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A Geleia Geral Brasileira – quem nos conta sobre o mundo?

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O tempo talvez chegue
Quando enganos tão só tenham guarida
Na estranha e tosca fé da plebe, que antes
Crerá naquilo que os soldados pregam
Que no que anjos e apóstolos professam.


Joseph Beaumont, (Psiyche, 1648)

Nesses dias que escorrem entre noticiários e CPI, eventos coletivos e declarações oficiais estapafúrdias, ficamos boquiabertos com quantidade de falsidades, mentiras conscientemente repetidas e omissões que fazem com que a apreensão do cotidiano seja algo como mastigar pedregulhos. Como se absolutamente nada a que assistimos tivesse mais conexão com o mínimo conhecimento adquirido do mundo e da realidade.


Variamos entre cloroquinas e impropérios, entre defesa da ciência como “discurso neutro” e imunidade de rebanho, entre o isolamento (que todos defendem em público) e a necessidade de sair para ganhar o dia, entre proibições de encontros sociais e chamadas para manifestações. Todos clamam por máscaras, discursam sobre modelos seguros e comentam com entusiasmo jogos de futebol com aglomerações de torcedores sem máscara (ao arrepio dos “protocolos”). Clamam pela volta da “normalidade” ou pela aceitação do “novo normal”, mas esquecem de alertar que quaisquer dessas normalidades incluem a ausência de trabalho, emprego, comida, moradia e acesso a serviços públicos para a imensa maioria. Comemora-se aumento de produção e lucros do agro e sugere-se comer menos. Cada subida de degrau na ladeira da fome e da miséria é acompanhada por cursos de empreendedorismo e sugestões para “gente comum” aplicar no mercado financeiro.

Nada deveria espantar uma sociedade que viu sua trajetória ser alterada por processos criados pela mídia e pela sua elite, sem a menor conexão com fatos reais. De “políticos são todos corruptos” e “a corrupção é o grande mal brasileiro”, passou-se para a Lava Jato e o impeachment, ambos processos sem o menor liame com fatos sólidos. A fantasia bem elaborada e levada a sério gerou valores e hábitos que se arraigaram na comunicação social. Um sítio, um triplec e uma pedalada fiscal definiram o nosso presente. Foram acompanhados de terraplanismo, supremacia racial, mamadeira de piroca, facada sem sangue e refrigerantes produzidos com fetos abortados – longe de serem fantasias de outro teor, possuem o mesmo peso e serviram a mesma causa. Não há motivos para se ridicularizar uma excursão à fronteira da Terra plana e não fazer o mesmo com os processos julgados por Moro.

As ilusões criadas atingiram os píncaros, não se tratam mais de sofismas, relativismos ou pragmatismos. A retórica do discurso político uniu-se à sedução midiática lá atrás, quando as massas solidificaram-se no jogo político. A construção da realidade e os mecanismos de convencimento abandonaram de vez seus aspectos lógicos, tornaram suas ligações emocionais mais automáticas, e o uso de qualquer argumentação perdeu a amplitude. Só nos movemos entre um limitado espectro de possibilidades explicativas para qualquer fato real – se uma posição ultrapassa um pequeno conjunto de imagens/narrativas já definidas, não vai encontrar respaldo no entendimento coletivo. Por exemplo, pesquisas para a presidência (em um Estado de exceção) mostram a liderança de um candidato e um partido que não existem nas mídias.

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A mentira não é mais nobre ou pontual, grande ou parcial, conveniente ou social. Ela importa tanto quanto um fato concreto ou um conhecimento que achávamos adquirido. O mesmo peso e a mesma vaporosidade. O que é palpável não mais existe. A construção das realidades utiliza-se dos mesmos recursos há tempos, mas sua fermentação tornou-se descontrolada, como se a receita de massa desandasse, crescendo de volume monstruosamente.

Não tratamos de fake news, interpretações ideologizadas de contextos, visões de fé unívocas do mundo e nem mesmo de simples boatos com finalidades políticas imediatas. A preocupação é o material de informação e formação, o conjunto de elementos disponíveis para que as pessoas possam entender a realidade que as cerca e tomarem suas decisões. Há uma gradação entre os discursos (e suas imagens): há aqueles sensíveis e básicos no processo do conhecimento; os discursos e imagens já reduzidos e empobrecidos em relação ao modelo original; e, finalmente, os discursos e imagens que se utilizam somente da ilusão, impedindo a apreensão da realidade sensível, palpável, do chão que pisamos. E passamos a dispor apenas da última categoria. Os construtores do mundo externo a nós erraram a medida. Não há mais solidez na mínima informação.

Ao mesmo tempo, toda uma gama de personagens e discursos políticos foram silenciados. Interesses do trabalhador, reforma agrária, papel social do Estado, direitos humanos básicos – todo um conjunto de ideias e práticas de intervenção social foram (quase) excluídas do imaginário coletivo, em um esforço coordenado que perdura, incansável.

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Assim, não deveria causar espanto a geleia geral brasileira que os jornais do Brasil não anunciam. Aqui é a terra onde o Estado promove a morte, a fome é um destino manifesto, vacinas são postas em dúvida por pessoas de formação superior, jovens são presos em festas para em seguida serem enlatados em meios de transporte, um líder fascista é culpabilizado por seus maus modos e muitas vezes idolatrado por suas vítimas, a oposição ao fascismo só é aceita se partir de quem promoveu a sua ascensão, as polícias promovem o crime organizado, tribunais tomam decisões políticas, representantes eleitos por despossuídos legislam a favor de 1% da população, uma massa famélica recebe um auxílio emergencial e doa o dízimo para os seus pastores.

As vozes dissonantes participam do mesmo complexo ilusório: protestam contra um evento esportivo sem perceber que defendem um gigante da mídia que promove eventos similares. Aceitam a demonização de um único culpado e saem às ruas para exigir a sua queda, sem refletir sobre os parceiros que tomarão seu lugar. O sistema de espoliação do trabalhador e do pobre não é questionado. A exclusão é aceita. A fome não é colocada na mesa de negociações, sem tetos darão sua casa aos manifestantes por algumas horas. As eleições – único caminho viável para quem não tem a força e o poder de cumprimento da lei ao seu lado – são um tema condenado, prosseguindo no caminho de condenar qualquer politização.

Perdemos o chão, marchamos sobre terreno gelatinoso. Se este país começar a ser reconstruído, não bastará reverter o estrago causado, não será suficiente restabelecer instituições que perderam função e credibilidade, não bastará redistribuição de renda e justiça social. Será preciso refazer todos os mecanismos de comunicação entre as instâncias sociais. Dar elementos para reflexão e tomada de decisões que incluam vozes escanteadas e tenham alguma conexão com a vida vivida. Que nos deem de volta a sensação de alguma realidade. Sem isso, não poderemos mudar o mundo e nem lutar contra seus donos.