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Algo se perdeu no caminho

bancadas

Se não eu por mim, quem?
E se for, que serei?
E se não agora, quando?
(Hillel)

Em paralelo ao desmantelamento do Estado, das garantias sociais e das políticas públicas, uma revolução ética e moral vem seguindo seu curso, sob a argumentação mais primitiva do liberalismo e dos direitos naturais do homem – vida, liberdade, propriedade. Como se regressássemos ao século de Locke, como se a busca do homem pré-sociedade tivesse se acabado, e cada preocupação com a igualdade fosse um pesadelo passageiro, sfumato noturno, sonho pueril. Algo se perdeu, algo se quebrou e nem percebemos.

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Um homem entra sem máscara em uma loja de shopping, em Vitória (ES). Alertado sobre a máscara, diz que não a usa. Após breve discussão, saca sua arma, aponta na cabeça da vendedora, obriga-o a atender, compra o que quer, paga e sai da loja sorrindo. Outro homem, com algum cargo público e dinheiro, pôde constituir famílias com mães que pouco tinham além de crianças a serem espancadas, e dar vazão aos seus desejos de usá-las como brinquedo: ele valia o que tinha, seus desejos individuais eram possíveis. Se uma das crianças não morresse, não causaria espécie. Era sua vida privada.

O mundo que vemos transformou a utopia liberal em realidade. O Estado nasceu para instituir a lei e salvaguardar liberdades e propriedades individuais. Quaisquer extensões de ação reguladora é despotismo e cerceamento. A sociedade moderna ampliou a desenvoltura dos seres humanos (essa pequena parcela das vidas, definidas pelo nascimento ou pelo crime). Os objetivos do indivíduo finalmente se libertaram da sociedade, da Igreja, do Estado. Não há ideia de plenitude, crescimento humano e dignidade que não exclua o pertencimento coletivo e não inclua a busca febril da singularidade. Livramo-nos dos uivos e arbítrios da tribo.

Um empresário de grande fortuna familiar, enquanto luta contra as vacinas e lucra com remédios sabidamente ineficazes durante uma pandemia que matou meio milhão de pessoas, organiza um lobby para que as mesmas vacinas sejam compradas e distribuídas pelo setor privado. Ao esbarrar numa réstia de moral anacrônica, mas ainda vigente, gasta o que pode para que ele e sua família sejam vacinados nos EUA. Finalmente na América, recusa-se a voltar para prestar contas de seus atos na Justiça brasileira. Se há ameaças do Estado não ser mais seu, é melhor fincar-se na terra dos livres. Um grupo de médicos enxerga a oportunidade de lucro com o mesmo discurso do empresário, usando suas posições influentes para enriquecer com tratamentos reconhecidamente ineficientes. A esperteza (mérito e molecagem) é garantida pela autonomia das ações de sua categoria profissional. A liberdade garante a sobrevivência dos fortes.

A segunda frase da máxima rabínica de Hillel, que encabeça este texto, dá conta da limitação milenar do indivíduo. Se for por mim, no que me transformarei? A certeza de pertencimento, dada por sistemas complexos de convivência social com bases sagradas ou seculares, transformava o excesso individual em vergonha pública. O trabalho de autopreservação e autoaprimoramento era a própria noção da vida, destacar-se do rebanho exigia justificativas refinadas e respeito a limites para não cair no suicídio moral. Afinal, o outro é o igual, a obrigação com ele é a mesma que tenho para comigo. A ausência de dignidade básica do próximo causava tanto o anseio por igualdade de condições materiais como comoções de fundo piedoso. A infantilidade criminosa da pergunta de Caim, “acaso serei eu pastor do meu irmão?”, conhecida ou não, era o limite que assentava o arcabouço moral de qualquer sociedade. O “eu por mim” era, embora necessário, algo a ser represado, liberado em pequenos filetes d’água, tamanha a feiura que o rio escuro encerrava. O não afogamento do próximo, a não destruição da cidade, davam diques à civilização. Até outro dia.

Um presidente de um país sem importância chama um pronunciamento em rede nacional para se gabar de que garantiu em seu país as liberdades de mercado, a liberdade de ir e vir e a liberdade religiosa. No país real, grassa a fome, o desemprego, a dor e a miséria. Meio milhão de mortos asfixiados. Não há amparo social, não há direitos públicos além dos anunciados, mas há a liberdade. Empresários não encontram obstáculos ou taxações às suas ações, o contágio pelo ar não limitará o trabalho dos escravos, a liberdade religiosa permite cultos e futebol. Não será a morte que afastará nosso caminho natural para a emancipação.

Em meio aos corpos que se amontoam nas calçadas das grandes cidades, resignados a serem pisados, um padre circula com seus voluntários, distribuindo alimento, amparo e roupas. Uma atitude quase maldita para a maturidade que alcançamos. Durante a semana, escuto críticas conservadoras. Afinal, o ato de dar prolonga vidas inúteis para o mercado e incômodas para a parcela das gentes que gozam das liberdades individuais. Mas também ouvi críticas de origem progressista, que destacaram que o trabalho de auxílio é meramente filantrópico, não se reproduz como sistema perene. Em outras palavras, a turba de pessoas sem acesso aos bens mais básicos não importa mais. A situação e a contestação da situação exclui quem já perdeu. Estender a mão tornou-se o gesto mais anacrônico possível dentro dos novos parâmetros.

Se há insatisfação com a maturidade que alcançamos – insisto neste termo porque ele vem sendo repetido à exaustão tanto pelo ministro da Economia quanto pelos analistas políticos da mídia –, se sobrou alguma revolta contra o sistema que nos rege, se ainda há vontade de luta para empreender mudanças, ela só pode se basear no que foi excluído, proibido, criminalizado. Na antítese da moral do mercado. Na rejeição das liberdades apregoadas. O único objeto de desejo material é a dignidade básica: emprego, comida, casa, acesso à educação e saúde, acesso às benesses da trajetória humana que não podem ser plenas de sentido se não forem universais. E qualquer preceito moral decorrente desse ensejo deve abarcar o coletivo. Se há algo que perdemos, na existência e no discurso, foi o pertencimento, a identificação com o grupo mais básico.

Se a busca incessante pela autonomia individual, pela singularidade e pelas liberdades individuais mantiverem-se presentes em discursos e ações que ensejam a mudança, não andaremos um milímetro. Se o individualismo, a competitividade, o mercado e a liberdade “natural” continuarem prevalecendo no horizonte do imaginário social, não moveremos uma palha. Se há algo que se quebrou, que perdemos, foi o sonho de igualdade. As liberdades podem ser enfiadas pelas tripas de quem as possui, crianças mimadas que alcançaram o pleno poder. Devemos, sim, pastorear nossos irmãos e cuidar de cada risco ou ferida que os ameacem. Somos responsáveis por isso.

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