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A Tropa de Choque Governista – as bancadas da decadência nacional

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Imagem do site Recontaai.com.br

Desde a redemocratização, acostumamo-nos a um certo padrão de discursos, certas nuances de retórica no Congresso Nacional, especialmente no Senado. O espectro político pouco importava – os recursos discursivos eram visíveis e marcavam presença como um sinal de vaidade, de confirmação de uma formação ou vivência “superiores”, exibindo vocabulário, domínio do idioma formal e estratégias de retórica na defesa de ideias políticas, no convencimento de seus pares e até para a opinião pública. No caso dos representantes políticos mais conservadores, muitos ainda lembram de José Sarney ou Antônio Carlos Magalhães nas tribunas, para ficar em dois exemplos.

Desde o início da CPI da Covid, o público vêm tendo acesso às personalidades do Senado, aos comportamentos de governo e oposição. E muitas pessoas demonstram espanto ao ouvir alguns membros da chamada tropa de choque governista. As análises mais correntes dão conta do baixíssimo nível de conhecimento e da falta de pejo em usar informações falseadas ou deslavadamente mentirosas, sempre com a finalidade de preservar a imagem do presidente. Maneirismos e barroquismos, principais defeitos dos discursos de outros períodos, foram desbancados por um pragmatismo da mentira: adota-se qualquer informação falsa para chegar mais rápido a uma refutação de acusações.

Saber quem são esses heróis bolsonaristas talvez ajude a entender o porquê desta ser considerada a pior Legislatura de todos os tempos. Enxergar qual o apelo eleitoral foi bem sucedido na última eleição é uma forma de vislumbrar os demônios que ascenderam ao lado da aberração que mantemos na presidência. Seguem alguns dos nomes que não se importam de pasmar o mundo com o que há de mais obscuro neste País.

Começamos com o senador cearense Luís Eduardo Girão, que em 2018 concorreu pela primeira vez a um cargo público. Foi presidente do Fortaleza, um clube de massa, mas não só o futebol lhe deu prestígio. Aproveitou a sanha punitivista da Lava Jato para lançar-se como defensor da moralidade e dos costumes no seu Estado. Possui uma produtora de audiovisuais que elabora filmes e peças pela “liberdade da vida” (contra o aborto). Só diverge de Bolsonaro na questão do armamento da população (afinal, seus negócios incluem uma empresa de segurança).

Elegeu-se vociferando contra a descriminalização da maconha, contra o aborto e a educação sexual nas escolas. Na CPI, sem frases de efeito, acentua uma voz de minoria naquele espaço, vítima da mídia e da esquerda, sem a menor vergonha de exibir pesquisas falsas sobre medicamentos ou de apontar o número bruto de vacinações no país, somente para dizer que há exageros e perseguição nas investigações sobre o governo federal.

Não se incomoda em ser corrigido ou até desprezado, prefere a repetição da ladainha sobre anticorrupção (“não querem investigar os governadores!”) e pode ser desmentido à vontade por números e fatos: seu papel de mostrar o presidente como vítima não sofre interrupções. É o representante de todo o arcabouço moral que ascendeu com o capitão: a regeneração dos costumes é a parte que deve estar mais visível neste governo. E o trabalho midiático que difunde sua moral puritana completa o perfil.

O mais experiente da tropa é o septuagenário gaúcho Luiz Carlos Heinze, cinco vezes deputado federal e agora senador. Representante clássico da chamada Bancada do Boi, é um defensor ferrenho do presidente e do agronegócio no Congresso. Um rápido perfil é o suficiente para torná-lo uma assombração medieval no mundo contemporâneo.

Dono de terras, fortuna e vindo de família tradicional de sua região, ficou conhecido por ser contrário a qualquer divulgação de origem transgênica nos rótulos de produtos alimentícios. Depois, por relacionar "quilombolas, índios, gays e lésbicas" a “tudo que não presta”. Participou de arrecadações para armar produtores rurais e prega o derramamento de sangue em confrontos com o MST.

Foi eleito o “racista do ano” em 2014 por organizações internacionais. Agora é caricaturizado como o “Tio da cloroquina” na CPI e por tratar o microbiologista Didier Raoult com uma intimidade e uma admiração que nem o francês imaginaria. Atua como porta-voz de teorias da conspiração e gosta de ressaltar a “total ausência de corrupção neste governo”.

Curiosamente, foi indiciado pela Lava Jato e acusado pelo doleiro Youssef de receber propina. Possui um palavrório limitado e de difícil concatenação de ideias, o que o faz repetir as mesmas frases a cada sessão da CPI. Pouco lhe importa qualquer vergonha pública, apenas os interesses dos seus. É um caso que une as Bancadas do Boi e da Bala.

Por fim, o rondoniense Marcos Rogério, o mais destacado lugar-tenente de Bolsonaro na CPI. Jornalista que atuou por anos na afiliada da Rede Globo de seu Estado e também radialista de sucesso. Saiu do PDT para o DEM aproveitando a onda reacionária. Foi do grupo de Eduardo Cunha no golpe contra Dilma, mas depois foi o relator em seu processo de cassação.

Apoiou todas as reformas de Temer, mas votou a favor de abertura de processo de investigação contra o ex-presidente. Alterou traços de seu rosto e do perfil político em toda a carreira. Manteve o comportamento individualista e predatório bem próprio do perfil do baixo clero, que agora ganhou protagonismo, cargos e ministérios.

É proprietário de terras em área de conflitos em Rondônia, onde estão os Uru-Eu-Wau-Wau. O roubo de madeira das terras indígenas (praticado com violência e assassinatos) é a principal atividade econômica ali. Loteamentos clandestinos se multiplicaram este ano. Em 2020, o Senador apresentou uma proposta de lei que permite que os donos de terras usem armas em toda sua propriedade sem passar pelas exigências legais para a obtenção do porte. Vale lembrar que a lei especifica que isso não valerá para os indígenas, pois não são oficialmente proprietários da terra.

Se diz evangélico e atua em prol dos preceitos morais conservadores. Age na CPI com mais habilidade que os companheiros, procurando questões de ordem e regimento para atrasar os trabalhos, intervindo sempre que pode com voz de locutor para acusar e ofender colegas não governistas. Tem se mostrado menos ativo na última semana e, pela voracidade política de seu histórico, não seria surpresa se abandonasse o barco para uma nova rearmonização política. Um caso que une Boi, Bala, Bíblia e Mídia.

A vaga conservadora carregou todos os seus vícios, preconceitos e interesses econômicos para o Congresso. O baixo nível intelectual e a ausência de postura pública demonstram o caráter do próprio governo. Sempre houve manobras de pensamento e retórica para defender interesses políticos partidários na Câmara e no Senado.

Mas jamais fatos e números falsos foram expostos com tanta desfaçatez. Nunca os preconceitos, mesmo os mais criminosos, foram exibidos como virtudes com tamanha tranquilidade. E a violência contra os excluídos sociais emergiu como um alto valor público neste período. Enquanto a política econômica Guedes garante o receituário neoliberal, o Congresso se tornou quintal dos interesses mesquinhos dos grupos que vão se locupletando enquanto podem.

Fica claro que não basta derrubar Bolsonaro, mas também os valores vigentes (Boi, Bala, Bíblia, Mídia). Sem deixar de lado o fato de que, por muito tempo, sentiremos enorme vergonha dos anos em que estamos vivendo.