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A Memória Partida

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Imagem do site Recontaai.com.br

Palhaços, marcianos, canibais, lírios, pirados
Dançando dormindo de olhos abertos à sombra
Da alegoria dos faraós embalsamados

(Aldir Blanc)

Neste final de semana o New York Times, em sua capa dominical, estampou o desastre na saúde brasileira. Ressaltou que há poucos anos o sistema de saúde era um modelo para os países em desenvolvimento, e agora…

Esse problema de memória parece ser o que move todo um País. Não há número, índice ou área da sociedade e da economia que resista a uma simples comparação entre antes e depois do golpe. Parte da oposição, basicamente o PT, expõe comparativos de dados que podem ser perceptíveis nas ruas e no cotidiano, mas enfrenta a resistência de uma opinião pública massacrada pela omissão das realidades comparadas. O exercício simples de memória realizado pelo NYT parece um pecado mortal para a mídia nacional. Lembranças individuais e coletivas são proibidas de ganharem voz. Qualquer nostalgia de um serviço público ou de um churrasco familiar só pode ser rememorada sem o contexto político ou governamental. Todo indicativo de crise – da alta dos preços dos alimentos a gente vivendo na rua – é sempre um elemento ligado à pandemia. Substitua a carne pelo ovo, o feijão pelo macarrão e o gás pela lenha de seus móveis quebrados. Infelizmente há uma crise natural, ela veio no vento, e o momento exige sacrifícios.

Segundo o IBGE, entre 2017 e 2018 – depois do golpe que afastou Dilma – 10,3 milhões de brasileiros passaram privação de alimentos. São 5% dos brasileiros. Segundo o estudo, de setembro de 2020, 10,5 milhões de brasileiros sofrem algum tipo de privação alimentar. A ONU, em julho de 2020, confirmou que a desnutrição só vem aumentando no governo Bolsonaro. A insegurança alimentar moderada e aguda aumentou 13% no país entre 2016 e 2019.

Já que ter memória é quase um crime, permito-me recordar. No início dos anos 2000, vivendo uma situação em que o PT ainda não governava o País, mas estava à frente de sua maior cidade, São Paulo, trabalhei em um projeto pioneiro de inclusão digital, que se transformou em política pública. Inauguramos os primeiros telecentros do Brasil na periferia sul da cidade. O Jardim Ângela, à época, foi listado como o local mais violento do planeta. O Capão Redondo era um símbolo da cultura periférica nascente. Rap, street dancing e literatura marginal rompiam a cena cultural paulistana. Organizações civis e religiosas combatiam a fome, a pobreza e a violência locais.

Em 2002, o Brasil ocupava a 13ª posição no ranking global de economias medido pelo PIB em dólar, segundo dados do Banco Mundial e FMI. Chegou a ser o 6º em 2011, desbancando a Grã-Bretanha. Hoje voltamos a passos largos para o Brasil de FHC.

Em algum tempo, viajei por todo o País e vi pessoas se beneficiarem de programas governamentais, sejam redistributivos ou de formação, de aprimoramento e recolocação profissional. Vi as pessoas com os filhos na escola, sendo atendidas em programas médicos, odontológicos e dentários. Com os anos, vi espaços culturais e de lazer sendo criados, famílias reformando suas casas, ônibus e lotações lotados de trabalhadores com a carteira assinada. A violência foi diminuindo consideravelmente. Passados poucos anos, vi alguns daqueles jovens excluídos entrando na faculdade, galgando para posições profissionais mais qualificadas, melhorando a vida de suas famílias.

A parcela da população em situação de extrema pobreza no País era de 13,6% em 2001, caindo para 4,9% em 2013. Enquanto a renda média dos brasileiros, no geral, cresceu 4,4% entre 2003 e 2014, a renda dos 40% mais pobres cresceu 7,1%. Por isso o índice Gini (que mede a desigualdade e a concentração de renda) caiu de 0,581 para 0,515. Em 2020, estudos do Banco Mundial mostraram que, se houve esse aumento da renda e redução da pobreza até 2003 e 2014, o Brasil foi perdendo tudo nos anos seguintes.

Quando trabalhamos em projetos sociais e políticas públicas (e trabalhei assim em cidades como São Paulo, Osasco, Porto Alegre e outras mais), mantemos o hábito de, anos mais tarde, em situações de tristeza, recobrar-nos com a lembrança de pessoas que vimos mudar radicalmente seus caminhos. Presenciei (talvez até contribuí um pouco) com milhares de casos, mas a maioria sequer conheci tão bem. Mas sempre há os que, por algum motivo, fizemos parte de sua vida mais de perto. Em 2020, em um desses momentos, consegui listar cerca de 90 nomes queridos. Percebi que ainda mantinha contato com cerca de 35, 40 pessoas. Algumas ainda muito próximas. Como a amiga do Aliança (Osasco) que vi retomar os estudos, trabalhar ao meu lado, ingressar na faculdade e criar sua família. Ela ligou e me convidou para sua formatura. Aos 32 anos, enfim, uma arquiteta formada. Fui à festa e, como previsto, saí de lá emocionado. E, no meio da madrugada paulistana, em busca de trajetos de ônibus, andei quilômetros a pé pelo Centro de São Paulo. Barra Funda, Arouche, República. Tive que pular famílias inteiras dormindo nas praças, misturadas ao lixo acumulado.

A deterioração das gentes… Hoje não há menos do que 52 milhões de brasileiros desalentados, subutilizados e desempregados. Os desalentados, que desistiram de procurar emprego, somam 5,8 milhões de pessoas. Os subutilizados, que vivem de bicos e expedientes, trabalhando menos horas e dias do que gostariam, são 32,9 milhões de pessoas. E há 13,1 milhões de desempregados no mercado formal. A atual taxa de desemprego no Brasil é a maior desde 1992.

Vim pulando gente que se esqueceu de ser gente, lembrando do país de poucos anos atrás. Lembrando de pessoas que tomavam o mesmo avião que eu, de Belém para São Paulo, voando pela primeira vez com roupas amarradas em sacas, ao invés de malas. Recordando jovens do Capão que entraram na universidade e fizeram planos de estudo, de vida, de futuro. Rememorando projetos de transformação social, de cooperativas de programadores, de núcleos culturais, de fábricas de reciclagem de produtos de informática, de revitalizações de áreas públicas, de cisternas no semiárido e de luz chegando a todos, de médicos cubanos atendendo quem jamais viu um doutor, de sonhos e esperanças que conseguiam caminhar, mesmo às duras penas, para se concretizar. Tentando reviver uma década em que havia mudança e esperança.

No Brasil, em média, morrem 3600 pessoas por dia, de todas as causas. Atualmente, um número idêntico morre só de Covid. Nossos mortos dobraram. As pessoas morrem por falta de atendimento hospitalar, de remédios, de médicos. Em apenas três dias, ouvimos um ministro chantagear a população, afirmando que só haverá aumento do Auxílio Emergencial se vendermos as estatais. Um ministro da Saúde criticar o lockdown. Uma famosa apresentadora sugerir que presidiários sejam cobaias de laboratório. O Conselho Federal de Medicina abster-se do uso do famigerado kit Covid. Uma vereadora com milhões de votos sugerir que idosos sejam largados à morte nos hospitais. Um youtuber com milhões de jovens seguidores pedindo uma intervenção norte-americana por aqui. E todos têm seus admiradores…

Vim caminhando até a manhã nascer, entre os rostos sujos e deformados que moravam no chão, entre passageiros de semblantes duros e ocos de esperança nos ônibus. Entre o lamento e o espanto. Lamentando por não saber mais em que momento poderemos voltar a sonhar, mudar, construir, planejar um outro mundo. E espantado pelas pessoas não mais lembrarem de um tempo nada distante, onde um novo país era construído. Foi como uma fenda no tempo, mas existiu.

Desci do último ônibus e voltei à Era Grotesca, onde o conformismo nasce do esquecimento e da desesperança, do costume de viver pisado, ao rés do chão.