Reconta Aí Opina Aí Abertura de capital da Caixa Seguridade: mais um atentado contra o patrimônio público

Abertura de capital da Caixa Seguridade: mais um atentado contra o patrimônio público

Por: Sérgio Mendonça

A direção da Caixa Econômica Federal vem tentando abrir o capital (IPO) de sua área de Seguros, a Caixa Seguridade, desde 2015. Pretende realizar uma operação semelhante à abertura de capital da área de seguros do Banco do Brasil, que ficou conhecida como BB Seguridade, abertura realizada em 2013.

A resistência da sociedade no Congresso Nacional, das entidades sindicais, da FENAE e dos empregados da Caixa impediu, até o momento, que essa operação se concretizasse. De início, pode-se afirmar sem medo de errar: essa operação enfraquecerá o Banco Público.

Listemos alguns argumentos:

  1. O Brasil e o mundo vêm passando por uma de suas piores crises econômicas. Na atual conjuntura vale recordar um dos nossos grandes compositores e poetas, Paulinho da Viola: “durante o nevoeiro, leva o barco devagar”. Por que a pressa em fazer esse negócio em momento tão desfavorável?

  2. Na atual conjuntura econômica brasileira, marcada por profunda incerteza em relação ao futuro, definir o valor de uma oferta inicial de ações (IPO) é tarefa muito difícil e arriscada. A “precificação” do valor de uma companhia depende de um conjunto de fatores como participação atual e previsão futura de participação no mercado (“market share”). Depende do que se espera a respeito do crescimento do mercado de seguros. Depende das expectativas sobre o desempenho da economia brasileira, do emprego e da renda dos brasileiros que comprarão esses produtos no futuro, ou seja, os diversos tipos de seguros. Depende do “apetite” dos investidores nacionais e internacionais nessa conjuntura. Sobre esse último ponto reportagem recente do jornal Valor Econômico mostrou que os investidores estão exigindo descontos das empresas que querem abrir o capital.

  3. A recente “febre” de abertura de capital das empresas sediadas no Brasil tem muito a ver com a queda da taxa de juros básica (Selic) na economia brasileira. Com expectativa de menor rendimento no mercado de títulos públicos, os investidores buscam novos investimentos para valorizar seu capital e assegurar maior rentabilidade. E o mercado de capitais (IPO’s) vem suprindo essa demanda dos investidores nacionais e internacionais.

  4. Por que a Caixa, nessa nova investida para abrir o capital da Caixa Seguridade, recuou da oferta de 25% do capital da nova companhia para 15%, segundo informações públicas? Inicialmente a nova companhia estava avaliada em R$ 60 bilhões. Agora está avaliada em R$ 36 bilhões! Considerando a crise econômica brasileira e mundial, essa queda não surpreende. Será uma confissão pública sobre os riscos do negócio? Se o preço da ação que o mercado resolver pagar estiver bem abaixo do valor esperado dessa companhia em um futuro mais favorável, ao vender “apenas” 15%, o risco de perda será menor. E o Tribunal de Contas da União (TCU) poderá questionar a operação no futuro próximo, penalizando os gestores que tomaram essa iniciativa.

  5. A taxa de juros básica (Selic) voltou a subir recentemente. Passou de 2% para 2,75% na última reunião do Conselho de Política Monetária (Copom) do Banco Central, no dia 17 de março de 2021. Tudo indica, pela própria sinalização do Copom, que seguirá subindo até 5 ou 6% até o final de 2021. Diante dessa perspectiva, muitos investidores tendem a migrar para essas aplicações “mais seguras” em títulos públicos de curto prazo e alta liquidez, adiando decisões mais arriscadas como IPO’s. Nesse contexto há o risco que os investidores, para essa operação da Caixa Seguridade, exigirão menor preço na abertura de capital. Em outras palavras, o mercado poderá derrubar o valor da Companhia que se pretende criar, a Caixa Seguridade.

Embora esses argumentos sejam importantes, há outros de maior importância. Desde sua posse, e dando continuidade às ações do governo Temer, o atual governo vem implementando uma estratégia de enfraquecer o Estado Brasileiro. Em outras palavras, vender a maior parte das empresas públicas e estatais, patrimônio público construído ao longo de séculos. Sim, algumas empresas públicas são centenárias como a Caixa, o Banco do Brasil, os Correios e a Casa da Moeda!

A abertura do capital da Caixa Seguridade faz parte dessa estratégia do Governo Federal., em consórcio com os interesses do tal mercado. Retirar essa área de Seguros da Caixa nesse momento, além de enfraquecê-la como Banco Público estratégico para a retomada do desenvolvimento brasileiro, subtrai importante fonte de geração de resultado para o conglomerado Caixa. A conselheira de administração eleita pelos empregados da Caixa, Rita Serrano, esclareceu esse assunto em recente artigo.

Resumindo: essa operação, nesse momento da conjuntura brasileira e mundial, é totalmente descabida! Não há racionalidade econômica. Só interesses não revelados podem justificá-la. Trata-se de mais um atentado contra o patrimônio público e os interesses da sociedade brasileira

*Economista e diretor do Reconta Aí

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