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A Pedagogia da Exclusão

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Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
(…)
Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuuu

(Solano Trindade)

As “pessoas de esquerda”, termo tomado em toda a sua amplitude – e vamos chamar de “progressistas”, abrir o leque e ser generosos – desenvolvem seu pensamento e seu trabalho a partir de parâmetros políticos inclusivos, transformadores e libertadores, seja qual for a via teórica assimilada em suas formações, sejam elas mais ou menos complexas. O ativismo progressista tende a tomar o excluído como alguém que deve ser transformado em um sujeito histórico em busca de autonomia, dignidade, liberdade e desenvolvimento pleno. Seja esse sujeito identificado por classe ou grupo, ele emerge historicamente a partir de possibilidades imaginadas como parte de sua essência. De “ser para o outro”, o excluído deve transformar-se em um “ser para si”.

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No entanto, como já lembrou Paulo Freire, para ficar em um exemplo – pois é uma das maiores influências na formação de muitos ativistas, embora isso jamais se reverteu em transformação estrutural da sociedade, como querem os conservadores – o marginalizado nunca está à margem, “fora de”, mas sim “dentro de”. Ele faz parte da estrutura. Dessa forma, a transformação não pode ser apenas do indivíduo, mas de toda a estrutura que o esmaga. Porque ele é parte integrante do sistema. E, sim, estamos falando do capitalismo. Onde a sociedade que exclui é a mesma que inclui, embora gerando formas desumanas de integração.

Vejam que até aqui se falou, inclusive pelo motivo de ampliar generosamente o leque, em “excluídos”. Evitamos falar em em classes definidas a partir de suas posições no processo de produção. Talvez para arrastar leitores até aqui, já que você pode estar (e é normal que esteja) imbuído da noção que o dualismo empresários/trabalhadores é simplista e esteja ultrapassado. Você pode estar convicto de que o conceito de classes não dá mais conta de explicar a complexidade da realidade. Você pode até ter adotado a ideia de identidade, que responde mais aos seus anseios do que outras identificações coletivas. Para este último caso, muito em voga, evitamos até palavras como proletariado ou sindicato, a fim de não gerar urticárias ou erguer espelhos indesejáveis aos que anseiam se integrar de alguma forma ao sistema. Embora, não deixaremos de expor, o conceito de “excluído” é visto em geral como uma anomalia, que pode ser vencida por meio da capacitação do indivíduo. Isso gera outros problemas. Mas vamos continuar assim. Excluídos.

Caso seja este o seu caso, reticente leitor, há algo que dificilmente pode ser negado. São raras as pessoas que escapam de um simples dilema: vender a sua força de trabalho ou comprar a força de trabalho de alguém. Mesmo que se intitule profissional liberal ou prestador de serviços, um consultor ou um produtor independente, mesmo não fazendo parte da vulgaridade da massa, você se encontra nessa situação várias vezes em seu cotidiano, ainda que saltite de um lado a outro do muro. Mas não estamos te implorando identidade com a classe trabalhadora, longe disso. Não abandone o texto.

Há outro fato inegável. Aqui, na periferia do mundo, há os que compram e os que vendem, e uma enorme massa à espera de algo, desqualificada para maiores funções, pronta para trabalhar por alguns dias ou tarefas, por parcas refeições ou um teto, rezando (literalmente) por um amparo maior. O que torna o nosso sistema mais perfeito e arredondado do que o do Primeiro Mundo, ainda cheio de tradições legais e exigências coletivas. Não temos esses entraves.

Neste momento, o pensamento progressista (é melhor utilizar essa palavra do que “esquerda”, ainda quero sua presença por aqui) se encontra dividido. Há os que inexplicavelmente insistem em priorizar pratos vazios, noites ao relento, exploração do trabalho, dignidades assaltadas desde o nascimento até o último suspiro. Continuam a pensar a sociedade em termos de classe, em localizar cidadãos em função de seus lugares no processo de produção, em relacionar o Estado a garantias sociais, em exigir o fim da desigualdade, em tentar reconstruir a vida e a coisa pública.

Por outro lado, dentro desse mesmo espectro progressista, há uma predominância (fortemente apoiada por formadores de opinião pública) de colocar identidades acima de qualquer discurso de classe. Grupos sociais inteiros, majoritários ou não (alguns insistem em ser chamados de minoria), ao buscar seu autorresgate histórico, desprezam o discurso de classe e, às vezes, até rejeitam a política para alcançar seus objetivos – midiaticamente visíveis. Autoestima, visibilidade e representatividade de grupo são, assim, mais caros à transformação social do que o combate à desigualdade econômica e à exploração dos trabalhadores. O prato de comida se enche com caridade privada, ações individuais substituem políticas públicas, a parceria com empresas produz resultados mais visíveis, a aceitação social (bem duvidosa) é a prova da transformação desejada. E essa é a única militância “política” (mesmo que não queira essa pecha) aceita pelo establishment.

É verdade que a classe operária ou o proletariado (desculpem essas palavras) não ocupa mais o centro de análises sobre as lutas sociais. Mas também é verdade que o abismo social só se aprofundou desde que a nova prática progressista se instalou. A militância identitária busca a integração ao sistema. Não cabem todos, mas é um negócio que gera dividendos. E acaba se integrando não só ao sistema, mas aos objetivos conservadores.

Sim, pois depois de uma década de resistência e inclusão real, estamos voltando ao Éden do Consenso de Washington. O futuro da América Latina depende de disciplina fiscal, austeridade de gastos, liberalização do comércio, privatizações de estatais, ausência de restrições de importação e prevalência, assegurada juridicamente (e pela força), do direito de propriedade. E hoje estamos mais próximos do paraíso, já que cogitamos mercantilizar todo o aparato estatal e os serviços públicos. O discurso conservador e patronal ganhou apoio do progressismo midiático, aceito e difundido à exaustão por um terceiro setor financiado, pelos formadores de opinião pública e por boa parte da classe política. A estrutura não é questionada, a justiça social se define pelo reconhecimento das identidades outrora apagadas, o mérito é a qualidade necessária para a ascensão social.

Foram anos de massacre. Frases feitas e vazias hoje brotam como obrigatórias em qualquer discurso político que possa ser veiculado. Esse discurso se aproxima a passos largos do formato publicitário. As mesmas frases são ouvidas em um discurso de um senador do PT, ou do prefeito de São Paulo, de uma megaempresária, de um jurista de destaque, um rapper ou uma propaganda de cosméticos.

Não é surpresa assistir populações excluídas, em democracias controladas pelos meios de comunicação, escolherem candidatos que significam, muitas vezes, sua morte. Um capitão fascista aqui, um banqueiro da Opus Dei no Equador… O último compromisso de campanha do novo presidente equatoriano, significativamente, foi um encontro com uma organização LGBT. Ele assegurou que seu projeto político (basicamente privatista, entreguista e rentista) não entrará em choque com as garantias de direitos civis desse grupo. E, provavelmente, não mentiu.

O discurso único saiu da mídia para a vida real, ou a realidade foi apagada. O trabalho da esquerda (agora estamos no fim do texto, me permito) envolverá suor e reflexão, retomadas e renúncias. Sair do abismo cavado meticulosamente não só por golpes de Estado, homens de farda ou de toga, elites rentistas e interesses externos. Mas também por uma superestrutura de comunicação, entretenimento e formação contínua do senso comum. A “nova esquerda” já provou que convive bem com o mercado e a miséria. Mas a fome, a exploração, a ausência de perspectivas e a desigualdade não geram crescimento pessoal ou coletivo. Na verdade, produzem apequenamento, conformismo, ignorância e alienação de si e de suas capacidades. Por enquanto, a pedagogia da exclusão venceu.