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Artigo: A Lava Jato acabou?

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O cadáver que plantaste ano passado em teu jardim
Já começou a brotar? Dará flores este ano?
(T.S.Eliot)

Foto: Fotos Públicas/FUP


O grupo de trabalho da Força Tarefa da Lava Jato do Paraná foi dissolvido no início deste mês. Foram sete anos de trabalho que carregaram a marca midiática de combate à corrupção. Mesmo que hoje essa máscara tenha caído para muitos, é forçoso lembrar que foram anos de atuação conjunta com a mídia, com apoio incondicional do Judiciário e de amplo espectro político – até mesmo partidos considerados de centro-esquerda ou de esquerda elogiavam publicamente o sagrado discurso de limpeza moral.

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O saldo econômico da Lava Jato jamais foi exposto na grande mídia. Na indústria da construção, sob o discurso messiânico de “combate à corrupção”, a operação estancou a atividade de grandes empresas e reduziu a cadeia produtiva do ramo a uma anedota perto do que era antes. Só entre 2015 e 2018, as sete maiores construtoras do país perderam 85% de sua receita, viram sumir mais de R$ 60 bilhões de faturamento. Mais graves são as estatísticas de desemprego. Mais de um milhão de postos de trabalho no país evaporaram. As obras de infraestrutura, grande marca dos governos petistas, principalmente da gestão de Dilma Roussef, com o PAC, estancaram. Desemprego elevado e obras essenciais paradas pelo País. Desmobilização de empresas que se utilizam de tecnologia de ponta e tinham atuação global. Empresas internacionais aos poucos comprando os restos e esperando ocupar esse espaço sem o mínimo esforço. As estocadas no setor, calcula-se, provocaram 40% dos números do desemprego atual.

O segmento de petróleo e gás – a Petrobras foi a grande joia da Coroa a entrar em leilão – que era um dos poucos setores competitivos internacionalmente, foi desestruturado. Juntamente com a derrocada da incipiente indústria naval e do setor de engenharia, contribuíram com o desmonte dos avanços de infraestrutura e a desnacionalização de nossas atividades produtivas mais rentáveis. Eram setores fundamentais a um projeto de Nação. Setores industriais inteiros que foram destruídos ao lado de investimentos estruturais que levavam o País a outro patamar.

Politicamente, a grande contribuição da Força Tarefa foi a criminalização da política. Embora o alvo fosse o Partido dos Trabalhadores, o discurso dominante usou uma velha dicotomia, Estado “corrupto” x Mercado eficiente. Isso acabou por gerar descrédito generalizado, ultrapassando a economia e atingindo também as instituições democráticas, faces do Estado, que se encontram acuadas por forças militares desde a farsa do impeachment e a ascensão do protofascismo bolsonarista. A participação ativa do Judiciário e do Congresso no golpe de Estado falsearam e esvaziaram o processo eleitoral, além de desnudarem as instituições como armas de manipulação da elite e, principalmente, do mercado.

Juridicamente, vários limites foram rompidos ou simplesmente desprezados. A Constituição de 88 tornou-se alvo de ataques parlamentares. A ética dos procedimentos entre promotores e juízes foi, na Lava Jato, como é de farto conhecimento entre alfabetizados, algo mais próximo do crime organizado do que de um País com ordenamento jurídico.

Embora a corrupção seja um fenômeno universal; embora o combate à corrupção contemple apenas uma parcela do manuseio das receitas administrativas; embora jamais tenham definido o que é corrupção enquanto a condenam; embora ela seja uma prática que remonte a tempos coloniais; embora todas as ferramentas e políticas de combate à corrupção foram praticamente inauguradas pelos governos petistas; os sinos que a anunciam foram e são tão somente dobres pela vida política. Morta. Política e corrupção estão umbilicalmente ligadas no imaginário do brasileiro médio.

O moralismo e as aparências religiosas do combate à corrupção ainda fazem parte do discurso da mídia. A própria associação entre Dallagnol e igrejas neopentecostais durante o processo da Lava Jato serviu a esse propósito, e o resultado é a prevalência do obscurantismo evangélico sobre a cultura e a ciência, o que nos conduz rapidamente à barbárie.

Enquanto o Estado e a política continuam sendo atacados, a mídia e a elite nacionais seguem a apoiando a causa da privatização, coadunadas com os interesses de grandes corporações e potências externas, sustentando o fanatismo liberal que vem garantindo o desmantelamento do Estado, a perda de direitos dos trabalhadores, a ausência de investimentos públicos na economia, e o balcão de negócios que vai fatiando Petrobras, Caixa, Banco do Brasil… A Lava Jato serviu não apenas ao golpe, à ascensão da extrema direita, ao desemprego, à retração da arrecadação fiscal, à asfixia do crescimento econômico: a Força Tarefa foi fundamental para que no Brasil só sobrasse o agronegócio, e que hoje caminhemos a passos largos para nos tornar uma grande Hacienda, a caricatura de uma República de Bananas.

O Brasil de hoje, de Guedes e Bolsonaro, foi arquitetado pela Lava Jato. Portanto, ela não morreu. Ela também não morreu porque o PT vive e Lula está aí, requerendo seus direitos. Então ela deve continuar, mesmo que sob outro nome e falsas humilhações públicas, vazamentos a conta-gotas de falas e atos sórdidos velhamente sabidos, que jamais alcançarão o grande público.

A Lava Jato não morreu. Vivemos na Lava Jato. O Brasil, sim, este é um cadáver insepulto.