fordismo, por piores que fossem enquanto representantes da humanidade, ofereciam uma narrativa ética para seu esforço. Por Deus, pela América ou pelo progresso, empreendiam por alguma coisa. Pelo que se empreende, em nossos dias?

A impressão que se tem é que Jeff Bezos (Amazon) e Elon Musk (Tesla, SpaceX) procuram superar algum tipo de problema de autoestima. Em linha com o pior do patriarcado falocêntrico, precisam do maior iate, maior foguete, maior fortuna... Richard Branson (Virgin), por sua vez, parece fazer um tipo mais tradicional de ricaço, o excêntrico com penteado esquisito.

Esses três não estão neste texto por acaso. Branson, com a Virgin Galactic, Bezos, com a Blue Origin, e Musk, com a SpaceX, são os protagonistas de uma nova fase da exploração espacial. Eles inauguraram a corrida pelo turismo sideral. Branson foi ao espaço no dia 11 de julho de 2021, Bezos foi lançado em 20 de julho e Musk ainda não tem uma data definida, via SpaceX – mas ele já comprou uma passagem da Virgin Galactic. Neste ponto, o egocentrismo desses três senhores começa a se tornar um problema relevante.

 A ausência da narrativa ética e uma ideia de acúmulo pelo acúmulo são, por si, perniciosas. Mas agora a motivação ultraegoísta literalmente rompeu os limites terrestres. Com um universo a desbravar e um planeta prestes a se deteriorar para além de qualquer conserto, turistas espaciais se tornaram os novos pioneiros. Diante do comportamento infantil de Bezos – as ações da Amazon subiram de valor após sua abdicação como gestor da empresa – e da necessidade de autoafirmação de Musk – ele mandou um Tesla Roadster ao espaço –, Branson parece até um adulto. Contudo, caricaturas à parte, vale repetir: a exploração do cosmo está sob a liderança de magnatas sem qualquer clareza sobre o legado que pretendem deixar à humanidade.

A primeira e mais aguda fase da corrida espacial, entre 1957 e 1971, foi embalada pela Guerra Fria e marcada por conquistas tecnológicas em série:

  • 1957: primeiro satélite, Sputik 1 (União Soviética);
  • 1957: primeiro animal no espaço, cadela Laika (União Soviética);
  • 1961: primeiro homem no espaço, Yuri Gagarin (União Soviética);
  • 1963: primeira mulher no espaço, Valentina Tereshkova (União Soviética);
  • 1965: primeira caminhada espacial, com Alexsei Leonov (União Soviética);
  • 1965: primeiro sobrevoo de Marte, com a sonda Mariner 4 (EUA);
  • 1969: primeira pessoa a caminhar sobre a Lua (EUA);
  • 1971: primeira estação espacial, Sulyut 1 (União Soviética);
  • 1971: primeiro passeio com um veículo em outro corpo celeste, o Lunar Roving Vehicle (EUA).

Essas realizações são triunfos notáveis de engenharia. Mas não só isso: também representam a mobilização de duas gigantescas entidades políticas, dois modos de produção e, por consequência, de boa parte do planeta. Ainda que a bandeira estadunidense reclame a Lua, os discursos soviéticos e a fala de Neil Armstrong falavam dos grandes saltos da humanidade. Essa disputa entre visões de mundo, de resultados terríveis – vide Vietnã, ditaduras da América Latina, descolonização da África e Ásia etc. –, também produziu feitos notáveis de movimentação econômica e política para conquista do além-Terra. O componente ético, portanto, estava presente.

Não se trata de defender uma orientação específica das economias industriais do século XX. O programa espacial soviético era completamente estatal. A versão estadunidense, de forma diversa, tinha uma articulação bastante efetiva entre poder público e iniciativa privada. A NASA (National Aeronautics and Space Administration, a agência espacial dos EUA) coordenava missões, objetivos e projetos. A criação e produção dos equipamentos e material técnico eram de responsabilidade de empresas contratadas. Alguns exemplos notáveis: Boeing, Convair, Douglas Aircraft Company, Grumman, McDonnell Aircraft e North American Rockwell. Assim, o desenvolvimento de tecnologia aeroespacial de ponta nos EUA, desde a metade do século XX, deriva de maciço investimento estatal.

Novamente, não se trata de reviver a disputa entre o socialismo soviético e o capitalismo ianque. O debate que se propõe tem outro contorno filosófico. A atual ojeriza a qualquer projeto coletivo e colaborativo, o radical individualismo e a expansão do capital transnacional, somados ao paroxismo, criaram essa aberração existencial: nosso sistema solar, com seus planetas e satélites, está a se converter no parquinho particular de potentados vaidosos. Não estamos mais construindo foguetes para demonstrar a superioridade de um modelo político e econômico, tampouco pelo progresso da humanidade. Aqueles empresários, os mesmos que criaram grandes empresas para acumular somas grotescas de dinheiro, agora produzem foguetes para si mesmos. Vale dizer, inclusive, que há uma inversão grave: antes, a NASA coordenava o esforço privado estadunidense; agora, fortunas pessoais mobilizam agências espaciais estatais pelo avanço do turismo de endinheirados.

Para além dos desequilíbrios sociais evidentes, ocasionados pela extrema concentração de renda, temos um novo tipo de desigualdade. Ou talvez nem tão novo, posto que explorado à exaustão pelas produções de ficção científica. Bezos, Branson e Musk, bem como aqueles que podem comprar poltronas em suas astronaves, provavelmente são os bisavôs daqueles que poderão deixar a Terra, quando finalmente terminarmos de destruí-la.

Enquanto isso, você pode continuar reclamando da carga tributária elevada para os bilionários. Coitados.

Antonio Gracias Vieira Filho é sociólogo e professor no nível superior; atualmente é editor do Portal Sociologia da Gestão.

[*] Andrew Carnegie era escocês, mas fez fortuna atuando nos Estados Unidos.