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Apagão no Amapá: um relato de quem vive a tragédia

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Imagem do site Recontaai.com.br

Abandonados pelo poder público, sem informações, sem água e sem comida, a população está tentando sobreviver ao apagão no Amapá.

“Não sabemos até quando teremos água para beber”, é assim que o historiador Willian Barros, morador de Macapá, fala sobre seu maior receio durante o apagão. Com a bateria do celular quase acabando, em meio a um calor de 28ºC e uma umidade relativa do ar de 84%, Willian conversou com o Reconta Aí por volta das 19h da sexta-feira, 6 de novembro.

De acordo com ele, o que a população do Amapá está vivendo não difere em nada de uma tragédia como as que se vê na TV. “Há filas imensas por todos os lados, para comprar água, comida e para fazer saque em um dos poucos caixas eletrônicos que funcionam”, desabafa o historiador.

Morador da periferia da capital do Amapá, no bairro Igarapé da Fortaleza, Willian conta que já perdeu a noção do tempo. “As horas passam devagar”, disse. “A energia foi embora na terça-feira (3) por volta das 8h30 da noite durante uma tempestade”, relata. Desde então, os habitantes de treze, das dezesseis cidades que o estado possui, estão às escuras.

Estratégias de sobrevivência

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“Temos um armazenamento de água, que a gente recebe da CAESA. São duas caixas d’água; porém, a menor já esvaziou”, afirmou Willian. Nesse sentido, explica que a caixa d’água maior é na verdade uma cisterna e que ele e a família têm carregado essa água com baldes para tomar banho e manter a higiene deles e da casa. Isso ocorre porque a água distribuída pela CAESA não é própria para consumo humano. Ou seja, não é potável.

“O mais difícil é o acesso à água. Porque por mais que a gente vá atrás, não tem mais água mineral disponível”, diz Willian. “Estamos buscando água pra beber”, afirma o morador de um estado que possui 36% da bacia do Rio Amazonas, o maior do mundo tanto em extensão, quanto em volume de água.

Estratégias de resiliência

“Meu estado é um estado muito quente. Quente e abafado”, conta Willian. As temperaturas do Amapá variam entre 20º e 36ºC, e o clima úmido faz a sensação ser ainda mais intensa. Para ele e sua família, Willian só tem contado com a água da cisterna, já que não conseguiu comprar gelo por causa das longas filas.

O apagão no Amapá fez com que a população tenha que conviver mais perto da ameaça dos pernilongos. Carapanãs é como os amapaenses chamam os pernilongos da família Culicidae. Além de atormentarem a população, eles ainda podem ser vetores de doenças.

Além disso, o historiador conta que está sendo impossível dormir dentro das casas por causa da temperatura. “Estamos dormindo na varanda, mas a dificuldade é o carapanã [mosquito], que são muitos já que estamos no meio da floresta Amazônica”.

Além de tudo, o apagão no Amapá ainda trouxe prejuízos financeiros

O Igarapé da Fortaleza possui um porto por onde escoa a produção de ribeirinhos para outros lugares. Açaí e pescado são os principais produtos da área. Foto: SEMA - AP O Igarapé da Fortaleza possui um porto por onde escoa a produção de ribeirinhos para outros lugares. Açaí e pescado são os principais produtos da área.
Foto: SEMA – AP

Em meio à inflação de  3,92% acumulada nos últimos 12 meses, a população dos municípios atingidos pelo apagão no Amapá perdeu seus alimentos. A comida na geladeira apodreceu. E aqueles que sabem a técnica, salgaram as carnes para conservá-las.

Para além disso, os que têm dinheiro no banco e conseguiram retirá-lo em espécie, estão lidando com a escassez de produtos nos mercados. Willian e sua família investiram principalmente em enlatados: “Que podem ser conservados por mais tempo”, segundo ele.

Nenhuma solução; somente o mesmo papo de privatização

“Já tínhamos sinais de que nosso sistema de distribuição era muito precarizado”, afirmou o historiador. No bairro onde mora, o Igarapé da Fortaleza, Willian relata que há quedas de energia constantemente. Contudo, conta que elas duravam no máximo uma hora. Entretanto, o bairro períférico que abriga a família de Willian não é o único que passava por isso.

Ao contrário. Ele afirma que a população protestou contra os apagões frequentes diversas vezes. E que também se mobilizou para exigir soluções. Entretanto, o poder público jamais respondeu às manifestações adequadamente.

“Nunca houve um debate mais sincero e consequente sobre o problema da energia elétrica no estado”, disse. “Sempre se falou sobre a criação de novas represas para hidrelétricas e sobre o Linhão de Tucuruí. Mas na prática, nem o linhão resolveu o problema”, completa. O que mostrou o limite do descaso foi o incêndio ocasionado por um raio.

Não chegam notícias sobre uma resolução do apagão do Amapá

Willian terminou a entrevista afirmando que a situação está se agravando. Já não há mais velas para vender, a água mineral está cada vez mais escassa e o medo da violência cresce. Somado a isso, afirmou que o distanciamento social para o combate à pandemia de Covid-19 acabou.

As notícias oficiais não chegam à população. Nenhuma solução para isso foi implementada pela distribuidora e nem pelas prefeituras ou pelo estado. Quando conseguem acesso aos pouquíssimos pontos que possuem geradores, recarregam os celulares e tentam, pelo WhatsApp saber se o inferno terá fim.